“Outra maneira de aferir a influência da obra gilbertiana é mediante sua contribuição para o estoque de ideias que hoje, acertadamente ou não, dominam a cultura nacional. Muitas vezes não se sabe nem sequer de quem elas procedem, da mesma maneira pela qual as pessoas discutem psicanálise sem nunca terem lido Freud, ou são marxistas tendo apenas ouvido o nome de Marx, ou falam de carisma sem se darem conta de que estão utilizando um conceito sociológico forjado por Max Weber, o que é prova exatamente da força dessas teorias, que impregnam o ar intelectual do tempo”

Evaldo Cabral de Mello

A expressão ovo de Colombo consiste numa metáfora que serve para designar uma descoberta ou uma solução para questões que a princípio pareceriam muito simples e até bastante óbvias. Sua origem está na história de que, para provar que a descoberta da América seria um grande feito, e não uma realização previsível e sem valor, Cristóvão Colombo teria desafiado os companheiros que desdenharam de seu feito a colocar em pé um ovo de galinha sobre a mesa.

Como ninguém conseguiu solucionar o desafio, ele demonstrou que bastava amassar levemente a base do ovo para que este não tombasse. Dessa maneira, provou que, a despeito da aparente simplicidade, as soluções exigem dedicação e inteligência para serem elaboradas e executadas.

Há 10 anos, a propósito da comemoração do centenário do escritor Gilberto Freyre, o historiador Evaldo Cabral de Mello escreveu o artigo O Ovo de Colombo Gilbertiano (http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/ovocolombofreyre.html). Cabral de Mello apontava em seu texto, cujo título transformou-se em “feliz expressão”, a enorme contribuição do pensador ao desmistificar a ideologia eugênica vigente, nos anos 1930, de que a mistura étnica seria a causa central dos principais malefícios da colonização portuguesa no Brasil.

Isto é, nossa população mestiça, formada por negros, índios e brancos, não era a responsável pelo atraso socioeconômico brasileiro. Ao contrário, como disse o antropólogo Hermano Vianna, o autor de Casa-Grande & Senzala (1933) cometeu a “façanha teórica de dar caráter positivo ao mestiço”. “Mestiço é que bom!”, defenderia mais tarde o antropólogo Darcy Ribeiro.

Por si só a façanha freyriana de confrontar as teorias de “embranquecimento” da população como solução para os rumos do país já teria sido suficiente para o reconhecimento do escritor como um dos maiores pensadores nacionais. Mas a obra de Gilberto Freyre rendeu muito mais frutos, ou, ainda, outros ovos de Colombo.

Foi com Casa- Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e várias obras que o autor introduziu uma prática um tanto comum aos chamados novos estudos históricos, surgidos entre as décadas de 1970 e 1980. Em plenos anos 1930, Freyre dedicava-se a contar a história da formação da cultura nacional a partir não só de documentos oficiais, mas de cantigas de roda, correspondências familiares, receitas culinárias, anúncios de jornal e diversos materiais considerados até então secundários para os historiadores convencionais.

Para investigar como se constituiu a sociedade patriarcal, o sociólogo-historiador atentou não só para temáticas grandiosas como a escravidão, o sistema de produção econômica e a miscigenação, mas também para assuntos do cotidiano dos brasileiros dos primeiros séculos, como as relações sexuais, os modos de vestir, morar e se comportar.

Foto: Francisco (Gifted)

Enormes períodos de Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos foram dedicados a retratar como se dava a iniciação sexual dos sinhozinhos, quais eram as formas das escravas arrumarem seus cabelos ou de que maneira as mucamas catavam piolhos e lavavam os pés das senhoras brancas.

Essa atenção aos detalhes que Gilberto Freyre encontrou eco consistente nos estudos de correntes da historiografia internacional, a partir da chamada “virada cultural”, um movimento surgido na década de 1970 e 1980, em países como Itália, Inglaterra e França, de pesquisadores que passam a investigar as particularidades de culturas locais.

Temos aí mais um “ovo de Colombo gilbertiano”, pois Freyre inaugurou em sua obra a utilização tanto de temas incomuns quanto de recursos investigativos inovadores para a historiografia de sua época. Para tratar de sexualidade, culinária, arquitetura, entre outros, Freyre mobilizou fontes historiográficas pouco ortodoxas, como correspondências, anúncios de jornal, receitas culinárias e diários íntimos.

Seu olhar voltado para a vida cotidiana, para os detalhes e para as particularidades da cultura brasileira assemelha-se à produção textual de outro renomado literato brasileiro, Manuel Bandeira. Este se intitulava poeta menor e se desculpava por não saber fazer versos de guerra, como declarou em seu poema Testamento (1943).

O poeta, ensaísta e crítico literário José Paulo Paes, em seu poema Epitáfio, fez uma bela homenagem a Manuel Bandeira por meio de um jogo de palavras num formato concretista que unia os termos menor e enorme (Paes, 1983). Esta brilhante relação semântica entre conceitos antagônicos vinha evidenciar o que todos já haviam compreendido: que mesmo declarando-se um poeta menor, Bandeira era um gigante.

Assim como Bandeira, Gilberto Freyre não foi propriamente um pesquisador voltado para o registro da guerra ou de outros grandes acontecimentos, mas antecipou-se à renovação do fazer histórico de estudiosos mais recentes, inventando um jeito de fazer história que se atinha não só aos eventos tradicionalmente considerados importantes, como também às particularidades, aos detalhes e às minúcias dos objetos de estudo e reconhecendo nestes a grandiosidade do que é menormenor (Paes, 1983).

Especialistas criticam a ocupação do Complexo do Alemão e a cobertura da imprensa

Fernanda B de Hollanda é jornalista e autora da monografia 'O Ovo de Colombo Gilbertiano e a Nova História – O ineditismo do fazer histórico nas obras inaugurais de Gilberto Freyre'

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