Dois fatos chamaram atenção do mundo neste fim de semana fatídico: a tragédia em Oslo, na Noruega, provocada por um atirador, e a morte de Amy Winehouse. Ambos mobilizaram os frequentadores das redes sociais, mas Amy causou muito mais barulho. É claro que há de se convir que a morte de uma jovem expoente da música é do interesse de todos e sempre será, mas por que o assassinato a sangue frio de 68 jovens na ilha norueguesa de Utoya (fora os mortos no prédio do governo atingido por bomba) é assunto menos importante? Simplesmente porque, nas novas mídias de relacionamento, o show business e seus arredores, infelizmente, ainda chamam mais atenção do que as, digamos, “causas sérias”. Isso é ruim? Vamos pensar…

Anders Breivik caminha entre suas vítimas. Imagem: Reprodução de TV

Anders Breivik caminha entre suas vítimas. Imagem: Reprodução de TV

No Brasil, a morte de Amy gerou mais de 430 mil mensagens no Twitter durante o fim de semana, sendo 320 mil apenas no sábado, dia em que a morte da cantora foi anunciada. Só para se ter ideia do tamanho do movimento, a morte de Osama Bin Laden gerou 375 mil menções em um período de seis dias, de acordo com o BuzzMetrics, serviço do Ibope Nielsen Online que monitora redes sociais. Tirando os fãs da cantora – que, sabemos, não são poucos – a maioria das menções era de troça, piadas infames, nada que realmente fizesse muita diferença.

Rimos horrores da tragédia da moça, fizemos trocadilhos (até nos jornais – vide o “Amy-a ou Deixe-a”) e acompanhamos sua decadência pela TV, em shows ao vivo, junto com a Inglaterra, seus pais, seus amigos, todo mundo. E no final das contas a pobre era apenas uma menina de 27 anos, se acabando em rede mundial, se degenerando, se matando. E todos assistindo. E, agora, todos compraremos seus discos e nos perguntaremos: mas por que mesmo Amy fez isso consigo mesma? Por que será, gente? Porque a tragédia virou objeto de consumo. Devoramos Amy viva e agora ela valerá ainda mais morta.

A Web tem, como diria meus queridos amigos paulistas, um PUTA potencial, é a maior e mais poderosa rede já criada até hoje e pode servir para muita coisa: mas a maior parte de seu uso se traduz no que é inútil. Sim, amigos, a vida “real” continua sendo dura e a “vida virtual” não precisa sê-lo. Assim, sofremos do lado de cá e relaxamos do lado de lá. Isso, cá entre nós, é típico da Web brasilis, porque há povos extraindo o que há de melhor na rede de computadores que funciona como megafone. Vamos relembrar?

Na Coreia do Sul, em 2008, ocorreu a “Marcha de um milhão à luz de velas”, protesto motivado pela abertura do mercado nacional à importação de carne bovina dos Estados Unidos. A preocupação, à época, era com o risco da doença da vaca louca, e o resultado dos protestos foi a renúncia do primeiro-ministro Seung-soo. O que mais impressiona é como começou o protesto: como conta Clay Shirky, autor de “A cultura da participação”, no site da boy band DBSK uma notinha – entre muitas outras – destacava a polêmica da “carne americana”. Dentro do site das jovens estrelas começou um pequeno movimento de adolescentes que passou a influenciar os pais, que passaram a ir às ruas lutar contra o perigo iminente. Tudo em rede, por uma causa considerada importante para a sociedade. Deu certo. E fez história.

Outro exemplo? As manifestações no Egito este ano, quando jovens se mobilizaram através de redes sociais, programas de mensagens instantâneas e fóruns, e foram lutar nas ruas contra a opressão do governo. Nas eleições do Irã, a mesma coisa: a Web sendo usada como ferramenta importante de conexão entre pessoas, com uma causa em comum – divulgar os desmandos do governo e escancarar uma tragédia que tinha tudo para ser oculta.

E no Brasil? Algum movimento importante que tenha nascido dentro das redes sociais e efetivamente tenha causado impacto na sociedade? #CalaBocaGalvão, “ForaSarney”? Galvão não se calou e Sarney continua dando as cartas – até quando se cansar, e olha que o homem é forte. Ah, sim: tivemos o  “gentediferenciada”, que reuniu milhares de pessoas nas ruas de São Paulo – mas cá entre nós, apesar dos méritos do movimento, de mostrar a indignação perante o preconceito, não mudamos nada, tudo acabou em churrasco. Por que será? Nossos políticos não levam a sério os movimentos populares na rede porque nós mesmos não o fazemos. Queremos sempre “zoar”, mas na hora de falar sério só os chatos o fazem…

Agora mesmo uma onda apareceu no Twitter e no Facebook: o “ForaRicardoTeixeira, contra o presidente da CBF que se perpetua no poder e, cá entre nós, pelo andar da carruagem vai se perpetuar. Vai dar certo? A Fifa vai nos ouvir? E a própria Fifa, não merece uma hashtag?

Verdade seja dita: nós não sabemos conduzir nossos movimentos, como povo cordato que somos. Atiramos a esmo e nunca acertamos o alvo. E muitas vezes perdemos nossa moral porque achamos mais divertido fazer piada sobre a morte de #AmyWinehouse, e o humor nem sempre é a forma mais eficaz contra corrupção ou desmandos dos homens públicos. Querem um exemplo clássico? Jair Bolsonaro veio, falou um monte de baboseiras e agora é convidado a estrelar propaganda de roupa íntima – se bobear, ganhou mais do que perdeu e acabará eleito novamente. Tudo acaba em pizza e tudo vira piada.

Quando não temos uma grande organização com grandes interesses nos incentivando a ir para a rua protestar (alguém lembra de “Anos rebeldes e os caras pintadas?), simplesmente ficamos em nossos sofás, achando graça de tudo. Não tiramos Sarney. No máximo conseguimos uma explicação porca sobre o desaparecimento de uma criança pobre – sim, o corpo de Juan apareceu, mas as respostas não chegam. E isso porque um jornal carioca teve a coragem de estampar a pergunta “Onde está Juan?” em sua manchete.

A Web tem um potencial infinito e inexplorado: temos uma concentração de pessoas e mentes como nunca antes na história deste país. Mas ficamos tão dispersos nos indignando e dando RT em premiações que acabamos desperdiçando essa moeda tão valorosa. E a Copa do Mundo virá, assim como as Olimpíadas… continuaremos inertes, assistindo de camarote às revoluções mundo afora que contam com a preciosa ajuda da internet? Quando nós mesmos colocaremos as mãos na massa, iremos para a rua conclamar as massas, mudando a realidade? Ter humor é importante, mas ser cidadão também o é. Ou não?

Elis Monteiro é jornalista especializada em tecnologia e mídias digitais

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