Não sei se era bem isso que psicólogos e educadores queriam dizer com a importância do reforço positivo, mas a verdade é que tem gente – e, a julgar pelo crescente número de livros de picaret… aham, de autoajuda  publicados e vendidos a cada ano, cada vez mais gente – que acha que tudo se resolve com autoestima. Eu discordo. Discordo completamente.

Claro que um mínimo, ou melhor, uma dose média de autoestima é fundamental, inclusive pra humanidade inteira não acabar em suicídio. Mas, assim como acontece com qualquer outra coisa, inclusive remédios e substâncias naturalmente produzidas pelo corpo (adrenalina, ocitocina etc.), tudo que é demais faz mal. Tem pouca coisa mais chata que uma pessoa que já deixou sua saudável, ágil e atlética autoestima virar uma obesa egolatria, um seachismo bombadão ou mesmo um narcisismozinho pouco mais que rechonchudo. E tem mais gente assim a cada dia.

E por que isso? Porque, nos tempos que correm, a maioria das pessoas não acha que precisa de algum motivo – qualquer um – pra se achar o gás da última Ty Nânt gelada do deserto. Assim como os componentes do nicho populacional mais imbecil do universo conhecido, o das celebridades “famosas por serem célebres”, a maioria desses seres autoapaixonados não precisa – ou tem – nada que justifique tamanho amor. Mas até aí, eu ainda aguentaria. Mesmo. Eu sou implicante, claro, mas é que imbecilidade não precisa necessariamente causar alergia: muitas vezes basta manter uma certa distância saudável e ela passa, sem deixar maiores seqüelas, além de um certo tédio, que, na maioria das vezes, não chega a ser mortal.

A verdade é que os narcisos são felizes, e a felicidade dos outros, mesmo quando acompanhada de maus-tratos cruéis ao meu bom senso, não me incomoda. O problema são seus efeitos colaterais. Porque, no mundinho interior destes super-homens e mulheres tão perfeitos, maravilhosos e cheios de si, não há espaço pra mais nada, o que equivale a dizer “pra mais ninguém”. Não há tempo para a educação, a gentileza ou o respeito aos outros, porque eles próprios são os reis, imperadores e presentes de Deus (quando não o Próprio) para o resto da humanidade, e todos nós deveríamos agradecer de joelhos por podermos desfrutar de sua presença, seus barulhos, suas opiniões vociferadas, sua sujeira, sua falta de noção e suas proles absolutamente insuportáveis, todos os segundos, minutos e horas de cada dia.

Por isso é que eu digo, a auto-estima ampla, geral, irrestrita e sem motivos que se foda. Três vivas aos tímidos. Todo o poder aos inseguros, aos que se examinam sempre, aos que duvidam de si frequentemente, aos que, mesmo suspeitando fortemente de que são, sim, muito inteligentes, talentosos, bonitos, capazes, determinados, gente boa ou sei lá o que, nunca perdem de vista que mesmo suas maiores qualidades ou são efêmeras, ou são mais obra do acaso e/ou genética do que mérito deles, e que sempre se lembram de que até suas mais preciosas qualidades não têm a mesma importância para todas as pessoas.

São eles os que preferem ser gentis, que escolhem não impor sua presença ou seus gostos aos outros, que sabem que há mais gente no mundo, e que o mundo não é sua plateia cativa. São estas pessoas que consideram que todos têm pelo menos tanto valor quanto elas próprias, e merecem, no mínimo, respeito. Talvez elas sofram mais que as outras. Talvez gastem mais dinheiro em terapia e antidepressivos, talvez demorem mais pra achar quem as ame como são, talvez precisem beber ou fumar um cigarrinho diferente de vez em quando pra se soltar um pouco, mas, quando o fazem, como são fascinantes… Cheios de camadas, feito cebolas; cheios de segredos, feito matrioshkas; de talentos insuspeitados e belezas bem escondidas, os tímidos conseguem ir se revelando devagarinho, mantendo-se longa, se não eternamente, interessantes, instigantes. Nos dando vontade de saber mais, de abrir outra porta, olhar atrás de outra cortina, apreciar o mesmo ambiente sob várias luzes e ver os desenhos que as sombras fazem ao mudar de lugar.

São eles que representam a diferença entre ser humano, na melhor acepção do termo, e ser um bichinho inconsciente, inconsequente, sujo e feliz, cujas únicas preocupações são comer, excretar e acasalar – e AR-RA-SAAAAAAAAAAR muito, néam ? – até a morte.

Aliás, por falar em morte, se uma catástrofe nuclear ou natural acontecesse e desse fim a 90% da humanidade, seria ótimo se só restassem vivos os tímidos, inseguros e vacilantes. Eles certamente demorariam bem mais pra refazer a civilização, mas, quando finalmente chegassem lá, e chegariam – ou alguém consegue imaginar os tímidos vestindo nada além de uma folhinha de parreira, tomando banho de rio e fazendo cocô atrás da moita pra sempre? – tenho certeza de que essa civilização seria muito, mas muito melhor. E mais digna do nome.

Em tempos de celebridade, um pouco de timidez pode fazer bem à Humanidade Cynthia Feitosa

Cynthia Feitosa é publicitária, tradutora, blogueira e implicante pela própria natureza.

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