Estamos histéricos. Ou à beira de nos tornarmos. O que anda acontecendo com o mundo? Mais particularmente: o que está havendo com o Brasil? De uma hora para outra tudo nos irrita e incomoda – mães amamentando na rua, piadas sem graça e sem noção de candidatos a humoristas, conflitos entre colegas de escola, preconceito (ou suposto) contra negros, índios, pardos, homossexuais, heterossexuais, nerds, anões, amantes de gatos, pais que levam filhos a restaurantes, fumantes, religiosos, ateus, cegos, míopes, mancos, deficientes físicos, visuais, pessoas que floodam no Twitter, tudo nos afronta, é isso mesmo? Ou sempre fomos assim tão chatinhos e só agora temos onde desovar o nosso incômodo – Twitter, Facebook, caixinhas de comentários dos sites e blogs, fóruns virtuais?

Tenho pensado muito sobre essa conjuntura maluca que se criou em torno dos tais preconceitos e bullyings. Todo dia alguém nos bombardeia com alguma denúncia, seja no Twitter, nos sites de jornais, no jornalismo impresso, na TV e nas conversas de corredores de empresas. Até no metrô. Todo mundo deu pra falar mal de todo mundo. E vilões vão surgindo a todo instante, e olha que nem estamos falando de Myriam Rios, cujo discurso não vale a pena convocar (equivocado e ponto). O Jabor andou falando sobre isso – essa histeria coletiva – assim como Lya Luft e Guilherme Fiúza: estamos todos sendo patrulhados (e patrulhando), o mau humor impera e tudo é encarado a ferro e fogo. Não há oito nem oitenta, há 160! Estamos over. A onda do politicamente correto, que assola os Estados Unidos há décadas, agora vem ganhando força total aqui também. E, cá entre nós: é chato demais!

Dia desses, fui mal atendida numa loja de operadora de celular. Coloquei no Twitter que o “tal sistema da loja devia ser um funcionário manco porque caía o tempo todo”. Pronto: foram reclamar comigo no Twitter e no Facebook. Como assim, manco? Que palavra mais preconceituosa! Mas vou substituir por o quê? “Pessoa temporariamente debilitada das pernas?”. Por que não posso falar “manco”? Ofendi alguém?

O problema é que a patrulha anda pegando pesado demais e, como bem disse o Guilherme Fiúza (em artigo publicado na Época), o perigoso é quando o Estado entra nessa, usando o discurso politicamente correto para decidir por nós –  mais ou menos como o governador do Rio, que quer obrigar toda escola a ter uma Bíblia, num Estado que deveria ser laico. As cartilhas do MEC – tanto a do português errado quanto a dos homossexuais – entram nessa leva. Já que nos mostramos abertos a aceitar a censura, o Estado entra junto e proíbe, torna lei, tira a liberdade. Assim, conquista-se o Direito, mas perde-se a simpatia, a aceitação das diferenças que deveria ser natural e HUMANA. Preconceito é errado, mas não é com o mesmo preconceito que se ganha essa luta, é com educação, ética e moral. Que vem de berço, de cultura, de herança e de aprendizado. Se o Estado nos ensina que alguém é diferente de nós, por que vamos tratar todo mundo de forma igualitária?

E agora vem alguém dizer que o politicamente correto serve para proteger as minorias. Mas o que é minoria hoje em dia, gente, sério? Precisamos pensar nisso ou passaremos a viver num estado de constante ódio. Já temos leis que protegem contra racismo e discriminação – o que falta é aplicar corretamente as tais leis. Já conquistamos muita coisa, mas não será com a incitação ao ódio que chegaremos a um consenso. Sempre houve piadas falando de gente burra (ainda mais quando loira); gorda (capadinho, rolha de poço, baleia, orca); magra (compridão, salsicha, filé de borboleta); branca (russo, cara pálida, mandioca descascada – essa era eu na escola); negra (tição, mulato, tiziu, negão, etc); índia (preguiçoso, peladão); amarela (tudo igual, piiii pequeno); gay (viadinho, boiola, bicha, frutinha etc); gente tarada (galinhão, piranha etc)… e sempre haverá. É horrível? Sempre foi e sempre será. Mas eu mesma chamo meu filhote de branquelo, tampinha… estou praticando bullying contra ele?

