Jornal de época que guardo com carinho, já bem amareladinho, mesmo com Alan acusando Obama de querer destruir Israel pra que eu me sinta culpada.

“Não é que a gente, assim, tenha aquele amor, mas a gente se acostumou um com o outro, então quando ele viaja eu sinto falta”, me confessa ao telefone, entre constrangida e emocionada, a enfermeira de mamãe.

Bem. Não sei se o que Alan e eu nutrimos um pelo outro é amor de verdade, mas se não for, o que seria? O que sei é que várias vezes ele ameaçou, ensaiou, planejou, mas nunca conseguiu se decidir de verdade a sair sem mim do Brasil, país que ele admira e detesta ao mesmo tempo, pois o mantém cativo no meio do nada, “longe de tudo o que ele mais ama nesta vida”. Ok. Vamos fingir que acredito.

O caso é que, finalmente, depois de seis anos e três meses grudados, sem passar sequer uma noite separados — exceto as em que, obviamente, dormi na sala e ele no quarto para evitar um mútuo assassinato —, Alan vai viajar sozinho nesta segunda-feira para visitar a irmã, que ele não vê há vinte anos — como dá pra ver, não só por estar vivendo comigo —, e os “nossos” dois filhos, que ele não vê desde a vitória de Obama, bem, esta contagem é só minha, pois se dependesse de Alan, Obama jamais teria sido eleito presidente dos Estados Unidos. Mas a gente estava lá, no Havaí, testemunhando a trajetória do homem a caminho de Kaneohe, com David ao volante da velha caminhonete e Erik nos esperando para o jantar em Pearl Harbor (ou seria outra base na mesma ilha? tá bem, me confesso confusa). História pura.

Até aí, tudo bem. Já me conformei com a longa separação — duas semanas — fiz planos para o silêncio na casa, para a tranquila ausência de testosterona nas tardes de outono, para as férias temporárias no expediente de doméstica — ops, desculpem, dona de casa —, liberando tempo livre para tudo o mais que tem se acumulado sem remédio em cima da mesa do escritório. O problema começou de verdade quando, no mesmo dia da emissão da passagem às três da manhã de uma sexta-feira — no último minuto da última hora do último dia de validade da reserva que já durava outros sete, com Alan ainda hesitante me tirando da cama por causa do número do cartão de crédito associado ao prêmio de milhas, ufa —, assistimos depois de vários meses ao último episódio de “Medium”.

Confesso que já fui fã desse seriado, que, como todo mundo sabe, já foi cancelado faz tempo nos Estados Unidos, e se eu seguir confessando vai ter coisa muito pior que isso. O que interessa é que nos primeiros minutos do programa, naquela fase em que ninguém nunca soube direito se Allison Dubois está sonhando o que vive ou vivendo o que sonha, seu querido marido Joe havia morrido num desastre aéreo voltando do Havaí, pô, peraí. E pensar que eu já vivi minha vida desse jeito, sabem como é, procurando em tudo um sinal de tudo o mais e acreditando em bruxas, porque que las hay, las hay e eu até já me considerei uma delas, se alguém duvida é só ler o meu primeiro livro, “Eu, xamã”, o nome já diz quase tudo, não é mesmo?

Pois o que realmente confere ao mistério a sua qualidade de “magia” é, no mínimo, o tal do perfect timing, vocês sabem, estar no lugar certo na hora certa ou, por outro lado, no lugar errado em hora muito errada, como no caso de uma queda de avião. Quanto a mim, consigo entender muito bem que esse meu pé esquerdo no fatalismo fantástico tem tudo a ver com o trauma da morte de papai, que entre outras coisas me marcou para sempre com um incurável pânico de atrasos, quer dizer, se alguém que eu estou esperando se atrasa para um encontro nunca é por causa do engarrafamento, ou da dúvida cruel ao abrir o armário para se vestir, ou de simples desleixo com o horário, nada disso: é acidente mortal na certa, mais uma vítima fatal no tráfego temerário da existência.

Desde então, tenho feito um esforço tremendo para duvidar de todas as tragédias com as quais eu possa ter sonhado, ah, é só um sonho pesado, e sonhos nunca acontecem de verdade, a não ser para a Allison, é claro. E o pior de tudo é que desta vez, no famigerado final de série, fim de todas as bem-sucedidas temporadas do programa, o aviso de morte não poderia ser evitado: Joe morre mesmo, de verdade, já tinha morrido no começo do episódio que termina com a vidente muito velha, meio desmemoriada e sendo resgatada para o paraíso eterno pelo eterno fantasma do marido falecido, eu, hein, nem pé de pato na madeira três vezes daria jeito no terrível “predestinismo” que tomou conta de mim naquela hora, coitada.

Dei um suspiro profundo e compartilhei com Alan meu incômodo com a situação, vocês queriam que eu fizesse o quê? Ele ficou com raiva — com toda razão, vamos combinar — me chamou de ridícula e gritou comigo a sério, imaginem, imaginem se ele tivesse me conhecido nos meus sempre muito bem escondidos tempos de gurus, xamãs, pais-de-santo e simpatias… Tô bem melhor sem isso, francamente. Esperei, respirei, deixei que passasse o momento terrível.

Mas o que ainda preciso confessar a vocês é que vivi esta última semana intimamente como se fosse a última…, bem, nem preciso contar. Isso, pra nem mencionar o terremoto no Japão que acabou de acontecer, e o resultante tsunami que ameaçou o Havaí  pouco antes de o avião de Alan pousar (se não fosse demais acrescentar, eu diria que o nosso amor começou com um tsunami e vai terminar com outro, eta casamento diluviano, sô).

Não consegui dar um passo sem o destino da viuvez a me pesar, só pensando naquilo, sabem como é. Nem fui capaz de me organizar para um adeus decente, para o caso de tudo terminar de repente, só o que consegui foi tentar concluir a tradução que Alan e eu estamos fazendo juntos, taí, nosso último ato de amor neste mundo não será um beijo ardente, um carinho premente, um orgasmo inesquecível, nada disso: será “The Poetics of Episteme-Art” de Adão de Faria e Lílian Gomes — dois mineiros vanguardeiros, um paradoxo pra ninguém botar defeito —, a primeira tradução em inglês da história da literatura a ser publicada globalmente pela própria editora da edição original em português, que tal isso como um legado apaixonado, hein?

E com esta me vou para junto do meu grande amor, me entregar finalmente a uma cálida despedida, oba, essas férias de Alan já estão valendo pralguma coisa… Bom domingo procês.

De como evitar sem nenhuma vontade a inevitável crise dos sete anos de casamento. Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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