Digo logo que não acompanho o vôlei.

Mas fiquei atento quando soube do que rolou com Michael, jogador da equipe do Vôlei Futuro, que disputa com o Cruzeiro uma vaga na final da Superliga, espécie de Campeonato Brasileiro da modalidade. Ganha a oportunidade de brigar pelo título o time que vencer uma decisão em três partidas.

Pois no primeiro jogo, disputado em Contagem/MG, não teve colher de chá pra esse cidadão. “Bicha! Bicha!”, gritavam toda vez que o rapaz ia sacar. Não eram duas ou três pessoas. Eram milhares. Boa parte da torcida dona de casa, que se esgoelava para esculachar o moço que, sim, é gay e que, não, não esconde sua orientação sexual.

Nem dá pra dizer que esses xingamentos são novidades no mundo do esporte. “Isso é  bobagem, coisa de torcedor”, você pode argumentar. Mas não. Pense direitinho e perceba que não é legítima nem legal a esculhambação homofóbica. Especialmente num país em que os crimes de ódio contra homossexuais crescem a cada ano. Especialmente num país em que jovens ainda são expulsos de casa por assumirem sua homossexualidade. Especialmente num contexto em a diversas pessoas são negados direitos básicos como educação e trabalho simplesmente porque amam e/ou vestem-se, digamos, fora do padrão.

Certamente, muitos dos que pegaram no pé de Michael têm parentes ou amigos gays. Muitos sabem ou desconfiam de quem se tratam. Alguns até dizem que respeitam, que o preconceito não tem nada haver, que cada um sabe da sua vida. Outros fingem que não sabem, não querem saber, isso é coisa que só tem na família dos outros, no bairro dos outros, no escritório dos outros.

Sem dúvida, nesse dia havia homossexuais nas arquibancadas. A maioria deve ter ficado calada, angustiada. Alguns podem até ter chamado a atenção dos colegas que tiraram a homofobia do armário. Houve quem preferisse conversar em casa sobre acontecido. Não elimino a possibilidade de alguns gays também terem se unido ao coro. “Bicha! Bicha! Bicha!”. “E se descobrem que eu sou também?”, podem ter pensado.

Afinal de contas, quem encara desafiar a multidão?

O melhor viria poucos dias depois. Segunda partida, desta vez em Araçatuba, casa do Vôlei Futuro. Tendo perdido a primeira, o time mandante precisava vencer para continuar sonhando com o título. E também precisava, porque queria precisar, mostrar para todo mundo que não admitiria preconceitos.

E mostrou.

Logo no aquecimento, a equipe entrou com camisas cor-de-rosa em que se podia ler o nome do colega homossexual. O líbero, atleta que pode vestir-se diferente dos demais, atuou durante toda a partida com um uniforme nas cores do arco-íris em que se podia ler “Vôlei Futuro contra o preconceito”. A mesma frase estampava um bandeirão aberto diversas vezes na arquibancada por torcedores que também agitavam rosados balões infláveis (os ‘bate-bate’).  Uma verdadeira festa de respeito à diversidade e um momento histórico não só no voleibol brasileiro, mas no esporte mundial. Em tempo; neste dia, Michael foi o melhor jogador em quadra e ajudou seu time a vencer a partida por 3 sets a 2.

Sem dúvida, nesse dia havia homofóbicos nas arquibancadas. Muitos podem ter ficado angustiados, calados. Alguns podem até ter dado risadinhas nervosas. Houve quem preferisse conversar em casa sobre acontecido. Não elimino a possibilidade de alguns também terem se unido ao coro. “Não ao preconceito!!”. “E se descobrem que eu sou também?”, podem ter pensado.

Afinal de contas, quem encara desafiar a multidão?

(A vaga na final da Superliga será definida na próxima sexta-feira, em partida que vai se realizar em Contagem/MG, casa do Cruzeiro e palco da agressão homofóbica. Independente de quem saia vencedor, o clube mandante e sua torcida têm uma grande oportunidade à vista. Que saibam aproveitá-la).

Um dia para ficar na história do esporte mundial ivan moraes filho

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

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