“Aquele espaço da subjetividade, engendrado na mente individual e coletiva, se vê subvertido e reproduzido por dois expedientes principais, o telejornal e a telenovela, que, com o intuito de facilitar a leitura da realidade, terminam por transmudá-la em uma coisa diversa que passa a ser verdadeira para o cidadão crédulo, entorpecido em sua passividade”, leio no texto verdadeiramente complexo que acabo de editar, nossa (é do Evandro Marques de Abreu e de 2002; agora imaginem vocês se o autor o tivesse escrito em tempos de redes sociais que, com o intuito de facilitar hiperbolicamente o traquejo da nossa realidade social, terminam por transmudar-se na própria realidade social de muita gente, a minha, pelo menos, ui).

Dei-me conta desse perigo — é, gente, ainda estou “under the influence” desse estilo acadêmico, e não é pra menos: acabo de editar duas teses cabeludas uma depois da outra, sem intervalo para respirar, não se espantem se in casu eu lhes enfiar algum latim prima facie para completar, se é que vocês me entendem, trauma puro, juro — ao ser convidada para integrar o rol de amigos da querida Lygia Papel, ops, Pape, com todo o respeito.

Explico. Lygia Pape foi minha professora de “Plástica I” na facul há trocentos anos, nem posso lhes confessar quantos, e enquanto todo mundo pelas costas a criticava — dá pra ver daí, pelo apelido maldoso a ela concedido, o que dela se pensava na Santíssima Úrsula que nos educava para o malvado mercado real de trabalho —, eu já naquela época imatura a admirava, tinha a perfeita noção da importância artística daquela figura frágil, baixinha, de cabelos curtos já então falsamente negros como as asas da graúna, e que nos desafiava, com precoce hodiernidade (paradoxo perde… ou seria paradigma?), a extrair do papel chapado uns volumes expressivos que se assemelhassem, o máximo que fosse possível, à querida arquitetura futura, para além do ódio que naquele momento obrigatório pudessem inspirar, ufa.

Grande Lygia. Pois eu a admirava tanto que muitos anos mais tarde a convidei a fazer parte do famoso Projeto Arqueos na Fundição Progresso, minha pregressa e única incursão na ingrata seara da curadoria artística, tá bom, mas cadê o perigo nesse caso? Gente: é que a querida Lygia faleceu há alguns anos, encantou, virou imagem, até aí tudo bem, mas como é que eu posso agora de repente ser “amiga” de gente que já morreu? Argh.

Tudo isso pra dizer a vocês que hoje em dia a imagem que se projeta, na rede ou fora dela, acaba ficando muito mais real do que a própria realidade que nos cerca, eu, por exemplo — ah, tá bem, percebo o que se passa mas, no fundo no fundo, só reconheço de verdade a minha autoridade máxima pra falar por mim, e de mim, quem não gostar não me adicione e pronto —, e por falar nisso: vocês sabiam que a antissocial, antipática, isolada e elitista insuportável de BH, a esquisitinha de Minas, acaba de completar online a marca sensacional de mil amigos? Quem diria, hein? Incompreendida nunca mais, eita Facebook bão, sô.

Mas não é só isso. Se antigamente já era difícil acreditar no que afirma a imprensa, hoje em dia o que se divulga sem nenhuma prensa, quer dizer, na internet, tem adquirido cada vez mais o peso de verdade absoluta, vejam o caso de Gaza, outro exemplo, intervalo para aferição:

— Alan! Quando é mesmo que deve flutuar a flotilha para Gaza, hein?
— O quê? Foi cancelada, você não sabia? Eram tantos problemas, que o governo grego… hum… where have you been?

(Acabo de me tornar neste instante amiga do Mauro Pascotto, presidente da Nasa, amigo do Mirisola e falante de iídiche, meu número 1017, oy va voy)

Pois é. Tô aqui. Na rede. À disposição de vocês, mas voltando à questão de Gaza: lê-se em metade da mídia que grassa a miséria por lá, sem olhos que a possam realmente atestar, Huxley que me perdoe, porque outros cem se apressam logo a demonstrar que Gaza é na verdade um resort de luxo, onde a miséria não passa de um subterfúgio em alta definição e submerso numa boa jacuzzi para atrair ao pedaço toda a simpatia politicamente correta que existe neste mundo, então qual? Peraí. Só mesmo bêbada de vodka barata com suco de manga em caixa, afinal de contas, estamos no íntegro Brasil de Dilma — e em Brasília, todo mundo sabe, tem manga madura caindo do pé no meio da rua, meninos, isso eu também vivi.

O fato é que a realidade hoje, sério mesmo agora, tem se debatido entre as muitas correntes entrelaçadas, cada uma tentando de preferência enforcar a lógica alheia num esforço que inclui fotos, vídeos, o que for, qualquer imagem que valha por mil palavras tentando sublimar o verdadeiro valor da palavra escrita e publicada, valha-me deus, ou sei lá quem seria o patrono do vale o escrito, o bicheiro da esquina é que não é, veja-se, a respeito, a bela imagem eternizada de Lygia Pape em seu perfil no Facebook — de vez em quando sonho com papai assim, eternamente saudável e jovem, será que eu devia abrir um perfil pra ele? Ops. Desculpem. Esse papo já não é bom pra domingo.

E por falar em Facebook, anunciaram e garantiram que a nossa privacidade de pijama vai se acabar, a Ethel acabou de me avisar (nossa! que musiquinha é essa que não conheço? é a Ethel ao vídeo, gente, que emoção!): numa joint-venture arretada com o skype nosso de cada dia, ou mais ou menos isso, a gente agora vai poder bater papo vendo a pessoa ao vivo do outro lado — se estiver viva, é claro — sem sair da tela do FB, fazer o quê (e eu, cá entre nós, vou fazer o quê? adeus reuniões matinais com clientes enquanto estou no banheiro, pronto, falei).

Bom. Eu juro procês que esta era pra ser uma crônica muito séria, e ainda deveria incluir o excelente artigo de Roger Cohen no NY Times a respeito do Brasil, vocês sabem, e também um conselho para o nosso povinho conectado, entre eles (nós) a incrível Dilminha — nossa mãezinha atual, muito focada em ética e outros modernos objetivos político-virais —, para daqui para frente só falarmos bem online da nossa pátria varonil, afinal de contas tem muita gente ouvindo, ou lendo, tudo o que a gente fala, ou escreve. E acreditando, sabem como é. Não se pode mais bobear, como no caso daquele francês na Lapa, cuja carteira foi roubada depois de morto antes da Patamo chegar, leiam lá.

Mas aí juntou o cansaço terrível de uma semana difícil, o frio lá fora (e aqui dentro), o peso do compromisso da crônica e, por que não compartilhar, a vodka com suco de manga que Alan trouxe para eu tomar, ui, e deu nesse samba do crioulo doido que hoje em dia não se pode mais mencionar, embora eu confesse a vocês que estou envolvida neste momento exatamente nisso: uma história muito empolgante do samba dos crioulos que vem em breve por aí (pela KBR, claro), francamente. Antes dessa febre do politicamente correto a gente podia falar bem mais francamente, e não havia nenhum racismo implícito nisso, pelo contrário; mas agora, deus me livre.

E bom domingo procês.

PS: nossa, que honra: acabo de ser convidada pelo nosso editor a fazer parte do Google+, tô me sentindo d+. aceitei.

PS1, em 24/07: não sei se foi porque a gente disse que não deveria ser assim, mas a verdade é que Lygia Pape a partir de amanhã deixa de ser perfil pra virar pessoa pública, bem melhor, oba. Curtam.

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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