Do outro lado do balcão, com aquela expressão de vendedor de carros usados em filme americano, a atendente da imobiliária procurava me tranquilizar quanto à idoneidade de sua firma: “Pode ficar tranquilo, que aqui é tudo muito seguro. Nossa empresa é evangélica”. Embora a história – verídica, aliás – tenha acontecido há mais de uma década, a ideia de que ser evangélico funciona como um atestado de bons antecedentes

Para a cientista social Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Superior de Estudos das Religiões (ISER), esse preconceito positivo reflete a maneira como os próprios evangélicos se estabeleceram no país, a partir do início do século XX. “Quando os pentecostais chegaram ao Brasil, eles se identificaram como um grupo fechado, que não se misturava com o resto da sociedade, não se envolvia em assuntos mundanos”, diz ela. “Era aquela ideia das mulheres de coque e saia comprida, das pessoas que levavam uma vida ascética, com uma moral irretocável.”

Na avaliação dela, além do próprio comportamento dos protestantes, a natureza do catolicismo no Brasil contribuiu para a consolidação dessa imagem ascética. Para ela, o catolicismo “foi dialogando muito e sendo muito permissivo, de certo modo em, relação a outras religiões, a determinados hábitos e costumes. Ele foi incluindo, e não excluindo, justamente para agregar e se fortalecer como expressão cultural, mais do que só religiosa.” Ao recusar essa permissividade e se fechar em suas práticas, a comunidade protestante reforçou a imagem de retidão moral.

Tal imagem, porém, segundo Christina, começou a sofrer uma modificação a partir dos anos 70 e 80, com a inclusão cada vez maior dos evangélicos na sociedade. “Hoje não se identifica mais tão facilmente o evangélico. Ele se veste como qualquer outro, ele está nas repartições, ele está no mundo, efetivamente. Eles estão na política, são empresários”, explica a pesquisadora. Com o crescimento das chamadas seitas neopentecostais e da chamada Teologia da Prosperidade, que valoriza os ganhos financeiros e enfatiza a contribuição de dízimos, houve mesmo uma inversão na imagem do evangélico. Já há por uma parcela da sociedade, na avaliação da especialista, “uma percepção do evangélico como aquele que está ludibriando, como aquele que quer angariar pessoas para uma fé com objetivos escusos”.

Um campo da sociedade no qual a questão da moral ilibada do evangélico continua a ter um peso importante é na relação com a violência urbana, especialmente nas áreas das grandes cidades sob o controle de grupos de traficantes de drogas ou milicianos. Christina lembra que, em comunidades dominadas por determinada facção, os moradores de áreas controladas por grupos rivais são considerados inimigos. “O evangélico consegue ter uma circulação nesses espaços, de uma forma diferenciada da de outras pessoas que moram nesses lugares, mesmo as que são trabalhadoras e não têm envolvimento direto com o tráfico.” Essa seria, também, uma explicação para a atuação cada vez mais intensa desse grupo religioso no atendimento espiritual a presos.

Mas a presunção de reputação ilibada tem mão dupla. Aparentes desvios que seriam relevados em pessoas de outras religiões são cobrados dos evangélicos de forma mais intensa. Em julho, o jornal “Extra” publicou uma reportagem com a dentista Ingrid Calheiros, supostamente namorada do goleiro Bruno, suspenso do Flamengo. Além de ser ainda formalmente casado, Bruno está preso em Minas Gerais, acusado de ser o mandante do sequestro e posterior assassinato da ex-amante Eliza Samudio, que movia contra ele um processo para reconhecer a paternidade de um filho. A reportagem destacava que Ingrid é evangélica e frequenta a Igreja Batista – foi a única pessoa de alguma forma ligada ao caso a ter sua religião identificada pela mídia.

A cobrança de um comportamento coerente com a imagem difundida pelos evangélicos se converte, na opinião do jornalista Jorge Antônio Barros, em uma pressão muito violenta sobre o indivíduo. Jorge, que é editor adjunto da editoria Rio de “O Globo” e foi editor da revista “Vinde” (hoje chamada “Eclésia”) de 1995 a 1998, frequenta a Igreja Presbiteriana da Gávea e se converteu ao protestantismo aos 12 anos, numa cruzada evangelística do pregador norte-americano Billy Graham, no Maracanã. Na opinião dele, ser cobrado por sua crença para seguir um comportamento padrão, é lamentável. “Essa pressão pode, inclusive, gerar um comportamento falso, na tentativa de atender a essas expectativas”, opina. “O ideal é que, qualquer que seja a crença, a pessoa procure viver de forma coerente com esses princípios, mas sabendo que ela própria pode desrespeitar alguns daqueles princípios. Isso talvez amenizasse a cobrança.” O jornalista lembra que esse tipo de cobrança não se limita a crenças religiosas: “O comunista não pode frequentar um shopping, o evangélico não pode ir a uma escola de samba, considerada uma coisa mundana.”

Christina Vital da Cunha confirma esse tipo de cobrança, que vê como uma fonte de sofrimento para quem a vive. “Ao mesmo tempo em que a identidade evangélica é uma espécie de limpeza moral, nos ambientes em que o evangélico é visto como intolerante, ele vai sempre tentando moderar sua identidade evangélica em torno dessa intolerância que é a ele agregada. Vai dizer ‘eu sou evangélico, mas eu jogo futebol, eu vou à praia, eu vejo televisão’. Vão tentando, de algum modo, moderar essa perspectiva ascética que tem em torno deles, ligada à intolerância, vão vivendo nesse fio da navalha em termos da relação com a sociedade.”

Embora afirme nunca ter sofrido, ao longo de sua carreira, preconceito explícito por ser evangélico, o jornalista reconhece haver um patrulhamento por parte das pessoas de outras crenças. “Já fui cobrado por atitudes: ‘Ah, você dança? Mas você não é evangélico?’ é um comentário comum”, explica. “Alguns grupos não viam isso com simpatia, ou julgavam que, por eu me declarar evangélico, seria o tipo santarrão, me vendo em posição superior aos outros. Todo tipo de cobrança é muito ruim para a sociedade. As pessoas não precisam de rótulos, precisam se libertar disso para terem uma vida melhor”, conclui.

Ser evangélico é realmente sinônimo de levar uma vida acima de qualquer crítica?

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