Nunca fui muito com a cara daquela cortininha. O que faziam ali de tão secreto?

Entrando no avião, passei devagarinho. Olhei pra cada uma das três figuras já sentadinhas em gigantescas poltronas. Sacando e secando a superioridade dos tipos. Não pareciam ver ninguém à sua frente. Não havia ninguém à sua frente.

Três figuras. Nove gigantescas e executivas poltronas ficariam vazias durante as cinco horas de voo lotado para os 144 de nós que nos espremiam na econômica.

A comissária de bordo se posicionou para fazer suas mugangas. Se a máscara cair, faça isso e aquilo. Quem está nas portas de emergência se ligue nas paradas. Tem dois banheiros na frente e dois atrás. Eu ouvi bem e foi isso que ela disse.

Eu tava na 6C. É bom que é corredor. Inclina uma besteirinha, coisa e tal. Pertinho da saída.

A moça passou oferecendo água, refrigerante, cerveja ruim. Um saquinho de amendoim. Eu disse que sim pra guaraná e que não pra amendoim. Bebi de gutiguti e senti ma vontade arretada de ir no banheiro. Foi levantar e perceber que ia ser difícil chegar atrás. Dois carrinhos impediam a passagem. Duas pessoas já faziam fila para dar suas próprias mijadinhas.

Mas a comissária falou. Tem dois na frente e dois atrás.

Abri a cortininha só pra ver a moça com uma garrafa de Contreau numa bandeja servindo o único coroa que vinha acordado. Os dois outros bacanas já roncavam, protegidos por aquelas máscaras para dormir que a gente sempre vê nos filmes. Coque intacto no cabelo, a doida olhou pra mim com cara de braba. Primeiro levou o indicador aos lábios, depois fez um gesto ríspido, dizendo que não, que eu não poderia estar ali, mandando voltar.

Me senti como um filho que entra no quarto de casal durante uma trepada dos pais.

Eu não poderia ficar ali. Eu não poderia nem mijar ali. Eu não poderia nem ver o que se passa ali. Deveria recolher-me à minha insignificante 6C e segurar a bexiga pelo menos até todo mundo ser servido de água, refrigerante, cerveja ruim e amendoim.

O certo é o certo, apaziguava um amigo. A gente aproveitou a promoção, comprou passagem de milha, dividiu tudo em dez vezes sem juros. “Essa galera tem até Dinners”, advertiu.

Mas, porra, proibir até de usar o banheiro foi sacanagem. Isso não poderia ficar assim.

Fiz as contas. Éramos 144 do lado dos pobres contra três engomados na executiva. Bote aí a tripulação e mesmo assim a proporção era maior do que 10 pra um. Éramos muitos, poderíamos ser fortes.

E se a gente se rebelasse? Afinal de contas, aqueles nove poltronas vazias eram um insulto a minha vontade de mijar. Território improdutivo, digo logo.

O plano estava montado. À minha ordem, a gente agiria devagar e com firmeza. Enquanto alguns arrancavam as cortinas, tomaríamos de assalto as doze imensas poltronas, a garrafa de Contreau, os pratos chinfrosos, o banheiro. ‘Mijo para todos’ iria ser nosso lema.

Há  quilômetros de altitude, o que poderia nos acontecer?

Abaixo o saquinho de amendoim! Abaixo o carrinho que nos empata de mijar. Vive la révolution! Power to the people! Si se puede!

Democraticamente, todo mundo teria direito a 25 minutos de relax no executivo poltronão .

Consegui formar uma célula rebelde. A senhora da 6B tava comigo. Dois adolescentes mais atrás confirmaram a participação. Ouvi falar que lá pela 25 ou 26 também já tinha gente se organizando. A galera da 11, que nem reclina, certamente se juntaria à luta.  O povo, unido, é gente pra caralho!

Num guardanapo cheio de propaganda desenhávamos nossa estratégia de ação. Novas fileiras estava prestes a aderir. O clima era de euforia. O episódio ficaria conhecido como “a queda da cortininha”. Ficaríamos famosos e iríamos dar entrevista no Fantástico (o da Globo ou o da Record, tanto faz).

Foi quando o piloto pediu novamente a palavra. Questão de ordem sempre tem prioridade nas inscrições.

“Atenção tripulação, preparar para o pouso”.

Já? Acabou o voo? Logo agora? Só podia ser sacanagem. Apertei o cinto e, indignado, olhei de lado. Na 6D, uma boyzinha de olhos fechados sorria abraçada com uma bolsa de marca.

Tenho certeza que foi ela quem dedurou a galera.

A rebelião dos que têm de voar apertados Ivan Moraes Filho

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

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