Quando chegou o dia de mandar minha coluna quinzenal, não sei por que diabos eu falei de cara que ia escrever sobre fé. Obviamente, o assunto tanto não é a minha praia que, mesmo a escolha tendo sido minha, imediatamente fiquei cheia de dúvidas. Dúvidas sobre o que dizer, como, até mesmo sobre se eu tinha direito de falar disso, já que não tenho nenhuma religião e nem sei se acredito em Deus (mas duvido).

Não que eu já tenha nascido incrédula: fui batizada, levada algumas vezes à igreja – felizmente, minha mãe estudou interna em colégio de freiras, e ficou vacinada contra a carolice hardcore pra sempre -, e acho que se pode dizer que minha família era católica, naquele catolicismo frouxo que era uma das coisas mais legais do Brasil até o fanatismo maluco american-style começar a tomar conta.

Resumindo: sim, eu acreditava, quando pequena, mas como (num sentido) disse Paulo de Tarso e (em outro) citou Joseph Campbell, meu J.C. preferido, “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”. Verdade que nunca fui menino e nem cheguei a ser  homem – graças a… Zeus ?! – , mas cês entenderam.

Acho que o problema foi que, além de ter uma mente fascinada por, se não exatamente competente em, tudo o que é racional e lógico,  eu também sempre fui muito interessada em ser justa, portanto era difícil pra mim mandar pro saco (por assim dizer) o Papai Noel e o coelhinho da páscoa e ao mesmo tempo continuar levando a sério histórias sobre cobras que falam, virgens que concebem, mortos que ressuscitam e sobem aos céus de corpo e alma, waffles que sangram e outras papos de igual teor.

Pensando bem, minha perda de fés, ou como dizia um amigo, “de fezes” em amigos imaginários não foi assim, simultânea, não. Porque tenho fome e sede de justiça, pra ser  completamente justa (e em verdade, verdade) vos digo que a fé na existência de um deus único e benevolente – mas não nas fantasias especialmente malucas circundantes – me acompanhou até bem mais tarde, e não se desfez de uma hora pra outra, nem devido a nenhuma tragédia que subitamente me fizesse levar a coisa pro lado pessoal e dizer “não acredito” em vez de “você não fez o que eu queria e agora eu te odeio”, como filmes e livros (e novelas, suponho) tanto gostam de advogar que acontece 100% das vezes. Foi mais uma lenta constatação, por assim dizer. Quanto mais eu lia, aprendia, me interessava por ciência, por mitologia, por psicologia e antropologia, enfim, pela recorrência  das mesmas historinhas em diversos grupos humanos, menos conseguia levar ao pé da letra as historinhas do meu grupo em especial.

Mas o engraçado é que, ao pensar nisso, me dei conta de que tenho, sim, uma fé, e ela é muito mais absurda do que qualquer outra, cientologia e trigueirinho incluídas: eu acredito que, por mais que demore, e claro que demora, a ciência pode nos dar respostas para a maioria das questões que nos afligem. Pelo menos àqueles de nós que preferem buscar respostas, e preferem que elas sejam verdadeiras, claro. Como somos franca minoria, líderes espirituais de todas as variedades não precisam temer pelo seu pão ou blinis-com-caviar de cada dia: nunca hão de faltar ou rarear os que preferem que alguém lhes diga qual a “verdade” e como conquistar o reino dos céus sem fazer força, pra que possam parar de esquentar a cabeça com isso e ir logo ver novela comendo miojo.

E como fé que se preza não pode depender de provas e resultados consistentes, eu tenho uma outra, ainda mais absurda e maluca que aquela que deposito na ciência: eu acredito, sim, desde sempre  – e contra todas as evidências -, no ser humano. Acredito em sua capacidade de transcender a própria animalidade e se elevar para algo superior ao egoísmo, à violência, ao instinto cego e à irracionalidade que caracterizam nossos priminhos macacos, com quem compartilhamos nada menos que 99% de carga genética.

Eu sei que indivíduos às vezes alcançam essa transcendência, essa grandeza, muitas vezes de forma absolutamente discreta, sem gritos, sem hinos, sem pagar dez por cento do seu salário a alguém não necessariamente superior a eles, sem símbolos, relíquias  e sem vitrais coloridos.

Pra mim, esta transcendência pode ser alcançada por qualquer um, e não apenas em ocasiões mais raras que um alinhamento astral. Não faz sentido, eu sei. Milhares de anos de história mostram que isso não deve se tornar a norma, pelo menos não  neste universo, e é burrice acreditar que possa ser assim. Mas a isso, eu posso responder como qualquer autoridade eclesiástica, com o sorrisinho beatífico e tudo: eis o mistério da fé.

Na dúvida, é melhor acreditar no ser humano cynthia feitosa

Cynthia Feitosa é publicitária, tradutora, blogueira e implicante pela própria natureza.

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