“Curta as pequenas coisas da vida, porque um dia você vai olhar para trás e perceber que eram coisas grandes”, escreve em seu Facebook uma garota desesperançada que, leio no NY Times, como milhões de outros terráqueos tementes à Bíblia e a Deus, esperava para ontem, é isso mesmo, sábado, 21 de maio, o tantas vezes anunciado e jamais efetivado começo do fim dos tempos, nossa, e eu que não sabia de nada disso, hein? Imaginem.

Ainda bem que nada aconteceu, isto é, espero em deus que nada tenha acontecido, pois chegou a hora de confessar a vocês que na encolha os tenho enganado o tempo inteiro, desculpem, com essa premissa tola de que na internet tudo chega em tempo real, etc., etc., porque na verdade as famosas crônicas de domingo de Noga Sklar são escritas nas sextas-feiras — pra dar tempo de editar, revisar, coisas chatas do tipo, males necessários para garantir a qualidade do texto que, por mais que a indústria livreira evolua e se agilize com PODs e não PODs, continua dependente de um tempo razoável de maturação, fazer o quê, mas às vésperas do fim do mundo, taí, nada disso faz mais o menor sentido.

A questão é que, embora para algumas pessoas o problema constante do fim do mundo se resuma a miudezas —, tipo, vou abandonar o emprego, não vou mais fazer a cama, vou beijar a boca de quem não devia (como dizia a música de um tempo inacreditável em que beijar na boca ainda era um acontecimento na vida) e dizer adeus pra quem não me merecia —, no meu caso a coisa vai um pouco mais além: tenho trabalhado insanamente para um evento que deve acontecer daqui a uma semana, na próxima sexta-feira para ser exata: a Farra do POD. Isso, claro, se o mundo não tiver se acabado até lá.

Pois o caso é que eu ia lhes contar que entendia perfeitamente o problema que o Congresso Brasileiro acaba de enfrentar: parou por excesso de trabalho (por fazer) e mandou todo mundo se comer, tô quase chegando lá, mas aí abri o jornal esta manhã —online, claro — e pensei comigo, vai que os caras no poder já sabiam faz tempo o que estava para acontecer e que para nós, meros mortais, era segredo de estado até agora, né… Perdoai-os, senhor, etc., etc…

Alan e eu, pelo menos, acabamos de descobrir, e enquanto me preocupo com a cena política brasileira — que já me dispunha venenosamente a destruir —, escuto Alan se acabando de rir por trás da porta fechada do escritório, mas, gente, o que foi que aconteceu dessa vez? Fui lá conferir:

— Ha, ha, ha! O mundo vai se acabar amanhã, acabei de escutar no rádio online!!

— Pois é, eu também, acabei de ler na home do NY Times! Pode? Já estou escrevendo sobre isso!

Eis aí, caros amigos, como de um instante pro outro as pequenas coisas podem virar grandes, é o que queríamos demonstrar. Pra escrever esta crônica — a última que escrevo e que ninguém mais vai ler, a não ser, claro, que eu excepcionalmente a publique amanhã de manhã, sábado 21, como um alerta derradeiro, pronto, acabou, entreguei o jogo e parei de fingir de vez, fingir pra quê?

Aliás, escrever pra quê, mesmo? Vou largar tudo pra lá e com a licença de vocês sair para beber, conversar, bundear, namorar muito para esquecer como andei esquecida dessas coisas boas da vida, não que eu não goste de trabalhar, imaginem, mas assim como os nossos espertos congressistas, acabo de descobrir — à beira de uma overdose de atividade — que pra tudo há um limite! O limite do limite é que varia de caso para caso, se é que vocês me entendem.

Já por outro lado, e numa total inversão de expectativas à velha luz do túnel do fim do mundo, sabem como é, o que parecia tão grande, como, por exemplo, o crescente patrimônio de Antonio Palocci, vira assim, ó, um tiquinho insignificante, ele que enfie a sua fortuna duvidosa onde bem lhe aprouver, tanto dinheiro pra quê, se o mundo vai se escafeder?

Pois riam, palhaços. Quem riu por último de verdade foi aquele cretino poderoso, aquele comediante asqueroso que num último ato de humor insano destruiu, com um espirro breve, bem mais que a cara carreira em branco que tinha à sua frente, tudo aquilo que há tantos bilhões de anos vinha cuidadosamente aperfeiçoando para tantos seres ingratos que não o merecem absolutamente, azar o dele, quem mandou pesar a mão desse jeito na hora sagrada do sexto dia na semana da criação?

Deu no que deu e tchau, mas, hum, vai que esse senhor seu Deus esteja apenas cansado, esgotado, e depois deste sábado de descanso sagrado reflita melhor sobre o assunto e desista de vez desse projeto suicida maluco de acabar com tudo over and over again, francamente, ele mesmo incluído. Só nos resta torcer, ainda dá tempo, vai.

E pelo sim, pelo não, achei melhor me garantir e acabei de me decidir: como a crônica já está pronta mesmo, solto amanhã e pronto, dou um fim radical nesse suspense insuportável, fala sério. Afinal de contas, será este meu último ato nesta vida ingrata de cronista, e cá entre nós, se eu atrasar demais da conta vocês não iam querer perder comigo o seu último ato, eu entendo, por outro lado… Fiquem tranquilos! O show só termina quando a dama gorda canta, vamos combinar, e isso só deve acontecer no American Idol da próxima quarta-feira… ao vivo mesmo no Brasil, até Deus vai querer assistir, não é mesmo?

Bom fim do mundo procês, e aproveitem a chance que estou lhes dando entregando antes do tempo esse jogo definitivo, generosamente lhes permitindo curtir seus últimos momentos de gozo sobre a vida na terra, ufa, mas…

Bum.

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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