Dia das mães pra mim é sempre uma data tensa. Quando pequena, porque além de simplesmente entregar o presente comprado pelo meu pai, eu tinha aquele ímpeto amoroso de querer dar algo feito por mim… mas, no fundo, eu sabia que qualquer esforço que eu fizesse para criar uma obra-prima à altura da minha mãe nas aulinhas de artes do colégio não chegaria aos pés nem dos próprios talentos artísticos da minha (àquela época até que nem tão) velha nem dos das minhas irmãs. Pois é: como se não bastasse tudo, eu ainda era a última de 3 crianças, e menina de novo (e de novo), ou seja… mesmo que minha mãe não dissesse isso,  e não dizia, claro, e talvez nem pensasse, eu projetava nela toda uma vibe “uhu, outro cinzeiro de argila extremamente feio e torto, tudo o que eu queria” na hora da entrega do troço, uma vibe que minha pequenina porém já suficientemente autocrítica e paranóica pessoa não tinha a menor vontade de ver ou imaginar de novo no ano seguinte.

Já mais crescidinha, trabalhando e capaz de comprar algo, em vez de fazer com minhas próprias e ineptas patinhas, a questão do presente continuava, evidente que com algumas modificações. Minha mãe nunca foi fácil de agradar,  mas também não aceitava a pouco romântica – se bem que muito mais lógica – opção de simplesmente nos dizer o que queria ganhar, e de que tamanho, modelo e onde encontrar, de preferência. A solução, ou melhor, o paliativo vagabundo que encontramos para este dilema foi juntar a prole toda numa vaquinha que ao mesmo tempo multiplicava o valor do presente e repartia a dúvida e a culpa pelo iminente fracasso quase certo. Então era muito comum ficarmos, as três filhas, depois de muito sofrimento e debate, esperando a reação da presenteada enquanto ela, sadicamente, desfazia o embrulho bem devagarinho, sorrindo, e, no que nos parecia horas depois, dizia algo como “Ai, que liiiindo… lindo… adorei… e… só tinha verde mesmo?”

À medida que envelhecemos todas, ela foi ficando mais maleável e eu menos neurótica, então acho que nos acertamos. Mas aí já era tarde demais pra que eu fizesse as pazes com a data, porque a essa altura eu já estava casada, e apesar de não ter filhos – e aqui só não direi “graças a Deus” porque não sou religiosa, mas acho que deu pra entender, né? que não ter procriado não só nunca fez parte dos meus sonhos & planos como também figurou em muitos dos medos e pesadelos – agora havia, e há, a questão de como o fofo casal (hah) poderia/deveria dividir seu tempo e espaço interno para os quitutes da mãe e os da sogra, com qualquer ciúme da parte de qualquer das duas quase imperceptível, não fosse pelo jeitinho passivo-agressivo, item importante do kit que toda mãe recebe ainda na maternidade, junto com o joelhinho que chora embrulhado numa manta e o manual secreto de inserção de culpa, leitura de mentes infantis e, segundo meu marido, um timing tenebroso pra entrar inesperadamente no banheiro justo quando os filhos estão no auge da, er, hum, adolescência.

Este problema – o da divisão do tempo, não o da punheta interrompida, é bom explicar – promete durar bastante tempo ainda (espero). Mas tudo bem: comparado às fases anteriores, isso é uma bobagem, que pode ser – e é – negociada ano a ano, com almoço na casa de uma e jantar na da outra, por exemplo.

Então, finalmente, tá tudo certo, não? Não mesmo. Acontece que eu trabalho com criação, em propaganda, há mais de 20 anos. E como anda rolando um “dumbing-down” generalizado nos anunciantes, profissionais e público-alvo, há pelo menos 15 desses 20 e tantos anos comecei a me ver obrigada a criar peças que iam – e sim, ainda as crio, e sim, elas cada vez mais ainda vão – contra tudo o que eu gosto, acredito e gostaria de fazer. Não foi falta de tentar, juro. Perco a conta de quantas vezes já tentei usar humor, ironia, uma pitadinha mínima de cinismo, pra acabar recebendo o material de volta, sumariamente recusado ou “aprovado”, mas com a orientação de tirar o sal e a pimenta e derramar quilos de açúcar, mel, glitter e anilina cor-de-rosa metafórica  no meu texto. Aiai. Ser redatora é desfiar fibra por fibra o coração. Ou sinapse por sinapse sua criatividade. Algo assim.

Resumindo – um pouco tarde demais, eu sei -, acho que já fiz as pazes com o fato de que provavelmente nunca vou fazer as pazes com essa data. E isso já é alguma coisa, certo? Sinal de maturidade e tal? Não? Ah, dane-se, eu não preciso ser madura, não sou mãe de ninguém, mesmo…

Pra finalizar, quero dizer – por assim dizer, já que estou escrevendo e não falando – pra vocês, em alto e bom som (pois é) o que vou dar pra minha véia este ano: não tenho a menor ideia! Juro. Como eu sei que a maioria de vocês – se estiverem lendo isso aqui antes do domingo – também ainda não resolveu o que vai comprar, combinemos: vamos parar o texto aqui, agora (eu de escrever e vocês de ler), e vamos todos atrás do diabo do presente.

E segunda-feira a gente conversa.

O que fazer quando o Dia das Mães vira motivo de angústia cynthia feitosa

Cynthia Feitosa é publicitária, tradutora, blogueira e implicante pela própria natureza.

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