Vocês me desculpem, mas vou começar rezando, isto é, confessando pra vocês meus mais recentes percalços operacionais, tem assunto pior para o dia de descanso universal?

Pois esta humilde escritora de domingo, que vos fala exausta e metida a ter graça regularmente aqui no PQAGEA, tem trabalhado de segunda a segunda (descontadas as duas horas obrigatórias de recreio semanal dedicadas ao religioso exercício da crônica, ufa) numa média de, hum, digamos, umas dezoito horas diárias — mais as 3 ou 4 de insônia pensando nas tarefas do dia, o de ontem e o de amanhã — à frente dessa nau desgovernada que é o mercado de ebooks no Brasil, uma floresta virgem a ser deflorada cotidianamente, sabem como é. Haja ereção para “tanta” tesão profissional. Francamente.

Pois há coisa de umas duas semanas perpetramos (ui!) aqui na KBR uma nova ousadia editorial pra fazer história digital: publicamos na Kindle Store a primeira tradução própria para o inglês de um dos títulos de nosso catálogo, o The Poetics of Episteme-Art, pra quem não sabe uma tendência que veio pra ficar e pra acabar de virar de ponta cabeça o já conturbado mercado literário internacional: já pensaram no dia em que as grandes editoras estrangeiras decidirem publicar suas próprias versões para o português? Lá se irão os leilões milionários de best-sellers globais e, com eles, a galinha dos ovos de ouro das nossas próprias editoras nacionais, hum, pensando bem, será que vão mesmo abrir mão desse fluxo desvairado de dinheiro garantido?

É lucro certo pra quem vende os direitos, claro, faturando em cima de um sucesso já mais do que testado e comprovado. E também pra quem compra, por conta das cartas marcadas na lista de mais vendidos, ponto para as edições traduzidas nem sempre à altura do texto original, pois é, eis aí onde mora o perigo: nas traições literárias.

No nosso caso, bastante agravado, já que correndo por fora e bem à frente dos rumos vislumbrados temos que nos virar com as nossas para o inglês, e toca a caçar tradutor native speaker que entenda português e consiga ainda por cima escrever com estilo em ambas as línguas, um bicho mais raro que celacanto e tão provocador de maremotos quanto, se é que vocês me entendem. Isso, pra nem mencionar o preço inflacionado desse mercado pós-babel conectado.

Temos cortado um dobrado com os testes que recebemos de potenciais associados, como por exemplo para traduzir o incensado “Domingo, o Jogo”, de Cassia Cassitas, a nossa “caixa” como a chamamos na intimidade — calma, gente: “nossa caixa” porque a querida Cassia é o nosso primeiro “case” de best-seller nacional, tendo constado com seu belo livro de todas as listas pelas últimas 3 semanas, engordando com isso o nosso esquálido porquinho, ops, cofrinho, e o dela também, claro. Uma dureza. Já fui desistindo na primeiríssima frase do texto, que começa assim: “A literatura é uma amiga maravilhosa”. E foi brilhantemente traduzido assim: “Literature is a wonder friend”, ah, gente, pra quê. Embora Cassia esteja com tudo, fui com tudo pra cima do pobre candidato a detrator:

— Mas que p… é essa? Você tá achando que a literatura é a Mulher Maravilha?!

(Pra você, que como outros tantos  anda precisando escovar o seu inglês [de um mal traduzido “brush up your Shakespeare”], segue a solução da questão, isso é que dá traduzir expressões ao pé da letra, vamos combinar: o certo seria “Literature is a wonderful friend”.)

Ou noutro caso pior ainda, este para o “Joana a contragosto” de Marcelo Mirisola, um clássico contemporâneo brasileiro, quando quiseram nos empurrar um “golden shower” onde o desejado seria “pissed pussy”, no original “bucetinha mijada”, é, gente, editor sofre. Para ser justa, a autora desse “chuveiro dourado” aí foi até bem competente no restante do texto, mas infelizmente fora de nosso alcance pecuniário, um drama cotidiano a mais, sabem como é.

Me desesperei a tal ponto que cheguei a pensar que a única saída seria apelar em primeira instância para um Google Translator gratuito mesmo — que Alan tem curtido tanto ultimamente, acreditando que entende finalmente os absurdos que escrevo sobre ele aqui no PQAGEA. Afinal de contas, dizem por aí que o tal software do Google tem melhorado bastante, e a gente daria obviamente uma boa guaribada assinada por A. E. Sklar, o único tradutor genial do mundo que domina apenas a sua própria língua ferina, mas me descabelei mais ainda quando na semana passada, depois de “ler” a minha crônica de domingo — com alguns raros sorrisos aflorando no rosto denorteado de residente estrangeiro — Alan chegou-se pra mim com a cara mais inocente do mundo e perguntou:

— O que é “Sunday pigs”?

— Ahn?

Fui conferir, ah, gente. Pra quê. O pobre tinha jogado o texto no Google e o tradutor automático, coitado, meio enrolado com o meu sotaque mineiro e outras firulas linguísticas intraduzíveis, saiu-se com essa para o meu bordão domingueiro “bom domingo procês”, procês, porcos, porquês, que diferença faz, não é mesmo?

E com essa, basta por hoje, sinceramente. Vou deixá-los em paz pra chafurdar o resto do dia no meu chiqueiro binacional, em busca de uma solução palatável para o meu grave problema de idioma operacional. Pra quem quiser se arriscar nessa incrível jornada, pioneira e perigosa como só os caminhos não desbravados conseguem ser, segue o email da desesperançada dublê de editora: editor@kindlebook.com.br. Favor só se apresentar se você realmente acreditar que domina como ninguém o fluente idioma inglês em pelo menos 800 mil de seu propagado um milhão de vocábulos registrados. Argh.

Have a nice Sunday, pigs.

Conheçam o admirável mundo pós-babel e sua mais que imperfeita tradução noga sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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