Em menos de uma semana, o Rio de Janeiro passou de uma cidade em clima de expectativa com a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 para uma praça de guerra. Acuados pelo projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que os expulsou das favelas da Zona Sul, do Centro e da Tijuca, traficantes de drogas deram início a uma onda de ataques que, em seis dias, resultou em 96 veículos incendiados na capital, na Região Metropolitana e na Região dos Lagos.

A reação do poder público veio com a maciça invasão da Vila Cruzeiro – uma das mais perigosas favelas do complexo de comunidades da Penha, na Zona Norte – por uma tropa da Polícia Militar, com apoio de blindados dos Fuzileiros Navais, seguida do anúncio, pelo Ministério da Defesa, da liberação de 800 homens do Exército para atuar na segurança da cidade.

Desde o início dos ataques, quando se percebeu não serem fatos isolados, a expressão “terrorismo” passou a dominar o noticiário e mesmo as conversas do carioca.

Mas a guerra do Rio pode ser comparada ao que fazem grupos como a al-Qaeda e outros extremistas no exterior? Para responder a essa pergunta, “Por Que A Gente É Assim?” ouviu o especialista Arthur Bernardes Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio.

Por Que A Gente É Assim?: O que está acontecendo no Rio é terrorismo?

Arthur Bernardes Amaral: Do ponto de vista teórico, existe uma diferença fundamental entre o que está acontecendo no Rio de Janeiro e o que se entende como “terrorismo”, que é a motivação. O terrorista tem uma motivação política, ele age em busca de uma transformação no governo. O anarquista do século XIX e a esquerda armada da segunda metade do século XX queriam mudar os governos de seus países. Da mesma forma, o extremismo islâmico dos últimos vinte anos quer “limpar” seus países da influência do Ocidente. Esse terrorismo militante pode até se valer do crime como forma de se capitalizar, mas sua motivação é política. Já o crime organizado, quando se utiliza dos métodos do terror, tem uma motivação estritamente econômica. É uma reação à perda de um mercado. Esse tipo de situação já aconteceu na Colômbia, onde os cartéis de Cali e de Medellín se utilizaram de métodos do terror contra o governo.

PQAGEA: Esse tipo de ataque seria uma estratégia de longo prazo ou algo passageiro?

ABA: O terror do crime é uma ação de curto prazo. É preciso notar outra diferença importante. O terrorismo político é proativo, o militante armado age espontaneamente porque quer mudar o governo, ele não reage a uma provocação. Tem um projeto e uma estratégia mais ou menos duradoura. Com o crime acontece o contrário. O terror dele é reativo, é um ato de desespero. No Rio de Janeiro, é claramente uma reação ao avanço das UPPs. O crime não quer chamar atenção. Isso é ruim para os negócios. Eles preferem corromper o agente público, não enfrentá-lo. O terrorista, não. Ele quer chamar a atenção, mesmo a um custo político alto. Esse é um dos preços do terror, ele provoca repúdio.

PQAGEA: Como o poder público deve reagir?

ABA: É difícil uma solução unificada. As UPPs são boas em alguns casos, mas existem apenas 13 para quase mil favelas em toda a cidade. O projeto precisa ser consolidado. Mas ele mostra a chegada do poder público, uma iniciativa que conquista corações e mentes. O crime precisa de algum nível de complacência local, nem que seja o silêncio imposto pela força das armas. As UPPs ajudam a quebrar esse silêncio, como mostra a utilização dos serviços do Disque-Denúncia. A população já vê que o criminoso não é um bom patrono. Ele é um sequestrador constante com o qual a vítima acaba se acostumando. O crime ocupou aquele espaço, que agora está sendo reocupado pelo poder público. Com as UPPs, o estado está ganhando a confiança da população, mas elas têm que atingir toda a cidade, se não o bandido migra. Nós estamos vendo também um crescimento em crimes comuns, como arrastões. Acontece que o grande mercado da droga está na Zona Sul, nas áreas de maior poder aquisitivo. A maconha é vendida a preço baixo, mas droga realmente lucrativa é a cocaína, que custa caro. Ora, as UPPs estão instaladas justamente na Zona Sul e agora também na Tijuca, o que dificultou o acesso do tráfico a esse mercado. Com isso, o bandido se volta para outros tipos de crime. É preciso cada vez mais haver postos avançados do estado. Não se pode resolver o problema apenas na metade do Rio.

PQAGEA: E a reação da população?

ABA: Existe um processo interessante que é “heroização” do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM), por conta dos filmes “Tropa de Elite” 1 e 2. O cinema de massa tem essa capacidade. Já aconteceu, por exemplo, com o FBI e até com a CIA. Muitas pessoas estão se referindo à cobertura em tempo real das TVs como “Tropa de Elite 3 ao vivo”, o que aumenta o apoio popular. Esse crescimento dos arrastões também contribui para piorar a imagem do criminoso. O tráfico de drogas, em geral, é um crime que não afeta muito a vida da população, ao contrário dos assaltos. Nesse momento, o estado, por meio das UPPs, entra com uma postura diferente. Antes, no palco do tráfico, a polícia matava (no sentido concreto e no figurado) o ator, que era substituído por outro no “papel” de traficante. Agora, ela mata o personagem, desmontando o cenário, a estrutura do tráfico. O resultado é a conquista da confiança e da lealdade da população. Vale lembrar que essa “heroização” também tem um enorme impacto na autoestima do policial.

Fotos: Reprodução TV Globo
Vídeo: O Globo

Especialista avalia se os ataques de criminosos no Rio de Janeiro são um ato de terrorismo Arthur Bernardes Amaral

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