Fotos de Mariza Fonseca

Se não foi a maior palhaçada da história da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, passou perto. Marcando a abertura do 9º Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro (que conta com a participação do Circo Teatro Artetude, integrante do projeto “Por que a gente é assim?”), cerca de 150 artistas se reuniram nas escadarias da Câmara, na Cinelândia, e de lá partiram em animada “palhaceata” pelo Centro da cidade.

Havia palhaços para todos os gostos (desde que se goste de palhaços, claro): palhaços mendigos, palhaços nobres, palhaços piratas, palhaços organizadores (estes atuando sem nenhuma palhaçada) e até sorridentes palhaços adolescentes, apenas com um pouco de maquiagem no rosto. E, para o caso de o povo não aderir à manifestação, os palhaços trouxeram o seu próprio “polvo”, gigantesco e de olhar bravo, feito com bolas de inflar.

Mais ordeiros e respeitadores que a maioria dos manifestantes ditos sérios, os palhaços deram preferência a ruas de pedestres no caminho entre a Cinelândia e a Praça XV, com encenações no movimentado Largo da Carioca e na igualmente movimentada Rua Uruguaiana. No final, claro, tudo terminou numa farta distribuição de tortas de chantilly nas caras pintadas.

Nem todo mundo entendeu, porém, o motivo de tal protesto. Embora cartazes como “Não dê patada, dê patudo” e o contagiante grito de guerra “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze” deixassem claras as profundas motivações políticas da manifestação, havia quem precisasse de mais explicações. Na porta da Assembleia Legislativa, uma das últimas paradas na palhaceata, um homem – com aquele ar típico de manifestante profissional – indagava o motivo do protesto (“nenhum”), qual a reivindicação (“nenhuma”) e por que estavam todos vestidos de palhaços (“porque são palhaços”). E lá foi ele embora sem entender que, muitas vezes uma boa palhaçada vale por si e que uma manifestação pode ter como único motivo estampar um sorriso no rosto da cidade.

Em meio a tantas figuras bizarras do cotidiano urbano, o palhaço mendigo provocava uma dúvida: era um profissional na manifestação ou mais um louco amador pelas ruas da cidade?

Passeata comum enfrenta a polícia. Palhaceata, que não é boba, traz seu próprio aparelho repressor para fechar o trânsito.

Diante da risonha cara pintada, o morador de rua parece se perguntar qual é a graça que esse pessoal vê nas ruas.

Nas escadarias da Câmara, o homem engravatado parece não notar que a figura maquiada quer que ele lhe dê um sorriso, não uma esmola.

Em manifestação de palhaços, é bom prestar atenção ao chão. Sabe-se lá o estrago que um sapato assim pode causar!

“Como se não bastasse a carga, ainda vem essa palhaça tumultuar...”

O que separa o cidadão comum do palhaço é só a maquiagem? Não seja por isso…
Palhaços tomam as ruas da cidade para mostrar que, às vezes, rir é o melhor protesto

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