Tava lá pra todo mundo ver. Na internet, reproduzido de um par de noticiários da tevê nacional.

Toda a cena acontece na beira da praia. Uma praia legal, bacana, da Zona Sul da Região Metropolitana do Recife.

Os artistas são meia dúzia de policiais militares. Defensores da lei e da ordem, devidamente lotados no Sexto Batalhão da PM. Rebocam um par de sujeitos sem camisa. Algemados, dominados. No filme, fazem o papel de bandidos, suspeitos que são de terem tentado cometer um crime.

Um descamisado leva um empurrão, uma rasteira. Outro é visto deitado. Coturno numa bochecha, areia na outra. Compulsoriamente olha para o mar enquanto as ondas lhe invadem narinas e boca.

Em qualquer lugar do mundo, o nome disso é tortura.

Num estado que é conhecido pela valentia de seu povo, não é a primeira vez na nossa história recente que a autoridade policial dá exemplo de covardia. Basta puxar um pouco pela memória.

Em 2006, um grupo de catorze adolescentes foi abordado a caminho do carnaval. Haviam cometido o delito de serem negros e pobres. O agravante de terem descolorido o cabelo para participar da folia.

O julgamento foi instantâneo e a pena aplicada automaticamente: todos jogados na maré. Dois não sabiam nadar e jamais chegaram à margem. Entre os sobreviventes, um foi assassinado pouco antes de depor na justiça.

Expulsos da corporação, três policiais respondem ao processo em liberdade.

O julgamento ainda não tem data marcada. O comandante do batalhão não está entre os réus.

Também não é a primeira vez que o sadismo oficial é registrado em vídeo.

Às vezes – como agora – é a população quem grava e a imprensa quem divulga. Como no bloco “Cabeça de Touro”, em 2007, quando alguns alunos da escola da polícia deram uma mortal gravata num jovem folião – para formarem-se na academia poucos meses depois.

Às vezes os próprios torturadores fazem questão de registrar as maldades que cometem.

Há um par de anos circulam imagens feitas pelos próprios policiais da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas. Nelas, um punhado de adolescentes apreendidos é obrigado a cantar e dançar acompanhados de palmas e risadas.

Na ocasião, o Movimento Nacional de Direitos Humanos protestou (como agora). Pediu-se ação da PM. Medidas preventivas e reativas. A resposta foi reticente: era difícil identificar os envolvidos. “A rotatividade nesse batalhão é muito grande. O corporativismo”, desculpou-se o então coronel.

Poucos meses atrás, outro vídeo já começou a bombar maldosamente sob a categoria ‘humor’. No interior de uma delegacia, policiais (civis ou militares) obrigam dois sujeitos algemados a beijarem-se na boca. “Encosta uma língua na outra, vai!”, ordena um. “Nós nos amamos, diga!”, manda outro. Não se tem notícia de punição.

Ao ser confrontada com as últimas imagens de covardia praieira, a Polícia Militar respondeu oficialmente. Que iria investigar o caso. Que os responsáveis seriam punidos “se forem comprovados excessos”.

Experiente repórter, meu amigo João Valadares conta que uma média de 50 policiais pernambucanos são expulsos do serviço por corrupção e violência todos os anos. É muito, mas muito pouco.

Quase 25 mil PMs estão nas ruas do estado todos os dias. Muitos cumprindo sua tarefa com honradez e coragem.

Para se proteger dos outros, às vezes uma câmera de vídeo não é suficiente.

Só a PM de Pernambuco não vê a brutalidade das imagens exibidas pela TV Ivan Moraes Filho

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

Tags:  , , , , , , , , ,