Não sei se vocês sabem, mas domingo passado, enquanto eu escrevia vocês liam a crônica… bom. Eu queria que esse wordpress aqui tivesse aquele lápis que aparece riscando quando a gente escreve besteira no skype, sabem como é? Pois eu ia escrevendo que domingo passado foi dia de Deus porque alguém escreveu no Facebook que era alguma data relacionada a Newton, aniversário, ou dia da descoberta da gravidade, sei lá o quê, mas devia estar errado, porque agora não estou encontrando nada, nem uma leve referência ou mera maçãzinha. Quase como Deus ele mesmo… mas deixa pra lá.

Primeiro, a primeira explicação: o que tem Sir Isaac a ver com Deus? É que Alan sempre me diz — a cada vez que eu afirmo pra ele que deus não existe e ele fica irritado com isso* — que pra ele a gravidade é que é Deus. Depois, a segunda explicação: eu já andava querendo escrever que eu andava querendo falar com Deus, mesmo que pra isso tivesse que ficar a sós, apagar a luz etc. Eu e Deus (ah, tá bom, a inversão foi só pra nós dois aparecermos com letra maiúscula) volta e meia nos estranhamos, quer dizer, quase o tempo todo. E quanto mais velha eu fico, mais constante fica esse tempo de ateia, agnóstica, descrente, digam aí. Por mais que eu sinta que me aproximo da morte, que é quando as pessoas gostariam de verdade que Deus existisse (pra amenizar o medo daquilo que desconhecem), sinto cada vez mais essa inexorável certeza de que nada mais há além dessa nossa vidinha aqui na terra mesmo, com nossas dores e prazeres obrigatórios se alternando sem que a gente possa interferir no curso deles consideravelmente. Nada a fazer a não ser prosseguir, um dia atrás do outro, tentando não se dar por vencido nas batalhas da sobrevivência.

De uns tempos pra cá, tudo o que tem sobrado de minha velha e desgastada crença nos altos desígnios — para alguns: divinos — não passa de um incômodo vício de linguagem — que procuro disfarçar com uma letra minúscula que, cá entre nós, não consegue enganar ninguém: é quando digo “graças a deus” isso, “graças a deus” aquilo. Pois no outro dia consegui o antídoto pra isso, vejam como funcionou a contento: substituí o vago agradecimento por um consistente “felizmente”, o que pretendo continuar fazendo daqui para frente. E Deus com isso?

Pois é. Nem com isso, nem com nada ou ninguém mais que me concerna particularmente (hum, muito estranho, botem “concerne” no lugar; deve melhorar, mas errado não está), ou vocês acham que se um “Deus” existisse teria tempo para tanta e tão gratuita sandice? Nem eu.

Meu mais recente conluio com Deus — ok, desculpem, mas esse papo (de) sagrado encoraja este tipo de linguagem aí meio pomposa, se é que vocês me entendem: Deus não fala em jargão de malandro de rua, embora o preconceito seja incorreto vernacularmente — deu-se, com o perdão da cacofonia, já faz alguns anos, quando uma parente com quem eu me importava bastante estava bem mal numa cama de hospital. Bati um papo privado com o lado divino que persiste na gente e prometi que, caso a parente se recuperasse a contento, eu cortaria o cabelo comprido que, segundo ela, não me caía nada bem devido ao avançado da idade, coisa com a qual muita gente poderia concordar, vamos combinar. Fui atendida. E cumpri a minha parte.

Agora. Num aparte que pouco tem a ver com o resultado do embate, hoje não tenho tanta certeza de que a petição assinada em prol da cura alheia tenha beneficiado as partes envolvidas, francamente. A morte, muitas vezes, é um substituto bem menos contundente do que anos a fio de meia vida, vocês me entendem, dolorosos demais para todos a quem afete a rotineira agonia de conviver com um doente, ah, melhor parar por aqui. Não temos sapiência suficiente nem pra saber o que de verdade é bom pra gente, não é mesmo? Viver é enganar-se, já dizia um poeta. Ou seria outra coisa?

Enquanto não desisto de vez e me torno plenamente autossuficiente, sem precisar apelar, como dizia mamãe, para essas “muletas” que o divino espírito provê para a gente, confesso a vocês que briguei e me reconciliei com Deus um bom número de vezes, enquanto a vida se ocupava com seus planos independentes. A morte repentina de papai foi uma delas, das “brigas”, digo. Já o encontro do amor, o sucesso profissional, a alegria desse mato de luxo que nos cerca cotidianamente, por exemplo, poderiam constar como “reconciliações”, embora nem todas elas tenham ocorrido exatamente: quanto mais resultados colho, à base de muito trabalho e esforço, menos os credito a alguma entidade superior como faz tanta gente.

E por que falar sobre isso agora? Bem. É que andei caindo em tentação novamente, é isso mesmo: tem coisas (até bem normais) que excedem a nossa capacidade de superação habitual, dependendo de quando e em que condições elas acontecem, sabem como é, e lá fui eu tentando barganhar com Deus uma última vez. Prometi — e se ele me atender vou cumprir — que volto a crer nele sem maiores exigências, simples assim, porque o que andei pedindo, embora pra mim seja algo precioso realmente, pra ele é coisinha simples, com 10% de chance de acontecer naturalmente, no curso normal da natureza, digo. Mas eu juro, prometo, sem cruzar os dedos nas costas nem nada parecido — isso eu posso garantir —, que não cairei naquela outra tentação de tentar explicar o milagre, caso ele venha a ocorrer, com uma leizinha  fajutas dessas que operam a probabilidade dos fatos. Fé é isso aí.

Fiquem com Deus. E um bom domingo procês.

***

Em tempo: semana que vem, depois de vários meses batendo ponto no PQAGEA com uma regularidade de barnabé que se orgulha do posto barato que ocupa, não estarei para variar postando a crônica aqui pra vocês, ó, mas é por um bom, excelente motivo. Vou viajar pra São Paulo para a Farra do POD e não vai dar pra escrever, ok? No dia 14 estamos de novo aí, bom descanso de mim, aproveitem!

* Pra vocês terem uma ideia de como o Alan fica irritado com isso, comecei com uma enxaqueca enquanto escrevia a crônica que só foi piorando até quase a inconsciência. Ele disse que era castigo: “Para de escrever sobre o que você não entende!” Olha o pecado aí, gente!

Novidade: crônicas de Noga Sklar agora também no Crônicas da KBR, site novíssimo.

Noga Sklar é escritora, editora e blogueira, e se recusa a engordar e encaretar.

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