Já escrevi aqui sobre falta de tempo e/ou da sensação que a gente tem de que estamos sempre com pressa – e na verdade estamos mesmo. Colocar a culpa na tecnologia e na atualidade é fácil, difícil é admitir que, na maior parte das vezes, gastamos tempo procrastinando – o velho empurrando com a barriga, só que com nome pomposo – ou escolhendo mal como gastamos nosso tempo. E aqui eu poderia dizer que rede social é válvula de escape fácil para aqueles momentos em que tudo que a gente quer é… voar! A verdade é que, segundo estudiosos seriíssimos, as novas mídias de relacionamento podem ser tudo, menos perda de tempo ou inutilidade. Isso porque a Humanidade tem, à disposição, um superávit cognitivo que pode, desde que bem utilizado, salvar o mundo.

A profecia/pesquisa é de um de meus autores preferidos – Clay Shirky, colunista de publicações como New York Times e Wall Street Journal e autor de livros como “A cultura da participação” e “Here comes everybody: the power of organizing without organizations”. Em sua palestra no TED Cannes, realizada ano passado, Shirky deu como exemplo um projeto de compartilhamento de informações chamado Ushahidi, que nasceu no Quênia, através da ideia de uma só pessoa e, depois de receber imputs de quenianos e africanos provenientes de outros países, foi adotado no México, em Washington, nos Estados Unidos, e no Haiti, depois dos terremotos. Muito rapidamente, virou uma  plataforma mundial de informações.

O Ushahidi é apenas um exemplo do que a Humanidade é capaz de produzir quando usa o tal excedente cognitivo em prol de causas úteis. A boa notícia é que a colaboração e o uso de tempo em projetos colaborativos só crescem. Recentemente, durante passagem por São Paulo, o estudioso deu entrevistas nas quais enalteceu o poder das redes sociais como catalisadoras de movimentos colaborativos por conta de sua capilaridade e capacidade de reunir pessoas. Nunca tivemos uma ferramenta como esta. Disse ele: “Muita gente possui tempo livre e pode usá-lo a favor de ações sociais sem sair de casa, simplesmente usando a web. Pessoas podem atuar, por exemplo, disseminando conteúdo educacional de forma colaborativa”.

Faz todo sentido. E isso me recorda uma conversa que tive recentemente com um empreendedor e jovem atuante da comunidade TED e com um amigo ativista que trabalha em prol da valorização do trabalho de talentos desconhecidos de favelas: estávamos conjecturando sobre como seria lindo se as pessoas simplesmente dedicassem um pouquinho de seu tempo extra para educar outras, em suas devidas especialidades, usando como interface essa monstruosa e magnífica descoberta chamada internet. Poderíamos impactar milhares de vidas, num efeito cascata que traria grandes mudanças para a sociedade e até mesmo diminuiria os índices de violência – já que muito dela advém da falta de expectativas e educação.

Temos aqui, porém, um empecilho importante a ser enfrentado – metade da população mundial não tem acesso à bandas estreitas, quiçá à banda larga. Como levar conhecimento a esse povo desplugado? Shirky deu uma resposta no meio de seu TEDTalk – telefones celulares, ou outra forma de tecnologia qualquer. Não foi à toa, portanto, que o criador da Web, Sir Tim Berners-Lee, criou uma Fundação, batizada de Web Foundation, visando a disseminar conteúdo relevante para quem precisa dele. Assim, um agricultor no interior da África pode se conectar a produtores de sementes e a possíveis clientes usando celulares, mensagens de texto, internet sem fio… A tecnologia serve como aliada, apenas. O projeto e o propósito são as molas-mestras. E, claro, desde que nos desviemos dos verdadeiros gastadores de tempo, como a TV. Pelo menos em tempo integral.

Um dado interessante fornecido pelo estudioso: se somarmos todo o tempo despendido pelos americanos durante um ano assistindo vendo TV, apenas recebendo conteúdo e não produzindo, espectadores passivos e não ativos, teríamos nada menos que tempo suficiente para produzir algo como 2 mil Wikipédias/ano, com todo o conteúdo existente lá.

