Consumidor paga para ser enganado.

Carlos H. Peixoto, autor de A volta da mulher barbuda, lançado esta semana pela KindleBookBr (torne-se um fã clicando aqui, e não ligue: este não é mais um comercial não solicitado na sua atribulada vida conectada,  é pura informação jornalística, tá?)


Acreditem. No outro dia, enrolada com a transcrição para a web de algumas expressões em grego, enviei um email para o meu departamento de arte com o código em HTML e alguns caracteres faltando. Não deu outra. No dia seguinte, lá estava na minha caixa de mensagens um email publicitário… escrito em grego! Bingo. Pesquei as letras que faltavam e resolvi o meu problema, até parece aquele velho ditado, “entrega ao Universo que ele se encarrega de tudo”, lembram? Pois é. Basta hoje em dia entregar à internet.

Mas nem sempre o spam por email é tão útil assim, claro. Bastou-me enviar um pedido de reserva em um hotel de Copacabana pra receber dezenas de ofertas… de reserva em hotel em Copacabana, é isso mesmo, fiel até o último detalhe. Isso, pra não contar as dezenas de drogas para aumentar seu pênis, sua libido, sua conta bancária, aumentar, aumentar… e olhem que nem pênis tenho (mas bem que gostaria, dizem os maus linguarudos).

Pois é. Cuidado com qualquer coisa que você escreve, posta ou divulga na rede, seus emails privados inclusive. O Wikileaks está aí mesmo para provar isso, com domínio censurado e tudo. Se cuidem, meus amigos.

Lula, é claro, de futura saudosa memória, nem precisa dos hackers na internet para ser indiscreto: faz isso todo dia e o dia todo, e pior, como estratégia de marketing governamental, eficientíssima, aliás. Com suas explícitas afirmações incorretas, é globalmente considerado o líder mais carismático da atualidade. Lula merece. Entende tudo de marketing político, vai daí uma sugestão, de coração, para o futuro profissional do ex-presidente: como comprova Oscar Niemeyer, do alto de seus 103 anos dedicados à extinta prancheta, nunca é tarde pra revelar novos talentos, vai fundo, Presidente!

Isso, pra nem falar de Chico Buarque, que de maior compositor popular do Brasil virou… controvérsias literárias à parte, o melhor e mais popular escritor do Brasil, não necessariamente nesta ordem, né? Devolve o Jabuti, Chico! Ah. Melhor deixar pra lá. Não li o romance dele, portanto, quem sou eu para criticar?

Já a turminha gulosa do PT, vamos combinar, tem certa tendência a atirar no próprio pé. No outro dia fiquei sabendo, imaginem, de um inédito furo de reportagem (redundância: se não fosse inédito não seria furo, perdão aí, querido editor), ainda que um bocado atrasado: vocês sabiam que o escândalo do mensalão, capitaneado por Marcos Valério, embora não tenha tido força suficiente para destruir o inabalável Partido do Governo, acabou destruindo por tabela o mercado publicitário de Belo Horizonte? Eu, não (conto o milagre, mas nem que me matem conto a fonte).

Não sobrou pra ninguém, e o mineiro perdeu o trem: foram todas as contas de mão-beijada pras agências paulistas, nem pra vender deu de tão apressadas, francamente. Fernando Sabino deve ter se remexido na tumba, coitado, ops, será que ele na época já tinha morrido? Google nele, ufa, escapei dessa. Mas não vou escapar certamente de uns emails futuros, me empurrando os mais-vendidos de Sabino.

Nem precisa. Li quase todos, é meu Grande Mestre Cronista, mineiro como eu, como Marcos Valério (ui!)… e como Carlos H. Peixoto, colunista exclusivo do Vale do Aço e autor da epígrafe aí de cima. Recomendo. A famosa e gostosa crônica carioca, aliás, todo mundo sabe: sempre foi coisa de mineiro. E tenho dito.

Voltando ao mercado publicitário, coitado, o mais combalido dos últimos tempos. Carlos Peixoto nos conta em seu livro como o setor foi misericordiosamente à lona com a proibição dos anúncios de cerveja, “Daí, até o veto da propaganda de cerveja na TV, foi como um pequeno trago para um alcoólatra”. Como não tenho tido tempo pra assistir televisão, fiquei na dúvida se era fato ou ficção, mas, tudo bem. Afinal de contas, não tem sido este o nosso estilo de vida atualmente? Confundindo cada vez mais o fato com a ficção que o gerou? Ou seria o contrário? Um engodo que desce redondo, e a gente ainda pede pra pagar por ele.

Pois não bastassem os banners, links e conteúdos pagos nos atacando por todos os lados, inferno!, conspurcando os nossos caprichados vídeos caseiros, postados de graça no excelente YouTube — me engana que eu gosto: de graça até criar o hábito arraigado, claro, pra depois cobrar os tubos por anúncios indesejados, consumidor paga pra ser… etc., etc. —, a gente agora faz fila noturna em corredor de shopping, com champanhe e tudo, pra assinar contrato vitalício de consumo, é isso aí.

Fico aqui me perguntando se essa gente toda — sendo inadvertidamente usada como figurante no badalado lançamento do iPad esta semana, febre mais aguardada nas livrarias sem bairro do que os livros de Harry Potter, e divulgado como tão mágico quanto — sabe realmente o que está comprando. Pois o incensado iPad, meus amigos, é exatamente isso: o jeito mais eficaz inventado até hoje pra obrigar consumidor a pagar por conteúdo baixado, quem teria imaginado, hein? Paga-se por tudo: pelos apps, pelos minutos conectados, pelos anúncios veiculados, e até pelos livros gratuitos ou pirateados, não é maravilhoso isso?

Tudo, claro, depois de ter pagado bem caro por seu sonho de consumo mais acalentado: uma tevê modernizada, interativa e desplugada que vai com você aonde você for, cool, mas não, não se incomode comigo. Ainda vou ter o meu se Deus quiser, é pura inveja de frustrado consumismo a troco de meus parcos trocados. Aproveite o seu pra ler alguns bons livros, tá?

Boa semana procês (como diria qualquer bom mineiro conectado, uai).

A saga ingrata do moderno consumidor de conteúdo Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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