Recebi no outro dia um doloroso email de uma jovem amiga deprimida que me preocupou um bocado, vamos combinar: como eu, nos meus áureos dias de perpétua desprezada — isso é, de perdida e sempre apaixonada — , a pobre menina linda que pensa que não tem ninguém corre atrás justamente de quem não lhe quer bem, mas, gente, que raio de masoquismo seria esse? Hein? Será que alguém ainda acredita que pra ser poeta publicado tem que penar sem clemência com a dor tuberculosa do amor não correspondido, que aparece sem falhar em todas as belas canções do repertório romântico tão sofrido, ufa, ou em pelo menos 90 e muitos porcento dele?

Pois é. Hoje é Dia dos Namorados — e o problema aqui em casa é que é dia dos namorados pra mim, mas não para o Alan, meu marido americano pra quem a data alvissareira cai em fevereiro e eu sempre esqueço, durma-se com um calendário promocional variável desses. Ui.

E como o ofício de cronista nos obriga gentilmente a discorrer longa e ironicamente sobre o assunto mais banal do dia, eu não poderia escapar exatamente neste dia, sabem como é. O que vocês não sabem, e vou contar pra vocês agora, é o que há por trás da enorme propaganda dos mitos de amor, a maior parte deles de amor perdido, só pra perpetuar a nossa carência e nos fazer gastar, gastar, ô gastura, sô…  e que graças a deus que não acredito nele são nada mais que isso: mitos. Mas como todos vocês eu ralei um bocado pra descobrir isso, quem não acredita pode até ler em todos os meus livros, porque, cá entre nós que ninguém nos ouça, eu nunca escrevi de verdade uma linha sequer sobre qualquer outra coisa, e põe amor apaixonado nisso.

Sobre o mito platônico de alma gêmea**, por exemplo, preciso confessar, foi um livro inteiro de idas e vindas achando que o gêmeo era um, depois outro, depois outro, pois é, tudo isso no decurso de um único livro, até confundi o pobre do Alan com a minha enrolada diatribe amorosa, imaginem então os leitores menos envolvidos, arre… Está também no Hierosgamosintervalo para o comercial: compra logo, vai, dá pro seu amor que ele vai (te) adorar, ainda dá tempo, é um ebook: você compra agora e ele recebe agorinha mesmo —, outro livro inteirinho sobre a busca incansável do amor, mas nesse acabei encontrando e arrefecendo o ardor como conto daqui a pouco, confiram por enquanto o diálogo de amantes surdos que a gente trocou, isto é, através do qual a gente se entregou:

“— quanto a isso do gêmeo e tudo o mais… achei bem estranho, algo que requer profunda análise e estudo: um olho crítico.

— gêmeo, o quê? não entendi.

— me refiro a um texto teu publicado na internet, sobre a busca do gêmeo… já tendo se equivocado com três ou quatro candidatos, e se decepcionado amargamente com eles… explicando como você quis mudar, ser outra, para atrair um gêmeo que apreciasse mais…”

Taí, hoje sou outra finalmente, e Alan tem muito a ver com isso, tá certo, mas… alma gêmea? Peraí. Isso não existe, e é fonte certa de frustração para quem insiste. Já o amor, meus amigos, tampouco existe… é apenas um exercício afetivo que a gente programa na mente, por pura necessidade de contato humano frequente — Love the one you’re with, se é que vocês me entendem, pra quem não entende [inglês, ou amor, ou seja lá o que for] já vou logo explicando: ame aquele que está contigo neste momento, é o melhor que se pode fazer pra se sentir feliz, podem acreditar. Pois no final das contas, felicidade é uma brevidade  e nada mais, o que lamento, tenho que lamentar, ou nem teria por que sorrir ou chorar: a gente vive desses altos e baixos dementes, coisas de momento, fazer o quê.

Agora. É claro que em algum nível subjetivo esse outro com quem se vive tem que ter um algo a mais pra nos agradar, dar tesão, ter química, sei lá, algo na pele e no toque que nos faz parar de pensar, porque em se tratando de amor pensar muito não ajuda em nada, tem que sentir, relaxar, foi isso justamente que eu só consegui quando encontrei o Alan nos Estados Unidos, depois do nosso breve e caliente namoro na internet: relaxar e gozar, mas isso eu já contei em público um milhão de vezes, e olhem que a gente, apesar das críticas em contrário, nem foi tão explícito assim, a coisa hoje em dia foi muito mais longe do que a gente sequer pensaria ousar, vejam o Anthony Weiner, por exemplo, com seu tuiterzão superexplícito (link proibido pra quem não aguenta imagens fortes, por favor não cliquem), assim também não dá. É preciso sutileza até para namorar, não é mesmo? Argh.

Mas voltando a Alan e eu, moderna síntese de casal pra ninguém botar defeito, um amor escrito na web como todo mundo já sabe — quem ainda não sabe está a fim de tentar, é ou não é? —, parafraseando Nietszche, oba: ou a gente se mata ou se fortalece (como companheiros, pelo menos). E o amor apaixonado, custei a aprender, tem bem pouco a ver com essa coisa toda que está discriminada aí: casamento é trabalho e compromisso, muita paciência, algum desejo de erotismo, vontade de acertar e um coração meio omisso, já que um parceiro ideal, sem nenhuma concessão ao vício, é algo que só se consegue num mundo sem pressão, que ilusão. Comigo nunca mais.

E um bom domingo amoroso procês, com rosas, velas, incenso, música suave e tudo o mais a que todo mundo tem direito, se depois dessa crônica histriônica ainda sobrar romantismo pra isso, é claro.

***

(*) Felizes juntos.

(**) Pois é, faltou explicar que o mito de alma gêmea nada tem a ver com o tesão constante que muita gente pretende conseguir com isso, haha, é um mito platônico como o próprio nome diz, isto é, criado por Platão ele mesmo — que como não sabia nada sobre o assunto inventou essa história de cósmico compromisso, vamos torcer para o texto aqui linkado não estar equivocado, afinal de contas, por obra e graça do MEC o Brasil Escola, coitado, vai meio mal das pernas, não é mesmo?

E por falar nisso, a tese pesquisada no site é tão completa, mas tão completa em sua brevidade abjeta, que abarca entre os deuses do Olimpo até mesmo aquele amor que antigamente não ousava dizer seu nome, mas que hoje em dia o alardeia a torto e a direito até pra quem não tem nada a ver com isso. E isso, francamente, não é nenhum preconceito de minha parte, mas, peraí: pra que sair por aí avisando a meio mundo, até pra pessoa que acaba de te contratar num emprego novo, por exemplo, com que parte do gênero humano você gosta de se deitar? Fala sério!

***

Ah, tá bom. Apaga tudo aí em cima, pois Alan me despertou esta manhã com uma surpresa e tanto… Um poema, uma performance e uma promessa… Pois é. Chorei (no canto superior esquerdo). Abaixo um instantâneo da vida, onde ela mais se beneficia da arte, escrever o quê. Desejo o mesmo pra todos vocês.

O que há por trás da enorme propaganda dos mitos de amor, só pra perpetuar a nossa carência e nos fazer gastar, gastar? Noga Sklar

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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