(legenda da foto: os ossos do cordeiro)

“Desta comemoração judia fazem parte a refeição, o seder, que inclui um cordeiro assado, pães ázimos, isto é, sem fermento — para lembrar a pressa com que abandonaram o Egito — e ervas amargas, como o rábano, símbolo do sofrimento do povo no deserto”, leio esta manhã na internet, tudo bem, só trocaria o “judia” por “judaica”, sabem como é, principalmente nesta semana da Paixão quando este termo “judia, judiar” soa meio perigoso historicamente, mas vamos lá.

Pra falar a verdade, esta não é a primeira e nem a última crônica que escrevo tendo Pessach, a páscoa judaica, como tema. Confiram por exemplo, e a título de referência nogográfica (ui!), a imediatamente anterior, que sairá publicada em maio no lançamento oficial de meu novo livro de crônicas — Luau Americano — na Travessa do Leblon, em papel, é isso mesmo: p-a-p-e-l. No meu blog a lista é longa, mais ou menos um post para cada ano no ar, e explico por quê: a ceia de Pessach era um de meus feriados judaicos favoritos quando era criança, adolescente, sei lá mais o quê, até que a coisa começou a degringolar de vez com a morte de vovô, que rezava bonito e fazia questão de que tudo rolasse como mandava o figurino, do cardápio ao afikoman escondido, passando conforme a época pelo prato vazio para o judeu aprisionado na Rússia comunista, pelo cálice cheio de vinho para o Profeta Elias — que José Carlos, meu primo mais velho, personificava como um fantasma envolvido num amplo lençol branco para assustar as demais crianças da família —, enfim, a lista é longa também, quem quiser saber mais sobre esta tradição milenar que pesquise por sua conta no Google, uai. Virem-se.

No mais, é como diz minha amiga Rosane, autora de O Rabino e o Psicanalista (que também será lançado em papel na mesma bat-hora e no mesmo bat-local com mais outros 23 livros da KBR, uai, que negócio é esse? numa próxima crônica explico, fica prometido): “rasga a meia*” para todos vocês, judeus ou não. Ufa.

O caso é que com o tempo decorrido, a doença de mamãe e outras tragédias existenciais que tive que encarar ao longo da vida (inclusive o fato de não ser mais nenhuma criança), a ceia de Pessach tornou-se para mim um dia assim, digamos, meio triste — pra não dizer coisa pior ainda —, a tal ponto que meio inconsciente cheguei a esquecer na semana passada que a fatídica lua cheia já estava a caminho, sim, como todo feriado judaico que se preze, associado a festivais da natureza, a ceia de Pessach acontece sempre em noite de lua cheia, e o lobisomem judeu comedor de criancinhas com isso, hein? Ah. Melhor deixar pra lá.

Vai daí que quando me dei conta — pelo papo do Alan me rodeando pela casa — de que o dia da ceia se aproximava, já era meio tarde pra providenciar as compras, ainda por cima com Alan me explicando, pela primeira vez em nossos sete anos de relacionamento — sete, outra data fatídica —, que o tradicional nos Estados Unidos era que se comesse o tal cordeiro na noite do seder, como explica o blog gentio aí em cima, e toca a procurar um cordeiro pra se comprar neste meio de mato mais pra sofisticado que é a vizinhança de Itaipava, ih, que esta história já está mais longa do que a novela do cabritinho caçado que é sempre recontada na noite de Pessach e que vovô repetia sempre com a mesma maestria, sorte nossa que o cordeiro era uruguaio, porque se fosse paraguaio seria bode, não é mesmo? Ufa. Tô chegando à conclusão de que esse assunto é tão amplo que seria melhor transformá-lo num conto, mas vamos em frente assim mesmo.

Cordeiro comprado e descongelado, botei-o a marinar de véspera numa deliciosa mistura de ervas colhidas na horta naquela mesma hora, coisa mais chique, né, gente? Nossa. Hortelã, cebolinha e alecrim fresquinhos, sluurp, foi me dando uma fome, uma agonia…

Enfim, to make a long story short — como se diz em inglês e o Alan mais ainda, impaciente com os meus causos intermináveis de mineira, e põe interminável nisso como vocês estão vendo agora —, comecei a cozinhar a ceia, tendo terminado mais cedo o expediente na segunda-feira, com aquela velha depressão pairando sobre tudo, sabem como é, lágrimas nos olhos e tudo o mais faltando apenas um par de horas para a mesa posta e os fantasmas a postos (volta àquele parágrafo anterior do Profeta Elias, mais o fato de tantos parentes agora ausentes na festa de família). Enquanto o cordeiro assava (e eu rezava pra que saísse comestível), estiquei na mesa a rara toalha branca amassada de tanto viver guardada na gaveta, a matzá do ano passado — devidamente revitalizada por uma boa esquentada no forno conforme sugestão do Alan — e outros trocentos detalhes que fazem parte do seder — que em hebraico significa ordem, tão pensando que é fácil seguir a tradição judaica? — tomei uma ducha, botei um vestido preto (por charme, não por luto) et voilà: chegara a hora da ceia da verdade, de ver se o tal cordeiro pascal tinha mesmo dado certo.

Naquelas alturas eu já tinha me esquecido de todo o meu repertório familiar, com a comilança de diáspora e sua fome milenar, o gefilte fish de praxe, os bolinhos pesados afundados na sopa, o frango ensopado e o costumeiro fiasco de excesso de comida (ceia de Páscoa, para o bem ou para o mal dos comensais, sempre resultava numa boa dor de barriga, pois os tais pais ázimos — também citados no blog lá em cima —, além de deliciosos, são indigestos pra caramba). Com o cordeiro de Alan me vi transportada a uma época muito mais antiga, a uma perseguição milhares de anos anterior à sanha nazista: estávamos na verdadeira tradição semita, na saga nômade dos tempos de Moisés — como vocês podem ler no meu romance Hierosgamos, minha história com Alan faz tempo que já se espelhava na ancestral simbologia mosaica e sua mágica serpente bíblica, de animar bem mais do que prosaicas implicâncias de faraó, se é que vocês me entendem, a toalha estendida numa tenda enorme no meio do deserto de 40 anos que me lembrava em tudo a mágica tenda do “Harry Potter e as relíquias da morte” que eu tinha assistido no pay-per-view no fim de semana, minúscula por fora e imensa por dentro.

Viajei completamente na história e no tempo, deixando pra trás as dores do crescimento, de amores perdidos e de tantos excessos cometidos, dando graças aos céus por fazer parte de uma tradição tão consistente e enriquecedora como a que os nossos ancestrais nos transmitiram e que termina muitas vezes sendo omitida, obliterada e confundida com leis religiosas pouco adaptadas e compreendidas, ufa, uma passagem da escravidão à liberdade de expressão de fazer inveja a qualquer cronista enrustido, pois é. Tradição ancestral também tem seu dia de samba do judeu doido, e em todas as famílias tradicionais o seder de Pessach é esse dia, uma delícia.

E agora que todos sabem em que emaranhado de histórias Jesus Cristo vivia metido na velha Palestina, uma terra mais pra sacrificada do que prometida, já dá pra entender por que gafanhotos o cordeiro da paixão é nosso maior pecado redimido.

Uma boa Páscoa procês.

* do voto tradicional “Chag Sameach”, que em hebraico significa literalmente “um feriado alegre” mas para o ouvido português  soa mais ou menos como… rasga a meia.

A história tradicional por trás das alegrias da Páscoa, um verdadeiro samba do judeu doido em favor da liberdade de expressão noga sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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