Grandma, por Maria Anna Machado.A vovó romancista é também artista. Maria Anna Machado mora em Palm Coast, Florida, onde se dedica à pintura digital, à literatura e à comunicação com os bisnetos através da arte.

Will you still need me, will you still feed me, when I’m sixty-four?
Lennon & McCartney

Uma das coisas boas de não ler mais o jornal impresso é que não me deixo mais influenciar pelos queridos colunistas de O Globo como antigamente, mas… uma das coisas ruins de eu ter voltado a ler O Globo em papel por dever de ofício — pelo menos aos sábados, sabem como é, para conferir o estrondoso sucesso da minha editora que não sai da lista de mais vendidos — é que, voltando a ler os meus colunistas mais queridos, não consigo escapar da insidiosa influência deles sobre o que quero escrever, tamanho o poder da palavra impressa sobre tudo o que se pensa ou escreve, mas chega de blablablá.

O que eu quero contar é que fiquei pasmada ao conferir as diversas versões publicadas sobre o caso rumoroso do poderoso Dominique Strauss-Khan, ufa — DSK para os íntimos, como não custei a descobrir — pego em Manhattan com as calças na mão, como se ainda espantasse ver comprovado em público o indiscutível e ancestral poder do sexo sobre o cérebro e as peças que ele prega em quem pensa com a cabeça do pênis no lugar daquela plantada sobre o pescoço, se é que vocês me entendem: uma ocorrência até bem banal, a não ser que se trate de alguém que num caso desses se fode federal, se comparado a um cara normal, será que fode pode?

Não entendi muito bem porque tanta gente boa insiste em defender a honra do dito cujo enredado nas malhas de alguma improvável teoria de conspiração, de Strauss-Khan, digo, já que não faço a menor ideia de como ele chama o dito cujo dele, uma mania masculina que nunca entendi muito bem, fala sério. Eu, por mim, não tenho dúvida alguma de que ele realmente se infiltrou na intimidade do andar de baixo, me desculpem o preconceito, embora obviamente não veja nisso a menor lógica, considerado o tamanho do prejuízo possível — uma atitude inesperada pra quem vive (vivia) de prever futuros prejuízos alheios. Francamente. Se alguma dúvida persiste é quanto à demanda honrosa da dama invadida, todo mundo sabe que em casos de estupro presumido toda mulher é conivente até prova em contrário, mas nada disso está realmente me interessando, vamos combinar. Eles que são interesseiros que se entendam, e não tenho nada a ver com isso.

Mas o que me chocou realmente, preciso confessar, foi a declaração contundente de Zuenir Ventura, ele mesmo um senhor provecto e honrado com muitas décadas de praia nas costas e que em sua coluna sobre o tema cometeu, a meu ver, dois ou três lapsos imperdoáveis de desinformação crônica: o primeiro por desconhecer, segundo Alan me lembra, que “Law & Order” foi descontinuado nos Estados Unidos para desconsolo dos fãs, e, portanto, Mariska Hargitay jamais poderá investigar na ficção o crime hodierno, ops, hediondo, do venerando Strauss-Khan; e o segundo, bem mais grave, por afirmar que “como o acusado tem 62 anos e essas proezas não duraram mais de uma hora, a questão é se não estamos diante de um raro fenômeno de desempenho sexual”, mas o que foi isso, caro Zuenir? Um ato falho ou uma explícita confissão de falha? (ou quem sabe, por outro lado, Mestre Zu queria na verdade dizer “menos de uma hora”, aí, sim, seria de espantar pela proeminência da demora.)

Porque, cá entre nós que vivemos um vigor sexual normal depois dos 60, e não somos poucos — embora, obviamente, nossos clamores de gozo terminem em ouvidos moucos, quem quer ouvir falar de um avô que ainda pode com a avó e com muito gosto? —, não vejo problema nenhum em um homem saudável de 62 anos ser capaz de pôr seu pênis nas duas bocas alternadamente e mais de uma vez, consensualmente, é claro, o que é que há de tão raro nisso? Peraí. Raro mesmo é alguém se arriscar a falar disso em público, não é mesmo? Com toda a alegada transparência em nossas vidas pessoais, agravada pelas redes sociais, ainda nos mantemos hipócritas como sempre quando o assunto é a prática sexual, aquela, normal, de todos os dias, sem os arroubos impossíveis nem as perversidades incomunicáveis das séries de tevê.

Ou então não sei, sou muito sortuda e nem sei, e olhem que não tem nenhum Viagra envolvido nisso, só o mesmo impulso amoroso de sempre, como aquele, dizem, que Anne Sinclair dedica ao seu venturoso marido. A questão é quando o vigor se divorcia do amor ou vice-versa, deus nos livre de ambas as situações controversas embora a segunda seja bem menos grave do que a primeira, que leva frequentemente a humilhações de pelo menos uma das partes e a abusos de poder por parte da outra, seja de que sexo for.

Fico aqui pensando com que cara o eterno Paul McCartney, já agora, fiquei sabendo, apresentando uma namorada nova (nossa, como vivi até hoje sem saber de nada disso?) — e com vários abusos legalmente contestados por sua detestada ex, de quem o ex-Beatle se divorciou quando tinha por volta de, hum, 64 anos de idade — enfrentaria hoje em dia um Engenhão lotado de saudosistas aos acordes românticos de “When I’m sixty-four”, pois é, as coisas mudam, até mesmo na Ilha de Wight. E olhem que aparentemente nem os cabelos Sir Paul perdeu quando a velhice finalmente o alcançou.

Aqui em casa, graças a deus, embora eu não passe os meus dias exatamente tricotando em frente à lareira como todo mundo sabe, a única coisa que anda nos fazendo falta são alguns netinhos especialistas em computador perturbando o avô, hoje também um editor cuja vida não se limita a trocar uns dois ou três fusíveis queimados por mês, meu deus, será que hoje em dia alguém se conforma com isso?

Não sei. O que sei é que a maturidade mudou, e pra quem duvida disso, posso contar o caso verídico de Maria Anna Machado, uma escritora estreante — e já bisavó, imaginem — que na semana passada, em seu 80º aniversário, apresentou à família o seu primeiro romance publicado em ebook e ainda tem planos pra mais uns dois ou três, bota maturidade nisso.

E um bom domingo procês.

Falar (bem) de amor não tem (melhor) idade: vigor sexual além dos 60 e tal é bem normal, e bota energia nisso Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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