Nas mãos de um escritor talentoso, o universo está contido no pessoal.
Dani Shapiro, no NY Times


Patti Smith e Robert Mapplethorpe nos anos 1960: registrando a vida

“É um romance bonitinho, meio de autoajuda”, dizia, anexada ao manuscrito, a recomendação de uma amiga — ops, peraí: o corpo do email, agora sim, o texto é que vinha anexado como arquivo, desculpem, puro vício de linguagem. Ou coisas da idade, da modernidade, não sei.

Fiquei a princípio interessada, tudo bem, mas por razões nada literárias.  Afinal de contas, a autora era de Belo Horizonte — onde, como vocês sabem, cresci e fui condicionada, ufa, custei um bocado a me livrar dessa praga — e seu nome, Ethel Kacowicz, me soava conhecido, embora eu não soubesse muito bem de onde. Não demorei a descobrir: a irmã da Ethel tinha sido casada com meu primo favorito. Bastou. Fechamos contrato, taí: embora a gente nem sempre conte, as coisas se passam simplesmente assim.

Pois nada, nada mesmo, me preparou para o choque de realidade contido naquele manuscrito, quer dizer, arquivo do word.  Algumas semanas mais tarde, embarquei desavisada na edição deste livro que toma forma hoje, pontualmente, cinquentenário da autora que através deste trabalho se tornou minha amiga: A Escritora.

Tudo deu certo no final (teria sido, como diz a Ethel, por “Deus tê-la contratado para divulgar a palavra Dele”? duvido, mas, tudo bem também, eis aí mais uma descrição do nobre ofício de escritor): o livro pronto e a alma lavada, preparada para a segunda metade da vida, mais madura, se espera, menos corrida. E com bem menos expectativas: quanto mais se vive, mais se vive, e menos se espera da vida. É isso e pronto. Feliz aniversário, Ethel.

Diz o velho ditado que para se estar feito nesta vida é preciso “plantar uma árvore, fazer um filho e publicar um livro”, lembram disso? Bem. Plantar uma árvore, vamos combinar, nem passa pela cabeça da maioria das pessoas, embora seja uma experiência imperdível vê-la crescer, eu que o diga. Fazer um filho a gente bem que tenta, mas, cá entre nós, para algumas mulheres hoje em dia virou assim, digamos, uma coisa bastante difícil. Eu e Ethel, por exemplo, não fomos capazes disso, embora o tivéssemos desejado bastante em algum momento — ela mais do que eu, como conta no livro — e terminado conformadas com os filhos de nossos maridos.

Agora. Publicar um livro, ah, isso tem se tornado cada vez mais fácil — levando em conta a franca colaboração  dos livros digitais, é claro — com cada vez mais pessoas levando a sério este tipo de compromisso, ou sonho, ou ideal. O problema é que nem todo mundo nasceu pra isso, não é mesmo?

E não é o único. Problema, digo. Embora um clássico conselho nos recomende que só se deve escrever sobre aquilo que se conhece realmente bem, aqui no Brasil persiste uma certa dificuldade em se valorizar a vida real como pretexto de literatura, mas por que, gente? Bem, sou meio suspeita pra falar sobre isso: é o gênero de literatura que eu mesma pratico, a “ficção autobiográfica”.

Enquanto em algumas rodinhas locais, cheias de preconceito, somente o relato ficcional é digno de respeito, no resto do mundo há uma onda, melhor, uma tsunami literária de legítimo realismo, algumas vezes, é verdade, corrompida pela tentação de tornar a própria vida bem mais interessante do que realmente é, faz parte, fazer o quê. A transparência das redes sociais que se encarregue de combater o vício.

Nem precisa. O que conta, na verdade, é menos o conto do que a forma como é contado, pelo menos pra mim literatura é isso: a arte da palavra em primeiro lugar. O assunto vem em seguida, segue uma confissão que como editora me deveria ser proibida, francamente: curto como ninguém uma boa história real, desde que bem contada, claro, disso não posso abrir mão — e A Escritora se encaixa nesta categoria, podem conferir. Como leitora, não ligo muito para ficção, principalmente quando esta apela para o chavão, o puramente comercial, o que, cá entre nós, tem sido mais normal do que se desejaria. Uma pena.

Resta a exigência de encontrar o filão, marcado em cada história de vida o que mobilizaria de alguma forma a multidão. Em outro livro, que estou lendo no Kindle, por exemplo — o “Just Kids”, de Patti Smith —, há o apelo inegável da época, os mágicos anos 1960 com seus born-bummers*, todos aqueles artistas incríveis que, com seu pioneirismo, verdadeiramente transformaram vidas ­— as nossas e as deles, antes dessa deplorável enxurrada de falsas celebridades que nos acomete atualmente. E mais, a curiosidade natural, a identificação pessoal, que passa bem longe da simples bisbilhotice, sabem como é.

Em última instância, no entanto, e para cada um de nós, cada vida intensamente vivida torna-se um tema de franco interesse humano. Por outro lado, não custa afirmar, a grande ficção também se baseia nisso, não numa “historia de sucesso”, uma receita infalível de “como vencer na vida sem nenhum esforço”, mas, fundamentalmente, o contrário disso: como fazer na vida algo que valha realmente a pena, como se entregar — com medo ou sem —, como não se furtar ao desejo e ao impulso de ser, de não ceder, de seguir um caminho que só pertence a você. E que só se revela, na verdade, bem depois de trilhado, ou, quem sabe, de bem escrito e publicado.

Recomendo os dois livros. Boa semana procês, desta vez, meio a contragosto (brincadeira), mais mineira ainda. E pior: ex-hippie, ex-vagabunda e agora, como se não bastasse, escritora ainda por cima.

*ops, desculpem o trocadilho, e o anglicismo também, por conta de Alan, meu marido americano; os chamados baby-boomers, devido à explosão de natalidade no pós-guerra, viraram aqui born-bummers, em bom português: vagabundos natos.

Apesar de opiniões em contrário, a vida real parece ser um pretexto excelente para a prática da arte e da literatura Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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