Fiz uma pesquisa por amostragem para tentar descobrir o que mais nos irrita nas redes sociais. Já vou logo avisando que a quantidade de pessoas entrevistadas não vem ao caso (foi uma só, mas importante) e ainda me dei ao luxo de me auto entrevistar. Tenho certeza, no entanto, que se a pesquisa tivesse sido feita com dois indivíduos – além de mim – ela teria sido bem aceita nas redes sociais. Ainda mais se fosse explicada por um infográfico. Fala sério: tem coisa mais incômoda do que precisar fazer um infográfico toda vez que tiver de explicar alguma coisa pra alguém?

Ficamos mais visuais, é fato, mas o que aconteceu, em algum momento da história universal do ciberespaço, para que tantos passassem a precisar tão desesperadamente de provas, hieroglifos que ajudem a elucidar aquela coisa tão complexa chamada… texto? Por que cargas d’água faz tanto sucesso um conjunto de setas e desenhos que substituem a cansativa e enfadonha união de letrinhas formando silabinhas? Ok, ok, nem 8 nem 80: até aceito o argumento de que um infográfico bem feito pode ajudar bastante e acabar sendo um complemento legal… mas daí para esse sucesso todo? Não sabemos mais tirar nossas próprias conclusões, ora bolas?

O negócio anda tão feio que agora veio a onda do infográfico em vídeo – sim, dá trabalho demais dar scroll na tela para ver o bicho todo – sim, porque INFO que se preze tem pelo menos duas páginas. Assim, filma-se o conjunto de linhas retas, curvas, pizzas, tabelas, quadrados empilhados e uma montoeira de imagens e tudo acaba no Youtube. O que todo mundo passou a ter contra o Word assim, tão de repente?

Só para vocês terem uma ideia: acabei de fazer uma busca no Twitter (e só dentro do Twitter) usando a palavra “infográfico”. Sabem o que eu achei? Infográfico com os “os carros favoritos dos jogadores de futebol”; “boletim de desempenho individual em infográfico” (medo! meu avatar estaria com a língua pra fora!); “infográfico com o tamanho dos arquivos digitais”; “a história das agências de publicidade” (um sinal esse, hein galera!) e, pasmem: um infográfico sobre “os tipos de babacas”. Parou aqui? Nem pensar! Eu poderia escrever quase mil palavras e não chegaria à metade do que se pode encontrar em imagens esmiuçadas.

Jornalista que sou, tendo a crer que isso é coisa de publicitário – ah, todo mundo sabe que na faculdade há uma rixa entre as duas profissões, que fica ainda mais engraçada quando a universidade em questão oferece uma terceira via na comunicação social – os cineastas, povo sempre do bem, cheios de inspiração e que adoram um Glauber Rocha (quem não gosta, ora???). Agora imaginem a mistureba que é colocar na mesma sala os amantes do neo-realismo italiano com a preguiça e a arrogância dos jornalistas e o modo cartesiano e… infográfico de ser dos publicitários! O que eu queria dizer no começo do parágrafo (que me trouxe boas lembranças da querida UFF, lá se vão uns 13 anos…) foi que essa história de explicar tudo com infográficos deve ser coisa de publicitário. Afinal, todo mundo sabe que jornalista não sabe fazer conta, quem dirá explicar qualquer coisa com imagens que façam sentido juntas!

O coitado do infográfico pode acabar pagando o pato por uma discussão que vai além – estamos falando, aqui, da iminência de uma era na qual ficamos tão preguiçosos (posso estar exagerando agora, aviso!) que é preciso ter um desenho pra nos ajudar a compreender e digerir as informações. Vocês se lembram como a gente falava com alguém que parecia lerdo para entender uma piada? “Quer que eu faça um desenho”? Pois é… agora é pra valer!

Os infográficos têm a capacidade de nos tirar a capacidade de tirar nossas próprias conclusões (ok, vou precisar de um infográfico pra explicar esta frase). O que incomoda é que ninguém se tocou disso! Acho que vou ter de apelar e fazer um infográfico sobre como se dava a leitura antes dessa solução visual: alguém – normalmente um ser que sabia ou achava que sabia escrever – vinha, descrevia o problema, inclusive detalhando as características temporais da circunstância, discriminava itens, sub-itens e tais e, no final, terminava a história com um tal “fecho de ouro” e um ponto final. Que nem de longe se parecia com uma seta, muito menos com uma forma oval.

Uma história poderia durar mil páginas ou uma só, dependendo do conteúdo e do poder de síntese do escrevinhador. Mas a interpretação era de propriedade do leitor, esse ser tão curioso e exigente. Assim, o que era uma simples pedra no meio do caminho se tornava um obstáculo intransponível na vida ou apenas… um pedregulho que feriu o pé do Drummond. Se fosse hoje, um infográfico tentaria explicar a origem das pedras, como elas se juntam para formarem um piso, quando de repente uma se descola (e números mil seriam usados para deixar clara a probabilidade de tal fato acontecer de verdade) e atinge o pé do poeta.

Confesso que vez ou outra um infográfico ajuda um bocado – ele torna simples o que poderia ser complexo. O problema é: se tudo passar a ser simples, saberemos um dia decifrar o difícil?

Elis Monteiro é jornalista especializada em tecnologia e mídias digitais

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