Primeiro foi o incêndio na capela da UFRJ, no campus da Praia Vermelha, prédio tombado pelo Iphan. Depois, a  ameaça de fechamento de escolas especiais para deficientes visuais e auditivos. Em seguida, a verba de merenda escolar desviada para bancar uísque e vinho para as casas de primeiras damas em Alagoas. Para terminar, o massacre em Realengo. Com tantas notícias ruins ligadas à educação recentemente, resolvi mudar o astral – pelo menos o meu -, falando deste pequeno “pé de valsa” que conheci há pouco numa escola pública no Rio de Janeiro, junto com o jornalista Gustavo Heidrich.

Seu nome é Jean. O camaradinha e sua mãe são um exemplo de superação. Africano do Congo, o menino vive no Brasil há pouco mais de um ano. Cruzou o Atlântico em 21 dias a bordo de um navio cargueiro que partiu do Sudão. Imaginavam que o destino era a Europa, mas desembarcaram no porto de Santos; depois, Rio de Janeiro.

A vila em que viviam no Congo foi atacada por rebeldes de Uganda, que eliminaram todos o homens e sequestraram as mulheres e crianças da comunidade. Depois de meses na selva em poder dos criminosos, mãe e filho conseguiram escapar.

Jean é um menino forte que parece driblar as dificuldades com a mesma facilidade e graça que desliza em seu competente “Moon Walk”. “Tão simples como A,B,C ou 1,2,3” como cantava o maior ídolo de Jean no Jackson Five, no final dos anos 60.

“Don’t Stop ‘Til You Get Enough” – Jean ainda conserva um sotaque engraçado mas fala português muito bem. Para se divertir e se entrosar, começou a dançar “Michael Jackson” para os colegas da escola.  Em troca, ganhava umas moedas.

Infelizmente, o show teve que acabar, o diretor proibiu as apresentacões, “tava rolando muito tumulto”. As moedinhas fizeram falta…

Comunicativo e sorridente, Jean aproveita todas as chances que aparecem. Em cinco minutos de conversa, você já se vê prestes a fechar algum tipo de acordo como rapazinho. A hora da merenda é uma felicidade só, Jean come dois, três pratos. Agradece e pede mais… As copeiras da escola acham a maior graça no apetite do menino. “Sem fastio, com fome de tudo” como dizem os malungos da Nação Zumbi, mestres do Afrobeat made in Brazil. Fome de viver, sensibilidade e inteligência para crescer muito.

Umbabarauma – Em agosto completa seus 10 anos de vida intensa. Sonha virar um grande jogador de futebol do Flamengo. Sem recursos, por enquanto ainda está batalhando por uma vaga em alguma escolinha de futebol do rubro negro carioca.

Se depender da ginga do rapaz, em breve teremos um grande artilheiro. Será o Ponta de Lança Africano, o verdadeiro Homem-Gol de Benjor? Se não chegar a isso, que seja um trabalhador com salário decente, que consiga manter com dignidade sua pequena família. Já será um gol de placa. Vai na bola Jean, a torcida aqui é grande.

Uma lição de vida em três ou quatro passos gilvan barreto

Gilvan Barreto é um retratista que gosta de palavras e prefere fotografar os que não fazem pose.

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