A coisa mais esquisita sobre o preconceito, que já é esquisito por si – sim, porque, examinando a palavra a partir de suas partes (pré e conceito), convenhamos: se é pré, é porque não conhecemos bem a coisa/pessoa/ideia sobre a qual formamos o conceito. E formar conceito sobre o que não conhecemos bem é muito esquisito, pra não dizer idiota – então, dizia eu, a coisa mais esquisita sobre o preconceito é que, apesar de poder até murchar (e depois recrudescer, feito uma célula cancerosa), ele não morre nunca: só muda de alvo.

Claro que existem pessoas realmente sem, ou quase sem preconceitos, assim como aquelas que, sabendo que ainda os têm, lutam contra eles a cada dia. Paz e vida longa a todas estas. Mas não é delas que estou falando, até porque, cá entre nós, também são minoria e merecem tanto o nosso apoio quanto o sagrado e delicioso direito de ser deixadas em paz.

Correndo o risco de atrair o ódio dos fofos que chamo (até um segundo atrás, só de mim pra mim mesma) de novos preconceituosos, me arrisco a dizer até que o preconceito-carcinoma não muda exatamente nem de tipo de  praticante. Mas como, alguém pode pensar, como comparar um homofóbico ou racista (que nem eram assim chamados quando eram a norma, a maioria absoluta, 40 anos atrás) com as moças que desfilam na marcha das vadias ou os héteros que aplaudem a parada gay? Elementar, meus caros: ambos os tipos simplesmente seguem a moda do seu tempo. E por mais que seja triste admitir que até uma coisa imbecil como o preconceito tem moda (que também não é a mais inteligente das distrações humanas, segundo Oscar Wilde), uma reflexãozinha rápida mostra que há uma forte possibilidade disso estar acontecendo, agora mesmo, na sua rua, na sua casa ou até mesmo aí, na sua cadeirinha, na frente do computador.

Senão vejamos: os preconceituosos são normalmente pessoas que por algum motivo se acham superiores, não exclusiva, mas principalmente, “moralmente superiores” à maioria das outras. Há 40 anos, os maiores representantes dessa laia eram os héteros, brancos e católicos de direita. Agora, são principalmente os liberais – grande parte, mas não todos, de esquerda, de várias cores e orientações sexuais e que, pelo menos da boca pra fora, aceitam e aplaudem as diferenças: mas só as diferenças que pega bem aceitar e aplaudir. Pior, alguns levam a hipocrisia a tal ponto que até fingem apoiar a todos-todos mesmo, mas não perdem uma chance de cuspir, como insultos, palavras que para os monstros preconceituosos de 40 anos atrás não passavam de adjetivos sem (ugh) valor agregado. Palavras como “gorda”, “velho”, “fumante”, “feio”, “sedentário”, por exemplo.

Agindo como uma cópia um tantinho mais pobre e mal-feita dos nossos vizinhos de cima no edifício América, os novos preconceituosos brasileiros têm tanto medo da decrepitude, entropia e morte que conseguiram se convencer de que só é gordo, velho, fumante, feio e sedentário quem quer, ou seja, quem não tem força de vontade, determinação ou vontade – e dinheiro, coisa que eles não admitem, mas também não perdoam muito – necessários para se enquadrar em seus modelos, ou seja, todos os que são assim não passam de uns escrotinhos sem caráter.

E se eu estiver certa nisso, e acho que estou, ao pensar assim eles se revelam preconceituosos até contra aqueles a quem supostamente apóiam. Porque o raciocínio lógico é que, se elas não aceitam quem é diferente delas ou das normas estéticas da sociedade atual supostamente por vontade própria, isto significa que só aceitam os diferentes que “não têm culpa” de serem quem/como são. É cavucar um pouco mais pra descobrir lá no fundo um cerne de “coitadinho, ele não é preto/gay/deficiente porque quer”. Bonito, né?

Mas o melhor de ser um preconceituoso do tipo que não só não ousa dizer como sequer tem consciência do seu verdadeiro nome é que, por estar na moda, ao ser preconceituoso(a) só contra as pessoas “certas”, o garboso rapaz ou a longilínea moça pode continuar se achando uma pessoa “do bem”, ao mesmo tempo em que se orgulha de destratar o fumante que“fede”, mesmo quando não está fumando, chamar a colega que lhe é antipática de balofa ou qualquer um com mais de 40 anos de velho caquético passando da hora de morrer. Isto pelo menos até que o movimento pró-gordos, old is gold ou sei lá eu qual outro tome força suficiente pra que comece a pegar mal mesmo pra valer usar essas variações de “viado” e “crioulo” do admirável mundo novo.

Mas eu não me preocuparia se fosse um dos neo-precons: mesmo que isso aconteça – ah, sejamos realistas: mesmo quando isso acontecer -, sempre vai haver algum tipo de pessoa que o consenso geral aceite que tenha sido feita pra apanhar, boa de cuspir e de se jogar bosta. Os fumantes, certamente, vão estar entre estes, pelo menos até que o último deles – morto de câncer ou de tédio – dê o último suspiro e volte, aliviado, para as cinzas de que veio, mas quando ele se for, outras Genis surgirão. E se não surgirem imediatamente, todos podem voltar, como se algum dia tivessem saído, a abusar do tipo de vítima mais clássico, aquele que desde antes de Cristo já era o preferido por dez entre dez seres humanos de ambos os sexos, de todas as cores, idades e religiões para se humilhar, diminuir e fazer piada sem graça: as mulheres.

Cynthia Feitosa é publicitária, tradutora, blogueira e implicante pela própria natureza.

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