Acordo cedo, olho pro lado e me deparo com Alan já acordado, bem-disposto, sorridente e rosado.

— Tudo bem, querido? Tá se sentindo bem?

Essa história que hoje vos conto, com final feliz por enquanto, começou semanas atrás, com Alan ainda planejando a viagem para o Havaí. Bem, segundo ele mesmo há muito mais tempo, sete anos para ser exata, quando me conheceu na internet e ao mesmo tempo conseguiu, de contrapeso para a minha “deliciosa companhia” (isso já é coisa de Matheus, meu segundo ex-marido, xô), o caminho inevitável para uma úlcera de duodeno, pois é, não tem vergonha nenhuma de declarar em alto e bom som no consultório médico que  os males que ele sente — a pressão alta, as dores no corpo e, agora, pior ainda, um incômodo persistente na boca do estômago — são todos provocados por mim, mais especificamente porque não falo inglês como ele gostaria, fazer o quê (nessa, nem um Berlitz da vida poderia dar jeito, francamente).

O caso é que como eu ia dizendo Alan estava de férias no Havaí, junto às pessoas que ele mais ama e que, graças a deus, falam inglês perfeito desde criancinhas, e a dor no estômago nada de melhorar, muito pelo contrário, eu sozinha em casa, nas lacônicas mensagens, só ouvia falar de “vomit, stabbing pain and diarrhea, do grego, διάρροια” — coloquei em grego e inglês para incomodar menos, afinal de contas nada disso é papo de domingo, não é mesmo? Agora me digam: eu daqui, a um oceano e meio de distância, como poderia ajudá-lo a não ser ficando louca de tanta preocupação? Mandando ondas consecutivas de energia azul curativa?

Pois ajudei. Me lembrei de uma vizinha que eu encontrara há algum tempo por acaso, caminhando no nosso Vale, e que por acaso no meio da conversa me informara que  o marido era gastroenterologista, vocês sabem, na hora do sufoco o melhor refresco é incomodar os outros. E como o acaso não existe, não hesitei um segundo. Enfiei uma roupa e fui caminhando até a casa dela onde deixei meu bilhete alarmado, dolorosamente encravado na moldura da porta de modo que ela não o perdesse: Socorro! Marido definhando de dor no outro lado do mundo!

Não demorou nada e logo estava estabelecida com a Márcia uma amizade de infância, no Facebook inclusive — moramos tão longe uma da outra que só mesmo no Facebook conseguimos nos encontrar com a desejada frequência, sabem como é —, simpática, atenciosa, na mesma faixa de idade (opa, desculpe, Márcia!) e ainda por cima cocapricorniana, embora eu não acredite em astrologia como vocês já sabem. Márcia me tranquilizou no ato, passei o telefone do Alfredo ao Alan por telefone, ih, repeti, e marquei a consulta pra quando ele voltasse pra nossa casa no paraíso.

Nervosa do lado de fora do desembarque do Tom Jobim, ufa, eu já esperava a cadeira de rodas saindo arrastada no portão 4, no mínimo um aspecto espectral naquele tom meio cinza de pele de doente, mas que nada, gente! Alan saiu como sempre cheio de energia, rosado e sorridente, agora vem cá: dar uma folga pra ele? Nem morta. Nunquinha. Tínhamos hora marcada com o Alfredo pra segunda seguinte e pronto, lá sou mulher de ficar ouvindo calada que sou provocadora de doença? Eu, hein…

No consultório, apesar de termos sido informados de que nossa ascendência judaica desfavorece consideravelmente a saúde das tripas, tudo correu como o esperado, bem… mais ou menos. Alfredo não se mostrou preocupado, mas como a cronologia de Alan já vai meio avançada — nessa parte, ele, meu marido, um jovem sexualmente ativo de 67 anos de idade, ficou bastante injuriado, devo ressaltar — certos exames se tornavam obrigatórios, ah, gente, pra quê. O bônus do encontro foi a droga perfeita, aquela que você toma e os sintomas desaparecem no ato, levando o paciente a crer com certeza que está milagrosamente curado de uma hora para outra. A não ser que nunca tivesse estado doente de verdade, um estado de coisas com nome e definição na enciclopédia médica: ansiedade aguda, ou, para os íntimos da Wikipédia, hipocondria — do grego hypo (abaixo) e chondros (cartilagem do diafragma), em outras palavras pra quem não sabe, “dor imaginária no baixo ventre” entre muitas outras espalhadas pelo corpo, claro.

E cá entre nós, com esse episódio peculiar descobri a cura infalível, não para os males do corpo ou da alma, mas para a mania de doença de marido. Basta solicitar uma boa endoscopia e outros tantos procedimentos invasivos, pois é, quem foi que disse que rir é o melhor remédio? O melhor remédio é a dor, isto é, uma ameaça verdadeira de dor, vocês me entendem. Segundo Alan, agora como nunca lépido e fogoso, já não tenho sobre ele o mesmo poder doloroso porque ele agora “está tomando o remédio correto pra se proteger de mim”, ah, tá bom, fica combinado assim.

Difícil vai ser explicar ao Dr. Alfredo por que é que a gente nunca mais botou o pé no consultório dele, tudo bem, vamos ter que nos consultar no bar ali da pracinha mesmo, a cerveja gelada e os petiscos na mesa, sem açúcar, gordura ou sal, sabem como é, na nossa idade não convém abusar da boa vontade do doutor, o lá de cima e o daqui de baixo.

Enquanto isso, mando uma mensagem particular de agradecimento para a grande Márcia, tomara que Alan não controle o meu Facebook como tudo o mais, embora de uns tempos pra cá ele jogue invariavelmente no Google Translator todas as minhas crônicas de domingo: “Só pra te ter como amiga, querida, já valeu a tal dor de barriga, Alan que não nos ouça, coitado!”

Não abusem do chope e bom domingo procês.

O moderno milagre da medicina é que já não nos basta a ajuda divina, haja remédio pra tanta mente doente, gente noga sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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