O grande Demóstenes (ei, eu falo do grego, de 2.300 anos atrás), ao conspirar contra o regime ateniense, recebeu voz de prisão – e uma pena de morte que fatalmente viria como conseqüência – e foi se refugiar no templo de Poseidon que, como santuário, não poderia ser invadido pela soldadesca que estava na cola do inigualável orador. Pois bem, os soldados então se aquartelaram em redor do templo, e o comandante da tropa, Arquias – que havia sido um medíocre ator de teatro, na juventude – garantiu, em alto e bom som, que Demóstenes seria poupado caso se entregasse imediatamente. O que nosso herói fez? Foi até a janela e gritou “Arquias, tu nunca me convenceste em tuas interpretações como ator, achas que vai me convencer agora, como general?” Em seguida, num notável senso de timing, picou as próprias veias com uma pena de ganso envenenada e, sentindo que o efeito começava, saiu e se entregou. Quando os soldados puseram a mão nele, caiu morto. Uma saída de cena memorabilíssima.

Certo, quero me ater ao recadinho dele ao general canastrão. Forçando um pouco a metáfora (bom, é a vantagem de ser articulista com liberdade total de expressão,  pelo menos aqui no PQAGEA), imagino que Demóstenes sejamos todos nós, eleitores. O templo de Poseidon seria, então – acho – nossa tentativa de nos isolar dessa dinâmica mentirosa que rege o mundo político (e quando eu falo mentirosa não poso de ingênuo, a achar que políticos deveriam ser ilibados, exemplos de cândida pureza. Só acho que eles poderiam ser sinceros no exercício da falsidade, mas divago). E Arquias seria ninguém menos que a classe política, tentando nos resgatar do isolacionismo da incredulidade, na base do “ei, eu trabalho por você, represento você, emplaco projetos por você, então quero seu crédito!” E, à la Demóstenes, poderíamos replicar “Ei, vocês nunca me convenceram com suas promessas antes da eleição, acham que agora eu caio nessa?”

Volto a dizer: não acho que a classe política deva passar, de um momento para outro, a representar o ideal de retidão comportamental e de coerência. O Legislativo é fundamental, as casas representativas – as câmaras, assembléias e o Congresso Nacional – são essenciais como mecanismo regulador do poder central, o que é garantido pelo Estado de Direito. Só acho que os políticos não deveriam implicar tanto com nossa impressão de que são todos duas-caras.

Exceções à parte (seria idiota achar que não existiriam), político age motivado por um insofismável interesse – o dele próprio. Isso não implica tachar todos como um bando de mentirosos. Significa que o fisiologismo sempre é a ferramenta que garante a sobrevivência política, independente de ideologia ou agenda. Claro que político cede a lobbies, claro que político negocia votação, claro que político costura acordos que, grosso modo, nada têm a ver com seus compromissos primordiais com os eleitores.

O problema é quando a classe começa a posar de vítima. Acusar a imprensa e a opinião pública de golpista, ou ficar revoltadinha quando sua, digamos, flexibilidade de posições é posta em relevo. A essa altura do campeonato (patrocinado sabe-se lá Zeus por quantas empreiteiras ou cartéis), ninguém exige que a Câmara dos Deputados seja composta só de vestais, ou que o Senado seja o retrato fiel de querubins arriscando acordes em suas harpinhas. O eleitor, quando muito, só quer que os políticos transpareçam sua natureza mimética: todos estão ali para jogar, e ganhar. Não tentem nos convencer de que nobilíssimos princípios são o motor de seu, digamos, sacerdócio.

Agora, se continuar o chororô de que “certos setores da sociedade nos perseguem”, ou que “tentativas de desestabilizar o regime conspiram contra a classe política”, aí só vai nos restar a saída de Demóstenes: fingimos que acreditamos e nos aplicamos o veneno do descrédito eleitoral, nos fazendo de mortos na hora de votar. E, definitivamente, não é isso o que eles vão querer.

Políticos podem fazer o que quiserem, menos esperar que acreditemos na pureza deles Nelson Moraes

Nelson Moraes é publicitário, blogueiro, flamenguista e não anda muito orgulhoso de nenhuma dessas coisas.

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