Um dos maiores elogios que já me fizeram – e as maiores provas de que ele foi bom mesmo são: a) que não foi dito com intenção de me agradar e b) quase 30 anos depois, eu ainda me lembro dele com alegria – foi de que eu era difícil de rotular. Infelizmente, não sei se ainda hoje faço jus a essa (in)definição. Gostaria de fazer. Até porque uma das coisas que mais me espantam, aonde quer que eu vá, é a paixão das pessoas por rótulos. Que, afinal, nada mais são do que um eufemismo pra preconceito. E preconceito não é bom, certo ?

Depende. A rapidez em classificar, e consequentemente, selecionar as pessoas, não é intrinsecamente má. Faz parte da evolução, já que lá na pré-história, quando éramos pouco mais que macaquinhos com alguma habilidade manual, era importante julgar sem perda de tempo o estranho que se aproximava antes que se aproximasse demais. Amigo ou inimigo, possível parceiro sexual ou estuprador, presa ou predador, correr pro abraço ou correr pra longe eram distinções que tinham que ser feitas enquanto era tempo, e a maestria nessas tomadas de decisão instantâneas podia significar a diferença entre conseguir o almoço ou virar o jantar.

Infelizmente, como tantas outras características evolutivas, essa propensão permanece feroz, mesmo depois que já não é tão necessária ou ficou simplesmente desvantajosa, feito dentes do siso ou pêlos na axila.

Todos temos preconceitos, acho eu, e os mais sábios – em minha e só minha opinião, nunca é demais reforçar – são justamente os que admitem que os têm e, mais que isso, lutam contra eles. Acho que posso me orgulhar de já ter vencido alguns, mas talvez seja porque eram herdados, e portanto, mais fáceis de jogar fora, como um jarro de flores especialmente feio que tivesse pertencido a alguma tia-avó e que tivesse ficado esquecido pela casa até o dia em que os donos percebessem que aquilo era um lixo, não combinava com a decoração e, francamente, estragava todo o clima. Os que vêm de mim mesma, ou que me tocam mais de perto, permanecem, mas ainda que eu tente fazer piada ou justificá-los com estatísticas, são o que são: preconceitos.

Sobre estes, os que resistem, não vou me alongar, aqui: são coisa minha e muito feinhos pra que eu os pavoneie na frente das crianças. Ou mesmo dos adultos. Mas prometo continuar brigando contra eles.

Então por que diabos estou falando nisso, você pode perguntar. E eu respondo: porque é assim que eu falo. E o meu modo de falar é muito parecido com o meu jeito de escrever, interrupções, parênteses e tudo. E depois porque, normalmente, quando eu quero entender algum comportamento humano, parto do exemplo mais próximo que tenho (eu mesma, duh) e a partir daí consigo entender melhor – ou não – meus semelhantes.

Pra variar, estou escrevendo justo sobre uma parte do preconceito/rótulo que acho mais difícil de entender: aquela em que as pessoas, não contentes em rotular os outros, adotam alegremente rótulos pra si mesmas. O que começou como estudos sociológicos, com ênfase na aplicação às ciências do consumo, dividindo seres humanos em tribos e subtribos, virou hype, virou moda, virou algo desejável. Mas por que alguém vai querer se limitar ? Claro que cada um pega pra si o rótulo mais interessante, e prega nos outros – sem nem se importar muito com precisão ou simetria – os que diminuem, afastam, ridicularizam. Mas ainda assim, por que querer ser Chanel nº 5 pra sempre, e não variar entre Chanel, Champagne, Cândida, Coca-Cola e Cianureto (pra ficar só na linda letra C) ?

Outro ponto interessante é que, como a vontade de ser igual à sua tribo não é menor do que a de ser único, cada rótulo pra gente acaba com mais sub-rótulos do que os de shampoos metidos a besta. Sabe aqueles “para cabelos secos que ficam oleosos no fim do dia a não ser que chova e que ficam sem volume no tempo seco” ? É assim que surgem tantas subdivisões para, por exemplo, roqueiros, que a gente fica sem saber como três acordes podem ter tantos tipos, envelhecimentos, cores, estados vitais e dureza de seus cernes, a ponto de um cabeludo de camiseta preta que nos parece exatamente idêntico ao outro ter tanto ódio de seu (para o observador desavisado) perfeito doppelganger. E se você acha que ódio é uma palavra muito forte, você obviamente não costuma ler caixas de comentários em nada: nem em blogs, portais de notícias nem no youtube.

O que me incomoda/entristece/irrita – e não estou dizendo que também não faça isso, o que é mais um motivo para ficar triste e irritada (incomodada ficava sua avó) – é que, além de limitar a pessoa para si própria, também a fecha para outras pessoas. Se eu sou fera em ciências exatas (o “eu” aí não poderia ser mais hipotético: eu mal sei as 4 operações. Se é que ainda são quatro.), apaixonada por arte cubista, cinema iraniano e música medieval tocada exclusivamente em instrumentos da época, jamais conseguirei me interessar por alguém que adora pintura figurativa, Jim Carrey e nu-black-metal-death-core-em-banda-de-pífaros-pernambucanos-barítonos-elétricos. E se esse eu hipotético tão espertinho ainda assim se interessar pelo (igualmente hipotético) diferentão carreymaníaco, certamente terá vergonha de falar disso com os confrades, ou sei lá, tentará baratear o interesse dizendo que só está fingindo fascínio porque “ele é o mó gostoso”. Isso, pra mim (“mim” e “eu”, a partir daqui, novamente 100% reais), é triste. Empobrece o espírito, a capacidade de descoberta, de argumentação, de criatividade. Pior ainda: vai contra a evolução.

Porque se tinha uma coisa que o macaquinho hábil já sabia, e isso o ajudou muito em sua jornada para se tornar o habilíssimo penduricalho de iGadgets que é hoje, é que uma vez que o perigo de morte está suficientemente distante, a diversidade é o que dá gosto, emoção e valor à vida.

Observe o prazo de validade do seu rótulo: ele pode estar vencido Cynthia Feitosa

Cynthia Feitosa é publicitária, tradutora, blogueira e implicante pela própria natureza.

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