Questões relacionadas com a fé podem ter importância no ano que está começando? É possível que sim, embora este seja um campo tão variado que as previsões são arriscadas.

Para os adeptos do Progresso, que dominaram a cena na segunda metade do século XIX, questões desse tipo logo se tornariam irrelevantes, no próprio ritmo do avanço das ciências. Um fruto dessa tendência foi o movimento positivista, que chegou a ter enorme influência no Brasil. E ainda aparecem, mesmo agora, os que gostariam de varrer o pensamento religioso como se afasta uma erva daninha. Mas os fatos não concordam com essas simplificações. Definitivamente anacrônico é o pensamento de linha fundamentalista que gostaria de devolver a humanidade ao estado teocrático. Mas, excluídos esses exageros, a fé aparece, aqui e ali, por baixo da superfície brilhante da civilização industrial.
Ela cresce na medida do vazio espiritual dessa civilização. O consumismo indefinido não serve como projeto de vida — inclusive porque o planeta Terra já deu a entender que não tolera tanto esbanjamento.

No Brasil, igrejas ditas evangélicas parecem esbanjar vitalidade, e servem de ponto de agrupamento para pessoas que perderam suas conexões familiares ou culturais. É possível supor que elas encontrem mais adeptos na chamada classe C — de onde parece vir a maioria dos pastores.

A Igreja católica conheceu (ou está conhecendo) tempos muito difíceis, a perda de fiéis parcialmente conectada a escândalos como o da pedofilia.

Mas já se nota uma reação — um exemplo concreto seria a figura dinâmica do novo arcebispo do Rio de Janeiro, que é um bom comunicador.

No ritmo dessas disputas, pode-se afirmar que , cada vez mais, no terreno da religião, a tendência é a consolidação de uma sociedade pluralista, onde há espaço para muitas propostas — algumas delas vindas do Oriente. Essas propostas farão o necessário contraponto a uma sociedade onde o fenômeno religioso deixou (o que parece uma tendência irreversível) o centro do palco.

Jornalista e membro da ABL vê com otimismo o panorama da religiosidade no Brasil Luiz Paulo Horta

Luiz Paulo Horta é jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras.

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