“Democracia é bom, mas dá um trabalho danado…”, diz um verso da turma do Quanta Ladeira, que tira onda de toda a população terrena em paródias bem sacadas e cantadas durante o Carnaval pernambucano. Não é à toa.

Pressupondo (como pressuponho) que a democracia tenha como princípio o exercício do poder pelo povo em toda a sua diversidade, é natural que, para que ela exista de fato, o povo realmente exerça esse tal poder. Sacou? Exercer, exercitar? Verbos de ação. De quem pega a faz.

Antes de mim, já disseram sobre a democracia que pode ser representativa ou participativa. Nessa última, que também atende pela alcunha de ‘direta’, a própria população que a terra há de comer é quem diz o que quer e como quer.

Por essas bandas, existem alguns instrumentos que fazem valer a participação. Audiências públicas são convocadas todas as semanas nas mais diversas casas legislativas para discutir leis, projetos ou programas. Dezenas de conferências acontecem todos os anos e definem políticas dos mais variados segmentos. Em alguns municípios, pedacinhos do orçamento público são definidos em consultas abertas. Até projeto de lei a sociedade pode propor sem precisar do Congresso. São os chamados PL de Iniciativa Popular. É difícil pra cacete, tem que pegar assinatura que só a gota serena. Mas que dá pra fazer, dá. Tá ligado o Ficha Limpa? Pronto, foi assim.

Na representativa, também chamada ‘indireta’, escolhemos pessoas ou grupos (partidos?) que – dã – têm a função de nos representar. Mas se engana que essa brincadeira termina quando a gente aperta o pitoco verde da urna eletrônica. Eleger não é dar carta branca a Seu Ninguém. Representação não é uma simples e plena cessão de autoridade. E aí, mizifia, não adianta ficar reclamando na frente da televisão. Vale nada mostrar toda a sua brabeza para o motorista de táxi, o garçom, a manicure ou o cabeleireiro. Pra fazer a democracia acontecer de verdade, também tem que se mexer.

É aí que você telefona pra a vereadora pra perguntar como ela vai se posicionar sobre determinado projeto. É quando junta a galera pra assinar uma cartinha cobrando o monitoramento daquela obra pública. Quando a estudantada pinta uns cartazes bacanas e arruma um ônibus pra levar todo mundo naquela sessão em que os deputados estão votando a verba para o ensino médio do ano que vem. Ou mesmo quando as redes sociais são acionadas pra botar milhares de pessoas nas ruas pedindo a descriminalização da maconha, do aborto ou o que quer que seja.

Às vezes é chato. Às vezes é um saco. Procurar acompanhar minimamente o trabalho dos três poderes driblando a crônica falta de acesso à informação que sempre assolou nossas políticas públicas, procurar se informar sobre os calendários, as consultas e as formas de participação. Tomar ocasionais chás de cadeira ou ser tomada como doida por aquele verea crente que sua função é usar verba de gabinete pra comprar ambulância.

Algumas coisinhas ajudam. Articular-se com grupos da sociedade civil (organizada ou desorganizada) que têm interesses comuns. Acompanhar de alguma forma o trabalho de movimentos que querem mais ou menos isso que você também quer. Aprender a usar as ferramentas das mídias sociais para fazer suas mensagens chegarem a seus representantes.

Ainda é cabuloso? É, pode ser cabuloso. É trabalhoso? É, pode ser trabalhoso. E pode ser divertido também.

Mas existe um sistema político em que você não precisa fazer absolutamente nada disso. O nome dele é ditadura. Não sei se você tá afins.

Ivan Moraes Filho é escrevedor e não tem opinião formada sobre tudo. E as que tem ainda pode mudar.

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