“Ah, mas que coisa mais chata… não vou poder mais ver a minha novelinha de todo dia”? Não estamos pregando o fim da diversão contemplativa, claro (esta escriba aqui, por exemplo, ganha horas por semana assistindo a “Law and order” em todos os seus sabores). A ideia é desviar um pouquinho desse excesso e produzir em vez de consumir. Deixar de procrastinar, sempre uma dor, e começar a realizar o que há de ser feito.

A combinação tempo/generosidade é capaz de realizar milagres, vide o projeto “World Community Grid”, da IBM, que transforma qualquer cidadão em um pesquisador em potencial. Do que se trata? Da conexão, através da Internet, de milhões de computadores que, juntos, criam um “sistema virtual” de grande capacidade, superior à capacidade de muitos supercomputadores, através do site.

Tal trabalho é realizado em etapas, processadas simultaneamente, diminuindo radicalmente o tempo necessário para a execução de uma pesquisa, que pode ser sobre o genoma humano, cura de doenças, descobertas científicas em geral. Tudo a baixo custo, porque o processamento é feito de forma voluntária – eu ofereço o tempo ocioso do meu micro e o projeto usa esse poder coletivamente, construindo um monstro do bem. O que nos custa, além de tempo – nosso e do nosso computador? Um dos projetos existentes graças ao WCG é o “Help Cure Muscular Dystrophy”, que está investigando interações entre proteínas visando à cura de doenças neuromusculares.

Clay Shirky prega que a Humanidade tem, sim, uma habilidade para o voluntariado, a contribuição e a colaboração, muito mais, cá entre nós, do que para criar movimentos de hashtags (tralhas) tratando da vida sexual de certas cantoras. O primeiro insumo para a construção dessa rede de solidariedade, que pode impactar áreas diversas, é o talento que temos (sim, temos!), usado lado a lado com o tempo que nos resta quando nos livramos de trabalho e deveres domésticos (sim, temos!). O mundo tem nada menos que UM TRILHÃO de horas por ano de tempo livre.

Esse tempo não nasceu de uma hora para outra – vem desde o século passado (o longínquo Século XX). A diferença é que o panorama à época das mídias e da comunicação e até das tecnologias permitia apenas às pessoas consumirem quando tinham tempo de sobra – ouvindo rádio, consumindo voz, assistindo TV, consumindo voz + vídeo. Não porque eram acomodadas, mas porque essa era a única fonte que recebiam, não havia alternativas. Agora, somos produtores. E temos tecnologias que nos permitem fazer muita coisa útil com o tempo que nos sobra. E criar e compartilhar faz parte de nossa realidade – santa internet!

Não é à toa que nasce tanta coisa boa – e tanta bobagem, a reboque – no Youtube, no Twitter, no Facebook. Nossas cabeças, e o que carregam dentro, foram criadas (e muito bem) para serem usadas, não para se tornarem meras separadoras de orelhas. Temos tempo para criar e recriar, para renovar e fazer coisas como a série de fotos “Dramatics”, um troço tão sem noção que não encontra classificação – depois dos LOL Cats, fotos que se espalharam como pólvora pela Web mostrando gatos em situações inusitadas e legendas editáveis que iam passando de micro em micro, agora aparecem bichos e pessoas com os “olhos dramáticos”, aquela expressão de pessoas quando encontram uma Maria de Fátima pela frente. A ideia é sensacional, embora totalmente inútil. Mas se podemos criar algo assim, podemos criar muita coisa relevante, e tão divertida quanto.

O preconceito a ser vencido é que boas ações necessariamente precisam ser “coisa de gente chata”. Conheço projetos sensacionais feitos através de voluntariado que proporcionam diversão e bem estar e prazer de fato para quem os executa – é o caso do EnsinaBR e até mesmo do TED (eu mesma tive o prazer de ajudar a organizar um, o TEDxSudeste, voluntariamente, e foi uma das experiências mais sensacionais da minha vida).

A diferença entre fazer algo estúpido como os “Dramatics” (mesmo que engraçado) e fazer alguma coisa realmente relevante, é a lacuna entre fazer nada e fazer algo. Falou e disse, Shirky!

Elis Monteiro é jornalista especializada em tecnologia e mídias digitais

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