“Bem! Tenho visto com frequência muitos gatos sem sorriso”, pensou Alice,”mas um sorriso sem gato! É a coisa mais curiosa que já vi na vida!”
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

— Tá sentindo alguma dor?

— Mm — respondo com alguma dificuldade, a boca obliterada pela monstruosa estrutura de plástico, bem maior do que a cavidade aguenta, mexendo de leve a cabeça da direita para a esquerda.

— Tá com frio?

— Mm — idem. O ar condicionado split cai até muito bem nesta manhã de verão na Serra, um alívio, que calor é esse, gente!

Não leva dez minutos para, sim, eu começar a sentir alguma dor, o lábio inferior esticado e a boca cheia de uma saliva que não consigo engolir (a língua se enrola no alto da moldeira), os braços despidos arrepiados, quase gelados, será que vou acabar me afogando em meu próprio cuspe? E na cadeira do dentista, of all places? Que humilhante seria isso!

Faltam outros cinquenta ainda, ai meu deus (minutos, claro, fora os anos já vividos). Melhor da próxima vez trazer meu Kindle pra me distrair, mas… será que vou mesmo conseguir ler, deitada desse jeito?

foto de Alan Sklar, o marido deliciado

A mente ocupada, a duras penas desligada da mesa do escritório abarrotada — deixada criminosamente de lado no meio de um dia normal de trabalho — divaga, mas em vez de relaxar, simplesmente apaga. Durante uma hora inteirinha não consigo pensar em mais nada, a não ser no fato de estar terrivelmente incomodada.

***

Não admira que ninguém nesta vida, que escolha passar por esses modernos procedimentos estéticos radicais da atualidade, conte realmente o que acontece nos bastidores das sessões de embelezamento, ou ninguém toparia tanto sofrimento só por conta de melhorar um pouquinho a aparência madura, quer dizer, irremediavelmente envelhecida. Já pensaram a dor, fala sério, das cirurgias plásticas mais extensas? Ou, mais rápido e simples, das agulhadas do botox?

Nem morta. Mas decidi clarear os dentes, por insistência de meu marido Alan, é bem verdade. Se dependesse de Alan, aliás (ih! aliterou!), eu cortaria os braços flácidos pela metade, esticaria o pescoço até as orelhas e ainda repuxaria sem pena a pele  do rosto encolhida pela idade, isso, só para começar.

Não me levem a mal. Não é que ele não me ame assim mesmo, do jeito que eu sou. Afinal de contas, no escurinho apertado da vagina dentata não tem ruga, nem papo, nem nada, nem dente amarelo na verdade tem, a não ser os tentáculos excitados do guloso e misterioso canal: uma fome que pelo que tenho visto não passa nunca, nem na secura da menopausa, ui, desculpem. Taí outra coisa da qual pouco ou nada se fala.

O caso é que é ele, Alan, o responsável por m

inha imagem “pudica”, ops, “pública”, agora que tenho uma imagem pública para preservar.  Além de ser meu editor de inglês, vocês sabem, é Alan quem define os objetivos mercadológicos da nossa editora, chique, não? Com tudo o que o marketing americano tem para acrescentar, anotem aí.

Pois prometi a mim mesma que se eu fosse convidada a participar da Bienal do Livro do Paraná, em agosto do ano passado, eu pelo menos clarearia os dentes pra dar uma leve realçada. Não fui. Mas quando o convite chegou para o CBLD (Congresso Brasileiro do Livro Digital, o primeiro, em maio de 2011, eu não poderia faltar), entendi que não ia escapar.  Só resta agora ser chamada para a FLIP, meu sonho dourado de consumo literário. Afinal de contas, tenho um belo sorriso pra me apresentar, além, é claro, do sucesso retumbante do mercado brasileiro de ebooks, um país das maravilhas para Alice nenhuma botar defeito, se é que vocês me entendem.

Agora, vamos combinar. Eu reclamei, esperneei, ameacei nunca mais voltar (estão previstas 4 sessões de clareamento), mas quando cheguei em casa e me admirei  — espelho, espelho meu, tem alguém mais vaidosa do que eu? —, esqueci num instante o incômodo sofrido, é mais ou menos o que dizem que acontece com o parto normal, não é mesmo? (eu não, infelizmente não saberia dizer) Se alguém soubesse com antecedência a dor que se sente… ninguém nunca teria filhos, a humanidade estaria perdida, a não ser, é claro, pelo sorriso deslumbrante do recém-nascido, que apaga num segundo a memória de qualquer horror.

Satisfeito com os resultados, Alan se aventura um pouco mais:

— Por que você não aproveita e pinta os cabelos de louro?

Ele está brincando, é claro. O cabelo grisalho e crespo é meu orgulho, minha marca registrada, pelo menos enquanto posso me dar ao luxo de só mostrar a cara em fotos retocadas de Facebook. Com horrendas camisetas caseiras do pescoço pra baixo, sabem como é, uma das vantagens do escritório inteirinho contido num computador, nenhum contato ao vivo pra lembrar que há um corpo a preservar, aliás, preservar para quê? Se até pra se apaixonar hoje em dia basta uma tela de computador?

O que me lembra, bem a propósito, de que minha primeira reação, quando vi a foto do Alan na internet, foi comentar que ele tinha um sorriso do “Gato de Cheshire”. Embarquei com vontade no romance e, francamente, estou até hoje tentando entender como fui me envolver com esse Chapeleiro Louco que mora aqui em casa. Amor de verdade é isso aí, “você não tem saída. Somos todos malucos aqui.”

***

Ah, já ia me esquecendo. A dentista que está clareando os meus dentes é a Doutora Patrícia, aqui de Corrêas mesmo, muito competente e por um precinho imperdível de cidade do interior. Você que mora na cidade grande (ui!) pode marcar hora, vir para o fim de semana romântico com seu marido e se hospedar na Alcobaça ali do ladinho: vai sair com os dentes branquinhos e ainda se esbaldar com o cheirinho de mato e o famoso cardápio assinado de Dona Laura Góes, um programa estético-cirúrgico de primeiro mundo, bem melhor e mais em conta do que qualquer cirurgia plástica na Jamaica, pode acreditar. Eu recomendo. Tenho que recomendar.

E bom domingo procês.

Descubra agora o que existe por trás da maravilhosa “eterna juventude” do século XXI Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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