Diante do estádio lotado, o atacante pega a bola na intermediária e parte como um bólido em direção ao gol adversário. Dentro já da grande área, porém, percebe que a bola está centímetros além do alcance e que o marcador ao seu lado impede que ele possa concluir a jogada. Então, o herói abre os braços e se joga aos céus numa cambalhota mais exagerada que morte de pistoleiro em western italiano, na tentativa de convencer o juiz de que foi derrubado dentro da área. É o bastante para que toda a torcida de seu time se levante e grite “pênalti!” e ainda xingue generosamente a mãe do árbitro, caso ele não caia na esparrela.

Por mais bizarra que pareça, a história acima acontece diariamente em milhares (se não milhões) de estádios de futebol de todo o mundo. Com muita propriedade, nosso idioma chama o apreciador de futebol de “torcedor”, pois o que ele faz é exatamente torcer a realidade em favor de seu time do coração. Isso não exatamente uma surpresa, pelo menos não na avaliação de Ronaldo Helal, doutor em sociologia pela Universidade de Nova York, professor de pós-graduação em comunicação da Uerj e autor, entre outros livros, de Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil.

Para Helal, o fanatismo faz parte do torcer, descolando a pessoa da realidade. “Isso é natural. Não se pode imaginar, por exemplo, que um torcedor do Vasco da Gama, por mais desapegado que fosse, pudesse ver seu time cair para a segunda divisão e comentar ‘ah, que lamentável’. Naquele momento, aquilo é uma tragédia”, diz o sociólogo.

Tragédia que pode até provocar momentos cômicos, como conta o professor de História e flamenguista Juliano, cuja irmã era casada com um vascaíno: “No dia seguinte ao Vasco cair para a segunda divisão, minha irmã me ligou dizendo que meu cunhado havia passado a noite em claro, esperando que eu telefonasse para sacaneá-lo. Eu respondi ‘pra quê? Ele se sacaneou sozinho’.”

O problema, avalia Helal, acontece quando o fanatismo pelo futebol se torna patológico e começa a afetar os relacionamentos e o dia a dia do torcedor.  Foi o caso do comerciante Paulo (o nome é fictício para preservar a privacidade e a paz de espírito do personagem), torcedor do Palmeiras. Ele atribui o fracasso de seu primeiro casamento, entre outros motivos, ao fanatismo pelo time. “Por causa do meu trabalho, eu ficava pouco tempo em casa durante a semana. Nos fins de semana, ia sempre aos jogos, discutia, brigava na rua etc. Quando dei por mim, ela tinha arranjado outra pessoa e ido embora”, lembra que, que já está no segundo casamento e, admite, bem mais tranquilo em relação ao futebol.

A situação vivida por Paulo é o exemplo clássico dado por Helal para o fanatismo patológico, no qual o futebol passa a tomar conta da vida do indivíduo e afetar os seus relacionamentos. Mas a culpa, claro, não é o esporte em si. “O problema aí é o exagero”, opina o sociólogo. “Tudo que é exagerado faz mal. Se alguém chega ao bar ao meio-dia e bebe cerveja até as 2h do dia seguinte, certamente isso vai fazer mal. Até sexo em excesso faz mal.”

País do futebol?

Mas o excesso não seria natural, uma vez que o Brasil é o “país do futebol”? Não. Inclusive porque, na avaliação de Helal, essa classificação está longe de ser verdadeira – ou pelo menos exclusiva. Para ele, a ideia do Brasil como “país do futebol” é uma construção de pessoas como o jornalista Mário Filho e o antropólogo Gilberto Freyre, como parte da formação de uma “identidade brasileira”. “O Brasil queria se descobrir, se entender como nação, e o futebol era um aglutinador que ia ao encontro dos princípios de valorização da mistura”, diz o sociólogo, citando como exemplo a ardente defesa que Freyre fez da miscigenação brasileira no artigo “Football mulato”, de 1938.

Mas isso não explica, por si só, o gosto do brasileiro pelo futebol. A formação de grandes seleções a partir de 1938, com Leônidas da Silva, e a conquista de três títulos mundiais em 12 anos (1958, 1962 e 1970), consolidaram esse mito. “Mas isso não é verdade”, sentencia Helal. “Primeiro, porque o futebol não é o único esporte do país. Segundo, porque os argentinos, por exemplo, são ainda mais fanáticos. Há jogos entre clubes lá que mobilizam o país inteiro, algo que nem um eventual Flamengo e São Paulo faz por aqui.”

Seleção x Clube

Até mesmo a grande paixão do torcedor pela seleção brasileira, embora continue grande, não teria mais o mesmo apelo de antes. “Hoje, se você perguntar a um torcedor típico se ele prefere que o Brasil ganhe a Copa do Mundo ou que seu time vença o Campeonato Brasileiro ou uma importante competição internacional, ele certamente vai ficar com o time. E o mesmo acontece na Argentina, por exemplo”, avalia Ronaldo Helal. Os motivos, segundo ele, são muitos, incluindo a diluição dos jogadores pelo mundo e, no caso brasileiro, o fato de a identidade nacional não passar mais tanto pelo futebol.

A seleção ainda tem um apelo forte na Copa do Mundo, atingido aí também o torcedor eventual ou mesmo o não torcedor, que ignora o futebol nos quatro anos entre as edições da competição. “A Copa ainda faz sucesso por conta da ideia de que a seleção representa a nação, que os 11 jogadores estão disputando ali a honra e a glória do país, o que é uma bobagem”, avalia Helal. “A FIFA sabe disso, tanto que tenta controlar a participação de jogadores naturalizados. Se amanhã uma seleção europeia entra em campo com oito, nove jogadores naturalizados, fica mais difícil a identificação com o país que ela, em tese, representaria. E aí a Copa do Mundo viraria apenas um campeonato, e não necessariamente com bons jogos.”

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