A ideia é usar os recursos digitais como chamariz, criando uma aura cool e jovem em torno da boa e velha literatura. Aquela feita exclusivamente de palavras, uma depois da outra.
Scott Lindenbaum, sobre sua revista Electric Literature, via Todoprosa

Apareceu aqui. E aqui. É o assunto do momento, logo, tem que aparecer aqui também, e por um motivo a mais: Alan foi um deles, um daqueles 1.000.000 de leitores que baixaram em seu kindle o tal hyper-seller de John Locke, o novo queridinho da literatura para as massas; e não, não se trata de um novo teórico do capitalismo, embora de um jeito ou de outro esse Locke de agora seja exatamente isso: um praticante do novo capitalismo literário, por apenas US$0.99, é isso mesmo, de grão em grão, etc. etc. Haja galinha.

Bem que eu quis criticar — criticar sem ler, claro, como tem sido hábito ultimamente — achar alguma coisa errada que invalidasse o intrínseco valor do autor, Alan quis saber por quê:

— Por que você tem que achar alguma coisa errada num livro que um milhão de leitores endossaram? — Endosso barra-pesada, tá certo, e me pergunto: Será que aquela exigente livraria brasileira consideraria John Locke um “autor bacana”? Duvido. Afinal de contas, antes de se autopublicar na Kindle Store J.L. era um ilustre desconhecido e ninguém mais. Já eu, vocês sabem, vivo de falar mal de todos e tudo, ou não teria sobre o que escrever, mas vou logo me justificando:

— Porque afinal de contas, ora, é tudo negócio, darling. — E o meu negócio é justamente provar por amaisbê, e mais algumas vírgulas bem colocadas, que todo autor continua precisando de um bom editor, por mais que consiga vender sem eles, vamos combinar.

Quanto a essa história de “autor bacana”, vou logo explicando também que é mais um preconceito, ou paradoxo, sei lá. O que sei é que aconteceu comigo, é isso mesmo, enquanto eu negociava uma posição de destaque para um dos livros da nossa editora baseada no fato de que — embora a gente ainda esteja bem longe do milhão, somos indiscutivelmente os líderes nacionais em vendas de livros digitais, com mais de mil vendidos de um único título, o imbatível Domingo, o Jogo, que se mantém grudado no topo da parada e segue faturando, graças a Deus ( e algumas otras cositas más), ufa, fim do travessão, pior seria um asterisco de pé de página, não é mesmo? —, pois é, tenho vendido muito livro, mas o cara da livraria bacana não me comprou de jeito nenhum: disse, sem escrúpulo algum, que a cada semana chegam pra ele muitos “livros bacanas” e que ele não pode assim, simplesmente, dar espaço pros meus, ah, tá bom, bacanas mas que não vendem, certo?

E cá entre nós, bacana seria o quê? Vender um milhão ou publicar bons livros? Vou explicar, mas triste mesmo é que brasileiro pouco lê, e precisamos com urgência mudar isso. Isso, porque embora eu trabalhe um bocado pra publicar bons livros, fico às vezes um bocado desanimada por acreditar que pouca gente vai reparar nisso, quer dizer, se o livro é bem escrito ou não, sem tanta palavra repetida e continuidade comprometida, como aqui nesta crônica, por exemplo.

O que os de John Locke, como Alan afirma e outros analistas confirmam, realmente são, bem escritos, digo. Alan prossegue e me explica — o que outros analistas também confirmam — que Locke é um bom escritor, os erros são mínimos, e que além do mais ele encontrou seu nicho, e um nicho de responsa: segundo o meu americano marido, todo homem nos Estados Unidos consome adoidado essa literatura de mistério e crime, numa vaga tentativa, um pouco menos vaga do que assistindo a filmes violentos, de evitar assassinar suas esposas na vida real, esposas que, por seu lado, consomem adoidado um certo tipo de romance açucarado, numa vaga tentativa de esquecer que pouco liga pra elas o marido que têm ao lado, sabem como é, ainda mais se só custar US$0.99. Embora a incrível marca de hum milhão de livros vendidos deva provar que esta emblemática divisão entre os sexos tem se tornado um pouco borrada ultimamente, e a recente aprovação do casamento gay deve ser prova disso, mas voltando ao assunto que me é mais concernente, peraí que eu quase me perdi.

Como quase me perco diariamente tentando me dividir entre “eu” editora de textos e “eu” vendedora de livros, embora a situação ideal, claro, seria juntar na mesma pessoa as duas coisas, ou no mesmo título, se é que vocês me entendem. Ainda chegaremos lá, prometo: no curso de escrever esta crônica, pelo menos, cheguei realmente a algum lugar, bacana ou não consegui botar nosso livro pra rolar, exatamente lá, na livraria bacana: ponto pra mim, pra editora de textos e pra vendedora de livros, e também pro autor que nos escolheu, claro. Bacana é isso.

Mas voltando ao assunto da quantidade de livros, enquanto eu conversava na semana passada com alguém da Amazon sobre livros digitais no Brasil, me senti bastante patética, confesso, comparando os nossos mil ao milhão deles, uma constatação humilhante de que pra atingir tantos livros vendidos a gente precisa, não tanto de bons livros, mas de gente que os leia, e disso, meus amigos, estamos longe neste país. É o que precisamos mudar (ih, repeti, mas não custa enfatizar), e com a máxima urgência, pra nos descolar, inclusive, do nosso constrangedor IDH, como era mesmo aquele slogan de antigamente? “Um país se faz com homens e livros”, é isso aí, já dizia aquele pica-pau, e com o advento do digital fazem-se os livros e nem se pica mais o pau, melhorô, vamos em frente. Ui.

Na KBR, deixa eu me vangloriar, temos feito a nossa quixotesca parte: na contramão do mercado de bacanas, só publicamos literatura nacional, e editada cuidadosamente, com o máximo amor e atenção dedicados ao precioso idioma português, o que, de um jeito ou  de outro, é um jeito meio fora de moda de educar o nosso leitor, estamos aí.

E um bom domingo procês, sem nem sair da cama, claro, que este inverno está demais da conta: como disse o Djavan, um “bom lugar pra ler um livro”, se for digital melhor ainda, experimentem pra ver. E pra ajudar a criar o costume, a KBR neste mês de julho tá dando livro de presente, que 0.99 que nada. Só pra quem curte a gente, claro, vai ! Fui.

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

Tags:  , , , , ,