Uma pequena mudança no ângulo de visão e um mundo de diferenças saltam aos olhos. É isso que fica evidente ao compararmos as fotos acima. Uma traz o grito “Viva La Revolucion!”. Na outra, a frase revolucionária compete com um simples letreiro de uma churrascaria escrito em inglês. Estas diferenças são ainda mais ressaltadas se analisarmos o contexto: as imagens foram realizadas em um país com passado de violentas lutas contra o domínio dos Estados Unidos.

No final do ano passado, participei de um festival de fotografia espanhol realizado em Manágua, capital da Nicarágua, um dos países mais pobres da América Central. Voei para lá com a ideia fixa de registrar resquícios da guerrilha dos Sandinistas contra forças apoiadas pelos norte-americanos. Um ensaio pré-concebido que se desmontou já nos primeiros atos. Encontrei retratos do revolucionário Sandino em toda parte, é verdade, mas como um produto, junto de propagandas da Coca Cola, MacDonald’s e camisetas dos Flinstones.

É claro que não esperava encontrar uma cidade museu intacta. Mas a idealização, a fé, o romantismo, a esperança e tantos outros aditivos, as vezes nos fazem derrapar e criar nossas “verdades”, inventar mundos incompatíveis com outros “mundos” imaginados por outras cabeças. Daí surgem grandes oportunidades de desfilar nossas dúvidas e humildemente colher pensamentos alheios.

Procurar novos ângulos não é só papo de fotógrafo. Pode ser um gesto simples capaz de provocar grandes transformações, quebrar tabus, abrir caminhos e criar novas maneiras de olhar. Isso parece óbvio, mas por que muitas vezes não colocamos em prática esse exercício no nosso cotidiano? Não estou falando em flexibilização de valores, mas de procedimentos.

Como é chato ouvir alguém que conta sempre as mesmas histórias, conservando  velhos preconceitos e, de forma previsível e radical, dispara suas convicções. Estas “verdades absolutas” podem significar a morte de um diálogo ou nascimento de uma discórdia. Por outro lado, as próprias dúvidas e a possibilidade de montar ideias coletivamente alimentam as boas conversas. A simples decisão de ouvir (de verdade!) as pessoas de classes, origens, religiões, opções sexuais diferentes já pode ser um grande passo.

Voltando ao momento dos cliques das fotos, bastou ficar na ponta do pés para ler a propaganda de Hary, o churrasqueiro gringo. Imediatamente minha saborosa e romântica teoria derreteu ali naquele grill. Acredito que ocultar, ignorar ou fechar a visão apenas na mensagem “Viva la Revolucion” seria desprezar informações e possibilidades. Incluir a propaganda do estabelecimento, além de jogar limpo é exercitar nossa capacidade de adequação. Bom, isso é o que enxerguei. Deve haver outras leituras que não vi. Qual a sua?

Uma visita à Nicarágua pós-sandinista nos ajuda a avaliar nossas próprias ideias pré-concebidas Gilvan Barreto

Gilvan Barreto é um retratista que gosta de palavras e prefere fotografar os que não fazem pose.

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