(dedicado a todos os meus amigos que neste momento procuram uma saída honrosa e gostosa para os males da cidade grande, em verdade vos digo: vale muito a pena)

“Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido”, compartilha Rubem Braga, todoprosa. Eu também, embora, claro, uma das grandes frustrações da minha vida seja o fato de que nunca consegui tocar piano de ouvido, só com a partitura na minha frente e, mesmo assim, como muito custo. Não nasci pra isso e agora, sabem como é, tenho que me contentar com essa vida ingrata de palpiteira pública, olha o jogo do contente aí, gente! Foi mamãe que me ensinou, e bem que ela tinha razão. Tomou um limão? Pois tome de limonada, e com um bom açucarzinho para melhorar — sem adoçante por favor, artificial, digo, que se não der câncer é alegria na certa. Ops. Alergia. Tô fora.

Rubem Braga, todo mundo sabe, é parte daquele time premiado de cronistas mineiros do qual pretendo um dia fazer parte, embora de mineiro o Rubem não tenha nada, a não ser a fama: o escritor era capixaba. O que me anima ainda mais, vamos combinar, pois com toda essa onda de mineira, se eu for fazer as contas, já estou há muito mais tempo fora de Minas do que dentro, mas a trago no coração, ui, uai, principalmente quando me percebo ainda ligada aos amigos mineiros de antigamente, ex-namorados de infância que reencontro no Facebook, por exemplo — e que se lembram de mim tanto quanto me lembro deles, surprise, surprise —, além, é claro, dos meus novos amigos mineiros, um time de responsa, alguns deles, imaginem, até igualmente cronistas, será que a gente ainda acaba como os neo-cavaleiros do Apocalipse? A conferir. Aguardem. Vem coisa nova aí.

Agora. Nem só de palpite, é claro, vivia o Rubem. Vivia de escrever crônica, isso é certo, e aparentemente muito bem — escrevia bem, e vivia bem da sua escrita, raridade agora e então também, não custa acrescentar —, como os outros cronistas de Minas, todos escrevendo no Rio, mas isso eu já contei antes, desculpem aí. E crônicas de uma leveza que com toda certeza, por mais que eu queira, não vou alcançar nunca, nem com toda a floresta e os passarinhos que me cabem. Porque cá entre nós, o Rubem escrevia assim, sobre passarinhos e outros nadas instigantes, de sua cobertura no Jardim Botânico, com vista para uma mata bem ralinha e bem na boca do Túnel Rebouças, cuspindo carros e ruídos 24 horas por dia como se fossem pérolas, porcos, porcaria.

Já eu, vocês sabem, cercada de mata e calma por todos os lados, vejo a vida sob o manto da ironia, nasci assim, fazer o quê: pra onde quer que a gente vá, o problema é que a gente sempre se leva consigo, não dá pra ser de outro jeito, não é mesmo? Ah! O que eu não daria em certos dias pra me livrar de mim, imaginem o Alan, coitado… mas de vez em quando a gente até se diverte, então compensa, equilibra, sei lá, coisa que bipolar custa pra encontrar, o caminho do humor como a própria condição de se equilibrar, digo. Como esta manhã, por exemplo, rindo na cama antes de a gente se levantar: contei pro Alan o diálogo de surdos que travamos ontem no Facebook, onde eu disse que “usava” a “minha” floresta para me acalmar, ah, teve gente por lá que não perdeu a oportunidade de me criticar:

— “Sua” floresta?

— Minha, sim, e daí? Minha, sua, nossa…

(ah, esses ecochatos, francamente, quem os aguenta? o amigo foi logo despejando aquela lenga-lenga irritante de “planeta, espírito, civismo e solidariedade com a miséria”, pô, peraí, mais um instante e vinha pachamama e mãe terra pra cima de mim, fala sério)

No que Alan engatou imediatamente: “Há anos atrás eu costumava chocar as pessoas com esse tipo de conversa”, blow their minds, ele disse, “dizendo a elas ‘a minha lua’, ‘o meu sol’, ‘as minhas estrelas’, coisas desse tipo, até os meus filhos eu confundi com essa história”, ele ri mais ainda, “pois não é tudo meu? Nosso?”

É isso aí. Agora, se você decide tomar posse e fazer uso, já é outra história. No Facebook mesmo, as reações à nossa conversa foram as mais variadas possíveis, uns reconhecendo que o ambiente urbano não dá a seus pobres beneficiários a menor chance de usufruir das benesses da natureza, outros puxando a sardinha pra sua brasa chinfrinzinha, comparando a exuberância da Mata Atlântica ao mísero jardim com laguinho de seu querido condomínio paulista, desculpem aí, ganho pra fazer graça, sabem como é, se eu não exagerar a miséria alheia vou falar do quê? Dos meus passarinhos cantando de manhã?

O que a gente esquece na maioria das vezes — eu mesma vivi a maior parte da vida sem ter a menor ideia de como viver junto a ela e o bem-estar que isso nos traz, haja arte, consumo e cinema pra nos compensar — é que é tudo nosso, não é preciso tanta reverência como querem os praticantes da “ecologia espiritualista”, argh: a natureza somos nós, é tudo a mesma coisa, e a gente se sente tão bem com ela como com nossos pais e nossos filhos, coisa de família, sabem como é. Ninguém precisa frequentar nenhum curso pra aprender isso, vai lá e curte. Pronto. Falei.

Alan gosta de contar uma história — entre milhões de outras coisas, ele já foi mímico e contador de histórias profissional, um talento teatral — que mostra muito bem a que ponto chegamos com nossa cegueira civilizatória, uma legítima e explosiva ratoeira, nós não, eu, hein… Lá vai:

Rub-a-dub-dub, three men in a tub, the butcher, the baker, the candlestick maker. One thing a man can do… is get out of that tub!”  [era uma vez, ou algo assim, três homens numa banheira, o açougueiro, o padeiro e o ‘castiçaleiro’  — carne, pão e luz, duro é conseguir traduzir a rima — essa parte é um conto tradicional, tudo bem, mas o resto foi Alan que acrescentou: uma coisa que um homem pode fazer é sair daquela banheira!]

Pois é. Como afirma o meu excelentíssimo marido, essa coisa de viver em caixas de concreto com uma janela ou duas ainda acaba com vocês, quase acabou comigo. E em tempos de internet, ninguém mais precisa disso, só vive assim quem quer.

Saiam dessa, manés. E um bom domingo procês, com tudo a que temos direito, ok? É tudo nosso! Tá tudo aí!

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.