Ele deveria ter a minha idade. Trinta e cinco a serem completos em agosto.

Esposa, dois filhos, emprego fixo.

Casa perto da família numa comunidade do centro do Recife que fica bem pertinho de um xópim center bem bacana.

Não lhe sobrava nada, mas também parece que não faltava tanto. Vivia.

Contam que era pedreiro dos bons. Daqueles que chegam cedo, dão conta do serviço, se dão bem com os colegas. Não constam em sua ficha reclamações do patrão.

Nas horas vagas, gostava de fumar um baseado. Mas não gostava de ir na boca de fumo. Mesmo tendo sido criado com muitos dos que trabalhavam no estabelecimento, não gostava de misturar as coisas. Tinha medo de polícia e de ladrão.

Por isso não comprava nunca a dolinha de dois reais. Preferia comprar 50 gramas ou 100 gramas, que lhe duravam normalmente um par de meses. Às vezes mais. Às vezes menos – especialmente porque, estando ‘de cima’, não hesitava em ‘salvar’ os amigos que pediam um par de belotas.

Naquela sexta-feira, foi trabalhar. Tudo normal. Cumprimentou a brodagem, meteu o capacete e foi simbora misturar cimento, levantar parede, empurrar carrinho-de-mão. No almoço, fez graça com os amigos torcedores do Santa Cruz. Seu Sport tinha sido mais uma vez campeão pernambucano.

Fim de tarde, tomou banho e foi atrás do chefe. Era dia de receber seu trocado e ele precisava muito da grana. Tinha comprado a erva fiado e o trafi já tinha mandado recado. Não era segredo que ninguém por ali trabalhava com Serasa ou SPC. O serviço de cobrança funcionava de uma maneira, digamos, mais incisiva.

Pensou nos filhos e na esposa quando foi informado que a grana só sairia na segunda-feira. O dono da obra precisou sair um pouco mais cedo. Passar o fim de semana na praia com os amigos. Churrasquinho, uisquinho, essas coisas legais da vida.

O pedreiro quase não dormiu naquela noite. Tanto que estava ainda meio acordado quando, de madrugada, bateram em sua porta. “Fulano!”.

Levantou, deu um beijo na esposa, lavou o rosto. Abriu a porta só para olhar no rosto dos dois vizinhos que lhe cobravam a dívida de R$ 80,00. Pagou com a vida, oferecendo o peito para oito tiros. Oito balas de 38, que devem ter custado R$ 5,00 cada.

A esposa ficou triste, os filhos ficaram tristes, a mãe ficou triste, os irmãos devastados. O mais velho respirou fundo e foi conversar com os funcionários do crime. Dizer que não deveriam ter feito isso. Que conheciam bem o seu caçula. Que não se mata ninguém por causa de R$ 80,00. Que poderiam ter consultado a família. Que isso poderia ter sido contornado de outra forma. A resposta não animou.

“Porra, parceiro, foi mal. Tu sabe que a gente não manda em porra nenhuma. O hôme mandou fazer teu irmão, a gente tem que fazer, velho. Senão ele faz a gente”.

(“Até fazerem ele”, pensou o recém-órfão de irmão mais novo).

Mas não fez mais nada. Não era disso. Pegou a chave do seu táxi e foi trabalhar pensando na vida. Quatro anos depois, recusa-se a acreditar no jornal. Sabe que não foi a maconha quem matou seu irmão.

Donos do monopólio da maconha, bandidos impõem o terror Ivan Moraes Filho

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

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