Ele era militar, desobedeceu a seus superiores, andava armado e, muito tempo depois, ficou famoso por, supostamente, matar um animal. Dito dessa forma, o personagem pode até soar ofensivo em tempos politicamente corretos. Entretanto, o sujeito em questão é uma das figuras mais cultuadas do cenário religioso brasileiro, permeando crenças as mais distintas: Jorge da Capadócia, ou, mais simplesmente, São Jorge.

Festejado no Rio de Janeiro em duas festas diferentes em homenagem ao sento, uma no Centro e outra no subúrbio de Quintino, na Zona Norte, reúnem centenas de milhares de pessoas. Este ano, porém, os planos tiveram que ser mudados, pois a data do santo, 23 de abril, coincidiu com o sábado de aleluia. Para não misturar festas de natureza muito diferente, a Arquidiocese do Rio transferiu a comemoração de São Jorge para o domingo de páscoa. As igrejas do santo vão receber as multidões de sempre, porém empanzinadas de chocolate.

Mas como foi que um soldado da Capadócia – na Anatólia, que hoje pertence à Turquia – ganhou o status de ídolo de massas no Brasil, estampado em camisetas, bolsas, adesivos de carros e até tatuagens, além de virar personagem de compositores como Jorge Benjor (quando ainda era Jorge Bem)? Segundo a hagiografia, Jorge era um militar filho de cristãos que se recursou a cumprir os éditos anticristãos do imperador Diocleciano (284-305) e acabou martirizado. No fim do primeiro milênio da era cristã, incorporou-se ao mito a história de que ele teria matado um dragão para salvar uma princesa – adaptação do mito grego de Perseu e Andrômeda.

Seu culto, embora amplamente disseminado no Império Romano do Oriente, só chegou à Europa com força no início do segundo milênio, quando os cruzados levaram para casa as histórias do santo guerreiro matador de dragões. Identificados com muitos mitos europeus, ele logo se tornou extremamente popular, tornando-se patrono de lugares tão díspares quanto a Inglaterra, a antiga república soviética da Geórgia, Moscou, Gênova, Milão, Beirute e, claro, Portugal.

Foi pelos colonizadores portugueses que São Jorge desembarcou – de armas, cavalo e dragão – no Brasil. Mas senhores do Brasil colonial deram também uma contribuição involuntária para a popularização do santo, perseguindo os cultos dos escravos africanos. Obrigados a mascarar sua religião ancestral, os cativos apelaram para o sincretismo, associando seus deuses a santos da devoção dos senhores. Em partes do Brasil, especialmente o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, o orixá Ogum, que forjava suas armas de caça e guerra, foi associado a São Jorge. Na Bahia, a associação do santo se deu com Oxóssi. Em ambos os casos, a adoção do soltado capadócio pelos cultos afro, contribuiu para expandir seu culto para praticamente todas as classes sociais. Durante anos era difícil achar um botequim no Rio de Janeiro sem uma estatueta do santo em pleno ato ecologicamente incorreto.

Ser sagrado tanto para católicos quanto para praticantes dos cultos de matriz africana e extremamente popular, por outro lado, faz do santo um alvo preferencia de pregadores evangélicos. Nada que impeça mais um ano de intenso movimento em suas igrejas.

Aliás, como sinal de que São Jorge está longe de ser exclusividade brasileira, vale a pena conferir a galeria de fotos (todas elas disponíveis na internet sob licença Creative Commons) de imagens do santo, indo de iluminuras medievais e um carioquíssimo grafite.

De mártir da Capadócia a símbolo do sincretismo brasileiro fernanda

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