O incidente aconteceu no caixa da filial de uma rede de lanchonetes na Zona Sul do Rio – não vou dar o nome da rede nem detalhes sobre o (bom) lanche. Fiz um pedido relativamente grande – parte para consumir ali e parte para levar –, fui servido e paguei com uma nota de R$ 50. Ao receber o troco, percebi que o caixa havia cobrado a menos, deixando de registrar a parte para viagem, avisei-lhe e perguntei quanto era a diferença a pagar. Aí começou o problema.
O rapaz disse que precisava zerar a operação e registrar a compra toda de novo. Tudo bem. Uma vez feito isso, repeti a pergunta “qual a diferença a pagar?”, dando início ao seguinte diálogo:
Caixa: R$ 19,40.
Eu: A diferença deu isso tudo?!
Caixa: Não, esse é o preço.
Eu: Mas eu já paguei uma parte. Quanto falta pagar?
Caixa: R$ 37,45.
Eu: O quê?! Como a diferença pode ser maior que o preço?
Caixa: Ah… Não. Isso foi o troco que eu dei.
Eu (já com alguma incredulidade e vendo a impaciência crescer na fila): Cara, mas é simples, basta pegar o valor total e diminuir do quanto eu paguei. Nem precisa fazer de cabeça, tem uma calculadora aí.
O rapaz pegou a dita calculadora, mas parecia enrolado. Entre a fome a irritação, eu disse um “dá licença”, peguei a calculadora dele, fiz a conta (R$ 6,85), dei R$ 7 e, para não complicar mais, disse “agora é só me dar R$ 0,15”.
Foi quando eu percebi que o caixa estava sorrindo. Mas não era um sorriso de deboche, do tipo “enchi a paciência desse Mané”, e sim um sorriso constrangido de quem sabia que estava fazendo algo errado, mas não conseguia entender o quê.
Perceber isso transformou a minha irritação num espanto deprimido. Aquele rapaz havia sido treinado para registrar os pedidos, informar à máquina quanto fora pago e dar o troco que a dita máquina estipulasse. Uma situação simples, porém fora da rotina, fez sua cabeça entrar em loop. Como os guias mirins que precisam voltar ao começo de sua preleção decorada quando interrompidos, a solução para ele seria registrar tudo de novo, pegar de volta o troco, me devolver a nota de R$ 50 e recomeçar do zero. Se eu tivesse pagado com débito automático, era capaz de ser saído cheiro de fritura dos ouvidos do coitado.
O assustador na situação é que não se tratava de falta de conhecimento de matemática (a calculadora estava ali para isso) ou de treinamento para a função, mas de capacidade de raciocínio lógico elementar, de responder de forma simples a uma pergunta igualmente simples. Para vestir aquele uniforme, o rapaz certamente não era analfabeto, mas a educação formal que recebera não o havia preparado para pensar além das fórmulas e condicionamentos. Em tese, o material básico para o raciocínio estava ali, mas não havia sido estimulado, treinado como qualquer outra parte do corpo humano.
Quantos outros como ele existem por aí, trabalhando e sendo produtivos, mas incapazes de ultrapassar determinados patamares não por ignorância (entendida como falta de conhecimento), mas por limitação na capacidade de raciocínio? Pior, que tipo de sociedade se forma a partir disso?
Como você reage diante de uma pessoa que parece não entender o que está dizendo? Conte sua história.
Leonardo Pimentel é jornalista, editor do site "Por que a gente é assim?", blogueiro bissexto, nerd proud e caiu num caldeirão de mau humor quando era bebê.







Comentários
Gostei da história.É real, e muita gente ja passou por coisa igual ou parecida. Conhecí o site hoje, 21 de novembro, e achei interessante o tipo de coisa comentada.Vou passar a olhar e observar mais detidamente. Felicidades ao site.
O sujeito é mal-treinado, colocado pra atuar em frente a um público escroto – cansei de ver pessoas dando piti porque receberam cebola mais pra esquerda do hamburguer, e a religião delas só permite comer cebola à direita do hamburguer. Não me refiro a você, mas sim ao ambiente opressor de lanchonetes de fast food.
Você pega um novato e taca ele num rio de piranhas, basicamente.
Nesses locais o mantra é GO GO GO, se o atendimento demora, o gerente chicoteia o cara.
Não justifico a incompetência dele, mas sim a incompetência dos gestores, em criar um ambiente de trabalho que beira a insalubridade.
Em tempo, gostei do texto e da provocação.
Escrevo pelo http://www.papodehomem.com.br , Leonardo.
Le1 no inedcio vc fala de aumento popucalional. Pois e9, me lembrei de uma leitura cientedfica que fiz (tenho, talves, um grave erro ne3o assimilo dados data, nome assimilo a informae7e3o e o que tiro de llie7e3o e aprendizagem dela isso e9 ruim Guru Nepf4?) que fala do por que o homem foi quem dominou e domina a terra, por que ne3o foram as baratas, por exemplo? E nessa materia o escritor fala que foi por que o homem foi o fanico que procurou registrar e passar de gerae7e3o pra gerae7e3o o conhecimento. E continua a registrar tudo ate9 hoje, o fruto e o inedcio pra tre1s. Disse tbm que a diferene7a foi sf3 um momento de decise3o, quando um ancestral humano resolveu escrever o que via, op que sentia; e isso tomado de um esfore7o por que e9 natural a preguie7a. Impressionante ne9 Nepo?Concordo em parte, quenaod vc diz que a Meddia Tradicional cansou, ou talvez seja uma fore7a de expresse3o. Ne3o digo que cansou, mas ficou viciada, ne3o mudou o caminho com o tempo, tornou-se parte de uma grande imobilizae7e3o, para o domednio das massas.Sobre os Blogs: correto! Acho que o surgimento do blog e9 um novo iluminismo , do tipo: Crie a sua prf3pria verdade e0 partir das anteriores . Por que digo isso? Por que fico chateado com os acadeamicos e cientedstas que criticam a Wikipe9dia, por exemplo. Poxa, quer dizer que no mundo team os que falam a verdade e os que ouvem o que e9 dito? E os que ouvem escolhem entre acreditar na verdade dita ou falar mentiras? Je1 perdi as contas de quantas vezes a cieancia colocou e tirou o queijo da lista dos produtos canceredgenos, ou de quantas vezes a “cieancia” teve que se retratar para recompor conceitos e “bulas” erradas. E acrescentando mais um pouco sobre a “cieancia”, neste meas, em Aventuras na Histf3ria (para viajar no tempo), das pe1ginas 40 a 45 a mate9ria e9 justamente As Grandes Fraudes da Cieancia.Falo sobre isso por que? Por que acho legal, mesmo que o Blog ainda ne3o ilumine, permanee7a, mesmo que numa espe9cie de “limbo”, em atividade prece1ria. No caso do meu blog por exemplo: ne3o tenho grandes leitores, ne3o tenho muitos leitores, mas poucos leitores assedduos, o assunto ne3o e9 pra todos, talves pra uma certa quantidade, um nicho inexpressivo talves. Talves eu tenha erros de portugueas, talves eu tenho um pouco de inconsisteancia, talves mas uma coisa eu sei: em muitos momentos eu percebo a importe2ncia do assunto e das coisas que falo, ne3o pra uma casta, um grupo considere1vel, mas esse grupo se expressa e percebo a sua movimentae7e3o.Espero ter contribueddo