Quem ouve o título da peça (agora transformada em livro) “Parem de falar mal da rotina”, imagina que sua autora – a atriz, poetisa e escritora Elisa Lucinda – gosta da mesmice. Nada poderia estar mais errado. Irrequieta no gestual e nas ideias, ela defende que a hipocrisia (e não a rotina) é a principal inimiga da felicidade. Foi com essa certeza que Elisa participou do debate sobre sexo que integrará os programas de TV do projeto “Por Que A Gente É Assim?”, gravado em um estúdio no Rio de Janeiro, e conversou com a equipe do site.

Por Que A Gente É Assim?: O sexo ajuda a explicar porque a gente é assim?

Elisa Lucinda: Olha, sexo é o grande mistério. Por que as civilizações orbitam esse tema? Porque ele é crucial. Nossa primeira casa é o corpo. A mulher é a porta do ser humano para o mundo. Mas o sexo também pode ser um problema.

PQAGEA: Somos nós que o transformamos em problema?

EL: Sim. O problema são os penduricalhos morais e legais que tentam regular as relações entre pessoas adultas e responsáveis. O Ocidente está começando a reconsiderar os contratos erótico-amorosos, que devem ser particulares. Não deu certo a ideia de legislar sobre temas como fidelidade. Isso nunca conteve o ser humano, que é o único animal que habita um mundo simbólico, que compreende conceitos como o amor. Sexo, qualquer bicho faz. O sexo com amor é infinitamente superior ao “fast foda”. Mas esse é o meu conceito. Não existe uma verdade absoluta que valha para todos.

PQAGEA: Mas as pessoas não precisam de leis para tornar o sexo complicado…

EL: Claro. Tem também a necessidade de agradar o outro, de se violentar. A gente é muito careta. Por que “puta que pariu” é palavrão? Tanto pai de família usa os serviços da puta, e parir é uma coisa absolutamente natural. Mas já reparou que todos os nossos palavrões envolvem o sexo? O que tem abaixo da nossa cintura é um tabu, uma área de hipocrisia. E nada atrapalha mais o sexo que a hipocrisia. O sujeito tem um filho veado. Ele prefere ser hipócrita, ver aquele filho veado infeliz ao lado de uma mulher, em vez de feliz com um namorado. Tudo isso para manter uma “imagem” diante da sociedade. Então o sujeito se oculta diante dos outros. O problema é que, sem o outro por perto, escancara.

PQAGEA: Hipocrisia, então, é tesão reprimido?


EL: Isso. Uma vez eu estava numa reunião e pedi licença pra fazer xixi. Uma dona começou a dar um risinho nervoso, como se ela própria não fizesse xixi. Eu, sinceramente, olhei pra ela com um certo receio. Para mim, excesso de pudor sempre oculta tara.

PQAGEA: Mas a tara é ruim?

EL: A questão é que o sexo pode virar uma coisa muito doentia. Acabo de chegar de um seminário na Espanha sobre o enfrentamento de redes de exploração sexual. São situações de uma degradação total. Um dos casos que ouvi conta que meninos virgens – garotos de oito, nove anos – são raptados e vendidos em leilões presenciais. E um sujeito paga uma fortuna pelo “privilégio” de violar o menino na frente dos outros. Existem redes de turismo sexual fazendo a ligação Europa-Brasil-África. Um sujeito absolutamente normal da Europa, um operário ou profissional liberal etc., já sai do país dele em direção a Belém do Pará sabendo que vai transar com uma prostituta de 11 anos. Esse mesmo cara, se descobrir que um vizinho estuprou uma filha ou sobrinha, acha aquilo um absurdo. Ele não se reconhece como estuprador. Esse inimigo não tem cara.

A atriz Elisa Lucinda abre fogo contra a hipocrisia, que, para ela, sempre esconde taras Elisa Lucinda

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