Uma das coisas que mais tiram do sério os militantes, de qualquer lado, seja em política, economia ou – como é o caso deste texto –  religião, é o aparente “descompromisso alienado” de quem procura se manter alheio à febre sectária. A militância insiste em que pior do que errar na escolha é omitir-se de escolher. Enunciados bombásticos à parte (para mim opinião é igual cor de roupa íntima; você não sai berrando aí qual é a sua, e é incômodo – se não chatinho – sair perguntando qual a dos outros), vamos tentar nos fixar na ideia de que a certeza de se estar exercendo a crença no único e legítimo deus é mais inflamável do que conhaque na lareira (só para aproveitar o espírito natalino).

Muita gente conhece a piada do sujeito que ia se matar pulando de uma ponte, quando foi salvo por um passante que, após algumas preleções, o fez ver que a vida valia a pena. O ex-suicida agradeceu a seu salvador, a conversa fatalmente descambou para a religião, onde ambos tiveram a graça de descobrir que pertenciam à mesma igreja – sei lá, por exemplo, “Templo do Evangelho Quadrangular de Alexandria”. Aí o salvador pensa um pouco e pergunta ao ex-suicida: “Um momento – mas você é do Templo do Evangelho Quadrangular de Alexandria Renovado ou o Templo do Evangelho Quadrangular de Alexandria Renascido?” “Do Renascido!”, diz o ex-suicida, ao que o salvador, o empurrando da ponte, brada: “Então morra, infiel!”

Apesar de às vezes embaraçoso ou irritante, o sectarismo político ou de outra natureza que não a religiosa é até compreensível, já que todas as correntes partem do mesmo pressuposto: vivemos em sociedade, queiramos ou não. Como esta sociedade organiza sua dinâmica e exercita suas escolhas são outros quinhentos, e aí a discussão começa. Mas o sectarismo religioso é extremamente curioso: ele não parte de premissa alguma. O militante religioso – pelo menos aquele a que me refiro aqui – não diz Deus existe, queiramos ou não, eu o vejo de um modo e você de outro. A assertiva dele é Meu Deus existe, o seu não – uma vez que ou se “acerta” na visão da arquitetura conceitual da deidade ou não se “acerta”. Não há meio-termo. E isso quando a discussão não descamba para O seu deus é invenção de Satanás, ou coisa pior (acredite, há).

Este tipo de militante aceita com uma disfarçada condescendência a existência de correntes de pensamento contrárias à dele, sempre com um ar de “pobres coitados, ignoram a verdade mas, em nome da sacrificante aceitação da coexistência com os inferiores, que meu Deus prescreve, vou deixar passar” – ar este que, à luz do início de qualquer discussão sobre o assunto, vira um incendiário furacão de certeza da posse da verdade e de maldição do pensamento em contrário.

Não vou declinar aqui quais as facções religiosas que hoje praticam esta espécie de certeza exclusiva. Uma olhada ao redor responde – e espero que não com muita certeza – à pergunta. Tomara que você, que me lê aqui e que provavelmente crê em algo, aceite – mesmo com algum embaraço – a premissa de que a ideia da crença na verdadeira deidade foi formulada em algum momento da História, gerando desde então várias certezas que vieram seguindo em paralelo. Espero que você use “Meu Deus” como locução interjetiva – viu? – em vez de atestado teológico-possessivo.

Mas, se você achar que não apenas só o seu Deus existe, como omitir-me de acreditar nele me garantirá o inferno, não posso garantir que eu vá salvar você de pular de uma ponte. O que, por sinal, você talvez vá querer fazer no dia em que desconfiar que seu Deus não é tão seu assim.

(Certeza de que alguns dos primeiros comentaristas deste texto – se houver – começarão corrigindo o título: interjeição com duas palavras, como é o caso de “Meu Deus”, é, na verdade, locução interjetiva. Pouparei aqui o seu trabalho. O termo “locução interjetiva” em um título, francamente, não dá – me dei então a licença gramatical. Você poderá discordar dessa minha dissidência, talvez apareça um segundo comentarista – se houver – me defendendo, e um quarto apoiando você, e a discussão vai esquentar. Bom, você pegou o clima do texto, então.)

No trato com a diferença, o sectarismo religioso é pior que o político Nelson Moraes

Nelson Moraes é publicitário, blogueiro, flamenguista e não anda muito orgulhoso de nenhuma dessas coisas.

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