Aí meu irmão fez: “parabéns, padrinho”.

Em meus tempos católicos, tinha sido padrinho de crisma do rapaz. Entrei de branco, prometendo para a igreja que dali em diante zelaria pela fé do moçoilo.

Os tempos passaram e o “parabéns” agora era menos uma congratulação e mais um anúncio. Naquela hora, me convidava pra apadrinhar sua filha, que ainda morava no confortável bucho da mãe.

Adorei. Vibrei. Comemorei. Mas me precavi: “Vocês vão batizar na igreja?”, perguntei e ouvi a negativa resposta. Pai e mãe não frequentam a igreja, não têm motivo pra batizar.

Também não frequento. Não me defino mais católico. Não participo de congregações. Não contribuo. Não me confesso. Não sigo a cartilha de Roma. Não curto o papo do papa. Defendo direitos de homossexuais casarem-se e das mulheres interromperem sua gravidez. Acredito na camisinha e no sexo livre. Honestamente, nado em outros mares.

Propus fazer o que fiz com minha própria pequena. Um batismo “no amor”. Leituras bíblicas, canções de boa energia, votos feitos pelos parentes e amigos. Uma cerimônia em que a criança pudesse ser recebida sem que necessariamente ninguém tenha que se comprometer com sua religião.

Não se falou mais nisso e a menina nasceu, menina vem crescendo linda. Fez um ano dia desses, comemoramos com pizza.

Há pouco tempo, começou a circular uma história cabulosa. Não sei se foi promessa (a quem?), não sei se foi a visão de um anjo que veio do céu. Se foi pressão dos avós ou mesmo um ataque da velha e boa culpa cristã. Ouve-se aqui e ali o papo de que a menina, vai, sim, ser apresentada à igreja católica apostólica romana. Que seus pais vão, sim, prometer criá-la sob os preceitos da hóstia. Que seu padrinho (no caso, eu), vai apresentá-la ao padre, declarar-se integrante do mesmo rebanho e comprometer-se a ajudar os pais na formação cristã da pequena.

O pensamento, só ele, começou a incomodar. Meu próprio respeito por quem segue essa religião (ou qualquer outra) já representaria um impedimento. Ao batismo. Ir a uma missa é uma coisa. Gosto de frequentar cultos religiosos, de todas as denominações. Gosto de encontrar semelhanças entre os ensinamentos, de perceber que as boas ações e o amor costumam ser assuntos frequentes nas congregações. Daí a me fazer passar por integrante, já é outra história.

Curto muito ser padrinho. De sentir-me corresponsável pela educação da menina. Da tarefa de podê-la ensinar um par de coisas, de cuidar se algum dia for necessário. Acho bacana o elo que se fortalece entre eu e meu irmão, também padrinho de minha filha (que vai escolher sua religião – ou não – quando bem entender).

Então decidi. Como milhares de pessoas fazem todos os dias, vou topar a parada. Quer ir pra a igreja, vamo nessa. Jogar uma conversa pro padre? Prometer as paradas todas por algum motivo qualquer? Vamo nessa, eu encaro. Chego na frente do altar, seguro a vela e vou logo descumprindo o oitavo pecado (não levantar falso testemunho). Tenho bons motivos ou pelo menos acredito ter.

Depois eu peço perdão e fica tudo zerado.

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

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