O raciocínio é mais ou menos o que o escritor inglês – e venenoso profissional (e genial em ambas as atividades) – Evelyn Waugh utilizou ao comentar sobre a retirada de um tumor benigno do filho de Winston Churchill, Randolph, que em nada puxou ao pai e se mostrou um político dos mais incompetentes: “Puxa, extraíram a única parte benigna dele”.

Por aí. Eu usaria o mesmo recurso de linguagem para falar do analfabetismo funcional e do fato de ele estar vigorando com força total: bom, pelo que o nome diz, deve ser a única coisa que funciona, não?

Umas das coisas mais fascinantes do analfabetismo funcional é sua essência absolutamente democrática: ele – digamos – funciona em todas as profissões, departamentos e em todos os cargos organizacionais. Pode ser o caixa da cadeia de fast food que te olha com olhar de filé de peixe morto e não entende de jeito nenhum a combinação que você pediu seis vezes – aliás a essa altura você já está imitando uma galinha cacarejando, além de se esparramar pelo chão feito batatinha, só para ilustrar os ingredientes do seu pedido, mas conseguindo apenas constrangimento na fila. Pode ser também o gerente do banco que se embanana todo com números e indicativos – e olha que eu só estou falando de ele tentar transferir uma ligação no teclado do telefone, já que você ligou para falar em outro departamento mas só cai na mesa dele.

Esse analfabetismo funciona porque é premiado. O nível de exigibilidade nas contratações funciona através de parâmetros completamente metafísicos, que parecem não admitir características como capacidade, especialização, articulação ou inteligibilidade. Ou então vai ver estas características funcionam mesmo como eliminatórias: o candidato ao emprego que as ostentar é automaticamente eliminado.

As empresas parecem pensar em quantificar seu contingente, pagando o menor salário possível, lotando guichês, balcões, mesas e baias com profissionais incapazes de ao mesmo tempo dizer “pois não” e entender o que você deseja (isso quando dizem “pois não?”, já que às vezes um olhar de “quê que foi?” já pode apressar as coisas. Apressar no sentido de fazer você dizer rapidamente o que deseja e ir embora, para não atrapalhar a conversa que o atendente está tendo com o colega ao lado sobre o reality show que mostra o cotidiano do pinsher da vizinha do concunhado do personal trainer da Claudia Raia).

O léxico nos diz que analfabetismo funcional não significa exatamente a condição de iletrada da pessoa. Ela sabe distinguir sinais, palavras e tem até condições de se expressar graficamente. O problema é que não consegue processar este conjunto de atributos. Ela para por aí: não interpreta, não abstrai, não conclui. E isso ilustra bem a filosofia que rege os critérios de admissão, promoção e graduação de pessoal em quase tudo que é entidade comercial ou prestadora de serviços: o nivelamento por baixo. É mais barato, é mais rápido, preenche certos requisitos quantitativos de colocação profissional – pronto.

Falo aqui como mero consumidor: nem vou extrapolar este âmbito e estender o assunto com exemplos de analfabetismo funcional em outras esferas da existência. Para isso, recomendo fortemente o filme “Idiocracy”, de Mike Judge, que fala do crescimento exponencial do quadro de prejudicados intelectualmente no comando dos destinos do planeta. Mas isso é assunto para outro texto.

Falando em texto, nem sei se esse meu funcionou. Talvez eu não tenha sido analfabeto o suficiente. Mas ele acaba valendo ao menos pela piada do Evelyn Waugh, que aliás uma vez disse, provavelmente depois de uns dois cálices e meio de brandy: “Se vale a pena mesmo fazer uma coisa, vale a pena fazer bem-feito”.

Certo, certo, eu sei que soou como um ditado de autoajuda, mas quer saber? – este, assim como o analfabetismo reinante, funciona que é uma beleza.

A quem interessa que as pessoas sejam semianalfabetas? nelson moraes

Nelson Moraes é publicitário, blogueiro, flamenguista e não anda muito orgulhoso de nenhuma dessas coisas.

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