Meu tempo se derretendo, numa homenagem à arte eterna de Salvador Dali.

Life is what happens when you are busy making other plans.
John Lennon

Eu já tinha tudo bem preparadinho, como faço toda semana direitinho, ali por quinta-feira, se nada intervir no meu caminho rotineiro: começo a pensar na crônica, sonho um pouquinho com a ordem esperada das palavras, alguma tirada engraçada e uma meia dúzia de associações mais ou menos contraditórias ou sem sentido, et voilà: sai crônica a cada domingo, bem certinha, com o mesmo número aproximado de caracteres como não reza nenhum contrato escrito. Isso, de domingo e de caracteres, nada tem a ver com alguma exigência do editor nem nada disso, é só minha própria chatice, mais uma loucura careta de minha parte: fazer questão de que tudo se desenrole rotineiramente sem se desviar nem um pouquinho. O problema é quando alguma coisa fininha, discreta com aquela incômoda areiazinha  que sempre sobra do mergulho no biquíni, se infiltra nas melhores intenções, e agora chega de tanto diminutivo, porra. Eu não sou isso, embora seja em quase todos os aspectos uma  pessoa bastante diminuta, como muito bem sabem os poucos (e cada vez menos) amigos que me conhecem pessoalmente (puxa, eu não sabia que ela era tão pequenininha…).

Pois cá estava eu 100% preparada para escrever sobre os interstícios do sucesso que estou experimentando pela primeira vez na vida (hum, interstício: este estrupício vem do dicionário bilíngue de administração que estou editando, desesperada, não consigo passar da letra I, tem sempre alguma distração infalível se infiltrando pelo caminho errado), deixa eu explicar como é: eu queria contar que quando o sucesso começa a chegar vocês sabem, aquele período em que as coisas começam a rolar, mas falta dinheiro para se esbaldar, contratar, ampliar, e a gente acaba trabalhando tanto que é aí nesse ponto que os mais fracos desistem, chutam o balde (quer dizer, o pau da barraca, chutar o balde é totalmente outra coisa, bem mais radical e definitiva e um péssimo assunto para domingos, desculpem aí), deixam tudo isso pra lá e preferem relaxar — é uma ralação sem fim e sem esperança de melhorar, mas melhora sim, isto é, espero que um dia vá melhorar, acho que é mesmo por isso que o sucesso é tão difícil de alcançar, nem precisa mais explicar, mas ah, peraí que ficou faltando uma coisinha: pra ter sucesso realmente em alguma coisa é preciso estar disposto a desistir de algumas velhas rotinas, como ir ao cinema e a caminhada diária, por exemplo. Acaba não sobrando nenhum tempo (tentei por duas semanas seguidas assistir ao filme sobre o Facebook no cineminha de Itaipava, mas fracassei, não arranjei tempo).

Mas aí me dei conta de que enquanto eu me alieno metodicamente de tudo (pois é, esqueci de contar que pra chamar o sucesso é preciso se desligar de tudo o que te distrai, ou te preocupa, ou te atrai, sabem como é) pelo tempo inteiro necessário para produzir, produzir, produzir sem cessar… o mundinho lá fora não para de se arrebentar, tudo parecendo estar a um segundo da explosão radical, da fatal invasão do radicalismo funcional, vejam o Egito, por exemplo: sai de um grande mau para outro ainda maior, já pensaram em ter que amargar uma puta saudade da ditadura de Mubarak?

Por outro lado, me vi também esta manhã, enquanto gastava meu já lamentado tempo escasso como se fossem meros trocados em busca de alguma nova e importante informação na imprensa, lendo na internet que a querida Dilminha já vai se distanciando do estilo paz e amor do nada saudoso Lula  da Silva (pelo menos pra mim, né?), vai que alguma coisa em que eu não acreditava nada, nada, acaba dando certo como se fosse nada? Só resta torcer.

Com tudo isso, e com tudo o mais que tenta atrapalhar isso, sobra a duras penas do meu projeto original de crônica para este domingo, e que já entra atrasada na pressa danada de um mundo afetado pelo positimediatismo das redes sociais, ufa,  apenas a sabedoria indelével do indiscutível lirismo de John Lennon, desse sim eu sinto saudade: faça você o que fizer, a vida é o acontece enquanto você perde o seu tempo fazendo tantos planos, quaisquer outros planos, sabem como é.

Arte é isso aí: qualquer coisa que enfrente e derrote o passar do tempo. E tenho dito.

Bom domingo procês, ou pelo menos o que resta dele, não é mesmo? E pra não dizer que passei o dia à toa, à toa (calma aí: trata-se apenas de mais uma citação do velho Bandeira), como aliás deveria passar todos os meus domingos não fosse a droga da droga do sucesso iminente, vai pra vocês neste link o que eu penso de mais da metade de tudo isso que escrevi aí em cima. Divirtam-se.

Mais uma receita de como não vencer na vida a não ser que se faça um grande esforço Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

Tags:  , ,