Em Juazeiro do Norte,  uma cidade cheia de religiosidade e misticismo, terra do Padre Cícero, me consultei com Dona Maria do Socorro, a Maria Raio X. Esta senhora de 80 anos, baixinha e frágil,  é conhecida no Cariri cearense por prever catástrofes, diagnosticar doenças e curar enfermos através de mensagens divinas.

Seus poderes foram revelados cedo.  Pouco depois dos 20 anos de idade  viu Jesus pela primeira vez. Dona Maria do Carmo diz enxergar as pessoas por dentro: “Quando era pequena andava de cabeça baixa para não ficar vendo o coração das pessoas o tempo todo”. Daí veio a alcunha de Maria Raio X.

Dona Maria diz que vê os órgãos internos funcionando (ou não).  Atende gratuitamente milhares de fiéis que a procuram há décadas. Mas o diagnóstico não é tudo, semianalfabeta,  ainda receitava os remédios que julgasse necessários. Denunciada pelo Conselho Regional de Medicina, em 2009 chegou a ser presa por exercício ilegal da profissão.

Como todo respeito a Dona Maria e seus seguidores, não esperava muito da consulta. Também não tinha a pretensão de comprovar, testar ou muito menos descreditar  os feitos da Maria Raio X. O interesse era profissional. Escutar e registrar mais um dos tantos mensageiros e profetas daquela região.

Mas não vou negar que havia uma alguma insegurança, um desconforto. Há anos devendo uma visita ao médico, tinha certo receio de virar mais um personagem dos episódios de previsões trágicas de Dona Maria. Há diversas histórias em que ela enxergou tumores malignos e disse a data que as pessoas iam morrer. Mentalizei: se ela enxergar minha sinusite já será um grande feito.

Com formação católica, mas na realidade “ateu praticante”, é compreensível que encontre minhas respostas na ciência. Mas não duvido das forças inexplicáveis pela racionalidade. Por via das dúvidas, encontrei minha forma particular de proteção. Se a notícia é boa eu acredito. Caso contrário, deixo o vento levar.

De cara me rendi à simpatia e atenção de Dona Maria, que foi logo me passando uma bronca típica de avó zelosa. “Eita que esse aqui gosta muito de gelo, hein?.” Não entendi bem o recado, mas fiquei imaginando que ela se referia  indiretamente ao grande apreço que tenho ao consumo de uísque, com gelo. Será isso?

Desviei a atenção para o amigo jornalista que logo recebeu aquela “varredura”, o esperado check up instantâneo. Dona Maria passava o olho, ou melhor, o raio X, e citava baixinho tudo que estava examinando. “Traqueia, aorta, coração…” e prosseguiu por todo tórax do “paciente”. Nada de errado, só achou que o camarada estava um pouco “fraquinho” e sugeriu que tomasse um complexo vitamínico. Para nossa surpresa, o meu amigo tomava ocasionalmente este reforço. Provavelmente quando se sentia “fraquinho”. Que coincidência, pensei.

Olhou para mim e voltou a falar do gelo. O frio, as bruscas mudanças de temperatura, secreções na face, dores de cabeça, incômodos na garganta, ouvido e nariz… Fez vista grossa pro uísque, um brinde a isso. Mas foi certeira nas causas e consequências. Isso mesmo, Dona Maria escaneou minha sinusite. Não cheguei lá com qualquer sintoma, não dei dica alguma. Um espanto. Quem se arriscaria a explicar?

Falsa médica, louca ou um ser iluminado em missão divina? Gilvan Barreto

Gilvan Barreto é um retratista que gosta de palavras e prefere fotografar os que não fazem pose.

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