Quase ninguém mais lembra da epidemia de riso que começou numa aldeia de Kashasha*, em Tanganyika, atual Tanzânia, lá por 1962. Aconteceu mesmo: por conta talvez de uma brincadeira, alunos de uma escola, todos entre 12 e 18 anos de idade, dispararam a rir, de forma incontrolável, e o surto contagiou os professores, os funcionários, os diretores da escola. Em pouco tempo chegava a toda a aldeia: adultos, idosos, crianças, todos acometidos de uma crise de gargalhada impossível de parar. Não ficou nisso: a epidemia começou a avançar pelo país, atingindo inacreditáveis dezenas de milhares de tanzanianos, o que determinou a intervenção do governo. Aparentemente a epidemia terminou como começou, seis meses depois. Do nada, ela foi acabando, acabando, até o último risonho parar de gargalhar. Isso intrigou autoridades, médicos, o diabo a quatro. E, até onde eu sei, nenhum relatório conclusivo chegou a ser feito. O caso entrou para os anais da medicina (ou do humor?), e demonstra a ineficácia da autoridade constituída para lidar com um fenômeno, como direi?, hilário-exponencial desta natureza.

Quando a risaiada desandou a se espalhar, não se soube qual seria o melhor remédio (rir eu garanto que não era, pelo menos no momento). É interessante insistirmos: as autoridades acompanharam, avaliaram, estudaram – mas o surto, igualzinho a um meme com vida própria, só acabou quando quis.

Curioso constatar a inabilidade da autoridade (que aqui assoma com o perfil que você quiser: governamental, médica, sociológica, assistencial) para lidar com um fato tão primal como esse: o riso crescendo em escala geométrica e sem data para parar. Até porque outras espécies de manifestação se submetem ao controle: a depressão weimariana, que tomou conta da população alemã depois da primeira guerra, foi espertamente manipulada pelo austríaco de bigodinho, que transubstanciou tudo no III Reich. A revolta dos colonos de Boston, que foi tomando as demais colônias, espalhando-se igual a uma gripe, incrementou-se e resultou na Independência Americana.

Vários outros exemplos, dos quais o surto de Kashasha serviria perfeitamente de metáfora, podem ser puxados da memória, ao gosto do freguês: revoluções, insurreições, pestes, virais, o que tenha cabido na história – tudo teve consequências, tudo trouxe mudanças e, mesmo que não tenha alterado o contexto estruturalmente, deixou mudanças entranhadas que logo depois redundaram em alterações na ordem vigente. Todas exigiram a presença da figura da autoridade, que ora saiu vencedora, ora derrotada, mas sempre como agente da mudança.

Menos, claro, o que aconteceu na Tanzânia.

Aquilo não mudou a história. Mostrou o quanto o riso é inofensivo. O quanto ele, ao mesmo tempo que necessário, não acarreta tragédia alguma (excetuando-se o susto em si, já que os risonhos tanzanianos se espantavam com a magnitude do fenômeno mesmo enquanto se dobravam de rir), não é elemento pernicioso. Ele apenas é uma manifestação fisiológica natural, que autoridade nenhuma controla, que estudo nenhum cerceia, que especialidade nenhuma disseca. Ele é a resposta natural a uma brincadeira, a uma situação ridícula, a um equívoco, ou tão somente à ordem injusta das coisas – e, como nosso caso ilustra maravilhosamente, termina quando tem que terminar. Ninguém manda. Ele decide.

E o Brasil nisso? Ué, poderíamos dizer que nada impediria um surto igual ao da aldeia de Kashasha, em mimosas terras pindorâmicas, até para servir de reiteração à máxima de aqui se plantando (que seja uma piada), tudo dá e floresce e toma a paisagem.

Se bem que com a atual categoria de humor que floresce por aqui, principalmente o praticado na mídia, melhor mesmo torcer para que o surto acabe antes de começar.

* Desconsiderem a piada pronta que o nome da aldeia quase pede. Isso seria tema para outra epidemia de riso…

Os africanos já riram sem motivo, e não há nada que os governantes possam fazer contra isso nelson moraes

Nelson Moraes é publicitário, blogueiro, flamenguista e não anda muito orgulhoso de nenhuma dessas coisas.

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