Como é que eu pude ter me esquecido que o sexo é essa coisa inacreditavelmente maravilhosa?

Eduardo Haak, “Bens móveis, bens imóveis”

“A publicitária Ana Lúcia Tavares, 35 anos, costuma ir duas a três vezes por mês ao sex shop para saber das novidades que poderá usar com o marido”, escreve o Globo. Coitada da Ana Lúcia. Mal sabe onde mora o inimigo.

Pois é. E eu que pensei que com meu romance real Hierosgamos, publicado há coisa de uns 3 anos, já tinha escrito tudo que era possível escrever sobre sexo, mas não, gente. As coisas estão cada vez mais loucas, desnaturais, esquizofrênicas, digam aí, um tema proibido pela Igreja, pelo YouTube e pelo Ministério da Cultura. Francamente. Não fosse o sexo e a gente nem estaria aqui (enquanto isso, o Papa Bento, numa “fala revolucionária”, acaba de liberar o uso da camisinha).

No outro dia, por exemplo, fui procurada por uma repórter que, muito mal-intencionada (brincadeirinha, Roberta), pediu pra ser minha amiga no Facebook. Bem, amiga é mesmo pra essas coisas, vocês sabem, embora por mais que eu tenha falado sobre sexo a vida toda nada disso nunca me ajudou. A Jô, minha melhor amiga de antigamente, era das que adotavam aquele velho clichê mineiro comum na nossa geração, pós-derrubada do mito da virgindade: “Dava mais que chuchu na serra.”

Precisei encontrar um chuchu de verdade, nascendo do nada aqui na minha serra, pra entender o que o dito queria dizer. Mas a verdade é que “dar” não leva ao orgasmo mulher nenhuma, cá entre nós, o gozo feminino baseia-se em receber, é ou não é? Receber e relaxar, claro.

Agora. Não estou mais aqui para ensinar nada a ninguém, nem tenho mais tempo pra isso. Quem quiser aprender os segredos do orgasmo múltiplo pode seguir o link e ir até o meu velho blog, onde encontrará mais posts antigos sobre sexo explícito que bandido acuado no Rio. Oba.

Mas voltando à Roberta, que escreve praquela revista da Abril, nem eu lembro qual, publicou a matéria em papel no mês passado e eu nunca vi, não saiu na internet… A Roberta queria que eu voltasse a um passado que não me condena, pelo contrário, tem me garantido a alegria momentânea e sem muita frescura, presente e futura. Queria que eu contasse pra ela e suas ávidas leitoras insatisfeitas como atingi a marca impressionante de mil orgasmos em seis meses depois que encontrei o Alan na rede, isso é que tirar o atraso, não é mesmo? (Who’s counting!, ele diria.)

Pois embora a princípio assim pareça, e de certa forma o tema picante seja bastante previsível — sabem como é, quem tem fama deita na cama… literalmente: no outro dia, imaginem, o Google me mandou um email ameaçando tirar os anúncios do meu blog (que, cá entre nós, nunca me deram dinheiro algum) por causa de um post publicado, anos atrás, com o nome “Sexo Oral”, mas gente, francamente, eu falava de prosa poética erótica, não de boquete, vamos combinar: eu mesma tirei o anúncio do ar, ou vocês pensaram que eu ia apagar meu texto por conta de uns míseros trocados?  ufa, fim do travessão —, este post não é sobre tudo o que você queria saber sobre sexo. É sobre tudo que você não quer saber sobre autoajuda, esse câncer das letras que corrói a literatura, o tempo, a xoxota, tudo.

Vou confessar pra vocês que apesar de eu ter sido esotérica radical por grande parte da minha triste vidinha carente, nenhuma das loucuras que fiz por falta de amor me ajudou em nada, nadinha, seguem algumas:

— ter participado sem parceiro de um workshop de sexo onde o terapeuta nos recomendou, a quatro mulheres dormindo no mesmo quarto, que nos masturbássemos juntas antes de dormir, por puro “exercício”, não me entendam mal, masturbar-se é ótimo, mas… a quatro?

(Em tempo, uma delas era a Jô, que virou Deva Amrita, vocês sabem, esotérico de verdade tem que mudar de nome, o que eles chamam “nascer de novo”. Nunca cheguei tão longe, embora muitos acreditem que meu nome tenha sido inventado pelo espírito do Osho)

— ter me dedicado por mais de um ano como tradutora, intérprete e seguidora, a um “xamã urbano” gay americano pelo qual me apaixonei e que descobri, mentia e nem sentia, além de ter confessado em público, quer dizer, num círculo ritual “indígena”, que tinha medo de mim, ou da minha vagina devoradora, não sei bem

— ter desenvolvido um “método infalível” para perder peso, inibição e solidão baseado nas Fases da Lua, criado um grupo de mulheres para exercitá-lo em sessão grupal e, pior, escrito um livro sobre isso

— ter sido abraçada e apalpada em rodinhas esotéricas por gente abusiva que eu detestava, e que me dava arrepios de nojo, ui!

E chega. Vou poupá-los dos anos de academia, das pernas musculosas mais grossas que a cintura, da fome constante, dos litros de água consumidos, do vegetarianismo radical, da eterna busca da verdade quando o que eu precisava de verdade era caçar serviço. Pois agora que tenho serviço de sobra, e um marido na cama prestando um bom serviço amoroso — e que, tudo bem, vive nervoso, grita comigo e de vez em quando me bate — afirmo a vocês, de coração:

— Pra ser feliz nesta vida só há uma solução: trabalho, sucesso e dinheiro — ops, já foram três, às quais deveria, é claro, somar a saúde e o amor de praxe, mas uma coisa é certa, e essa é uma mesmo, dois pontos outra vez: ninguém neste mundo tem a receita certa de felicidade, muito menos os mentirosos profissionais de plantão, e me acreditem, conheci intimamente essa gente.

Portanto: não faça o que eu digo. Faça o que eu faço: não escuto ninguém e vivo a minha vida do jeito que dá, um dia depois do outro pra ver no que vai dar. Agora, se vocês insistem, se querem mesmo que alguém lhes diga o que fazer para ser feliz, uma dica certeira: dediquem algum lazer à literatura, à boa literatura, digo, não às porcarias mais vendidas anunciadas por aí a torto e a direito. Esse conto de Eduardo Haak bom pra domingo, por exemplo, aí na epígrafe do post. Boa semana procês.

Imagem do vídeo “Hierosgamos”, cuja nova versão foi censurada pelo YouTube, depois de o original ter sido visto por mais de 80 mil pessoas.

Tudo o que você sempre quis ler sobre sexo mas ninguém tem coragem de escrever. Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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