A chance de render polêmica era total: o programa humorístico CQC, da Bandeirantes, faria uma entrevista com o ex-militar e deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), um dos únicos políticos do país a se assumir de extrema direita. Mas a confusão superou todas as expectativas. Respondendo a uma pergunta da cantora Preta Gil sobre como reagiria se um filho namorasse uma mulher negra, Bolsonaro voou baixo: “Oh, Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu.” Para quem duvida, aqui está o link para a entrevista.

Ora, não há muita margem para interpretação. Bolsonaro associou explicitamente a pessoa ser negra a ser promíscua e ainda partiu para uma agressão gratuita à entrevistada. Marcelo Tas, apresentador do CQC, chegou a perguntar no ar se o deputado havia entendido a pergunta, embora, como admitisse depois em entrevista, o tivesse feito apenas na “esperança de que a alma tivesse alguma salvação”.

As reações, obviamente, não demoraram. Como o humorista Tutty Vasques lembrou bem no Twitter, Bolsonaro conseguiu o que parecia impossível: “o Brasil inteiro está do lado da Preta Gil!” A OAB fluminense anunciou que vai pedir a cassação do deputado, iniciativa seguida por um punhado de outros parlamentares. O advogado de Preta Gil, claro, já avisou que vai abrir um processo por racismo e injúria. E aí começa a malandragem.

Com pedradas vindo de todos os lados – uma situação na qual não é novato –, Bolsonaro veio a público dizer que não havia entendido a pergunta, que não prestara atenção (por aversão à pessoa de Preta) e achara que ela havia indagado sobre o filho dele se envolver com um gay. Embora a pergunta tenha sido bem clara, a explicação poderia ser plausível, pois o combate aos homossexuais é uma preocupação obsessiva do deputado, que já advogou até surras como terapia para o pai fazer um filho deixar de ser gay.

Acontece que, no Brasil, o racismo é um crime previsto na Lei 7.716, de janeiro de 1989, com pena de dois a cinco anos de prisão. Por outro lado, a lei deixa bem claro já em seu artigo primeiro que protege as pessoas de discriminação por “raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, deixando de fora questões de gênero ou mesmo orientação sexual. Antes que alguém alegue que gênero não é raça, vale lembrar que religião também não é, mas está incluída na lei.

Ao ser flagrado em momento de racismo explícito na TV, Bolsonaro não apenas fica exposto a um processo com base na lei citada, como ainda amordaça seus possíveis defensores. Mesmo aqueles que também vejam negros como promíscuos não ousariam sustentar esse pensamento em público. Porém, ao desviar o foco para a homofobia, o deputado atrai para si a simpatia de diversos colegas, em especial da bancada evangélica, seus parceiros no combate ao Projeto de Lei que criminaliza a discriminação aos homossexuais.

Ou seja, Bolsonaro parece apostar que, se é para ser grosseiramente preconceituoso, que seja num preconceito no qual tenha mais sócios, aumentando as chances de se safar mais uma vez.

Explicações de Bolsonaro apostam na impunidade da homofobia leonardo pimentel

Leonardo Pimentel é jornalista, editor do site "Por que a gente é assim?", blogueiro bissexto, nerd proud e caiu num caldeirão de mau humor quando era bebê.

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