Dia desses estava vendo uma reprise da “Escolinha do Professor Raimundo” no Canal Viva (TV a cabo). Fiquei chocada com três minutos de Costinha – e olha que cresci chorando de rir com ele, assim como todos os meus amigos – fossem eles mesmos gays, negros, mulatos, mamelucos, pobres, ricos, diferenciados, feios, bonitos. Agora, no entanto, um Costinha não poderia trabalhar. Ou seria processado a todo o momento. Sério? Precisamos mesmo chegar a esse ponto?

Meu filhote chegou da escola dia desses com uma marquinha roxa. Me contou que o coleguinha tido “batido nele”. Se fosse seguir o fluxo atual, sairia correndo como louca e exigiria explicações sobre. Afinal, meu filho está sofrendo maus tratos na escola! (essa foi a primeira reação da minha mãe, quando viu a marquinha no moleque, e eu confesso que ri). Porque decidi nada fazer (pelo menos neste caso): 1) as crianças têm a mesma idade; 2) meu filho precisa aprender a se defender; 3) ele precisa aprender que no mundo há momentos para agir e outros para reagir, sempre com civilidade e humanidade, que é o que EU, MÃE, ensino para ele. Imaginem vocês a cara de Dercy Gonçalves sendo cerceada quando chutasse uma pedra e fosse obrigada a dizer “ora, pedrinha linda, você não devia estar aqui” em vez de um FDP bem grande. Mas não pode, porque a palavra P. ofende e precisa ser substituída por “pessoa que vive do sexo”. Imaginem vocês como a torcida vai ter de chamar a mãe do juiz numa partida de futebol? Essa antiga tradição brasileira vai se perder ou a mãe do juiz não é minoria, não precisa ser protegida?

E o humor, como vai sobreviver a essa leva politicamente correta que se arrasta e leva multidões com ela? Que graça tem o Woody Allen sem as neuras dele? E o Elvis, que balançava a pélvis? Só para vocês terem ideia, o que ouvi falar mal de Carlos Saldanha e do filme “Rio” porque mostra um molequinho pobre (e negro) ajudando bandidos… Gente, mas se o moleque fosse branco, ele poderia ajudar bandidos? Se fosse asiático, poderia? Ah, mas o bandido sempre é negro (disseram também). É, mas em “Law And Order” quase sempre o bandido é branco… não há saída para esta enrascada, ainda mais porque no Brasil todo mundo é misturado, né não? Ou o Saldanha teria de usar dois moleques, um branco e um negro, atuando juntos na cena, para não parecer preconceito? Ah, mas os cariocas são todos malandros no filme, me disseram também. Sim, mas desde o Zé Carioca a gente é visto assim. OK, vida que segue. Adoraria viver na praia, mas trabalho tanto quanto paulista (ih, preconceito!).

O que as redes sociais mostram é que há muita coisa escondida no peito das pessoas. E agora todo mundo quer botar pra fora. Ou esses sentimentos nasceram agora? Minha esperança é que isso seja uma fase, um momento no qual a sociedade descobre que tem canais de comunicação com capilaridade e quer testá-los. Depois, a gente volta ao normal, achando lindo ser diverso, e não assustador como querem fazer parecer. Preconceito é errado e ponto. Mas isso deve estar na alma e não na ponta do dedo. Ou então viveremos no mundo do Bezerra da Silva – “tem dedo de seta adoidado, todo mundo a fim de entregar os irmãos…”?

Elis Monteiro é jornalista especializada em tecnologia e mídias digitais

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